3.9.13

Tratado ínfimo sobre a igualdade das cores

            Um dia, escovando os bigodes, Julio deu-se conta de que tal qual amava o gosto do mate desaçucarado, também assim se sentia vendo ônibus amarelos. Pegava-se pensando neles a todo o momento, em como ficavam bonitos ao atravessarem as pontes da cidade, delirantes no complemento sob sol e no contraste sob chuva.
            Quando com instantes livres, Julio suspendia seu proeminente dia-a-dia para apoiar-se em qualquer buraco de onde fosse possível averiguar as grandes caixas amarelas e com rodas. Em seu quarto, em sua sala, em seu banheiro e em sua cozinha ia lentamente se amontoando o vício. Enquadramentos. Pois Julio resgatara do falecido avô a máquina fotográfica, para capturar épicas poses inundadas de amarela aventura. Nelas, por talento e mágica, fazia com que os ônibus desenvolvessem personalidades. Captava o tédio de um deles detido no trânsito, a impaciência de outro perante o semáforo, voos sem decolagem pelos corredores das avenidas, o noturno olhar-se no espelho perante as luzes das lâmpadas nos postes.

                 Feições e posturas pululavam nos retratos. Ao centro, visualizando-os, neles visualizando-se, Julio velava sua monomania por uma solitária faixa do espectro de tonalidades, o amarelo largamente pelo cimento corroído de sua casa. Então decupava, com pregos bem pequenos, trajetórias rodando em carrossel pela parede: remontavam-se em marteladas conforme a disposição de seu criador. Na cabeça, Julio distinguia até um barulhinho, e um ratatá de projetor destacava-se do restante de si, misturando-se a buzinas e freios irreais.
            Por oito horas num domingo (recorde pessoal), Julio permaneceu sentado em um ponto de ônibus, um único, um só, bebendo mate desaçucarado saído de uma garrafa térmica, atentando-se somente aos coletivos cor de gema. E aos domingos, bom lembrar, cada um dos ônibus que passa exige um deleite prolongado, que deve ser estendido até quase afrouxar-se, elástico de bailarina, afinal nesse quase dia morto todos eles dispersam em muito seus intervalos de circulação, que dirá então os amarelos, tão raros pelo cinza saliente da cidade.
            O mistério, no entanto (algum sempre haverá...), residia no fato de que Julio não ousava colocar os pés dentro de ônibus amarelo nenhum. Restringida, sua obsessão não ultrapassava as portas e janelas do veículo a não ser com o olhar. Quase oculto, brotava dentro de Julio um medo fugaz, o de não saber se o interior com bancos e catraca corresponderia à superfície tranquilizante e destemida que o amarelo lhe oferecia.
            Na chuva de um dia, contudo, apareceu a solução. Pego de assalto nos nervos da rua, desolado e correndo para se abrigar, blasfemando ensopado para logo chegar em casa e aquecer-se nos goles do mate, Julio aproximou-se do poste azul Miró de um ponto ao mesmo tempo em que um ônibus amarelo também o fazia. O tempo gotejando, inchado e ilusório, sentenciava: jamais ou agora.
            O agora optado, numa faísca da consciência, Julio estendeu os dedos e o braço direito em coragem molhada. Freando, o ônibus expandiu sua porta feito uma boca. Brotou o suspiro do breque. O motorista fez aguardar, caçando os olhos de Julio...
            Um degrau comprido, dois, três, e então o corredor, Julio deslizou, o ônibus arrancou, a tempo de chegar pelo vento a breve constatação de que a chuva ficara para trás e de que o interior daquele ônibus amarelo era gêmeo em princípio ao interior de qualquer outro ônibus de qualquer outra cor. Uma constatação tal, sobre qualquer um que estivesse em situação obsessiva semelhante à de Julio, poderia deslocar os nervos até a depressão profunda, penhasco abaixo. Mas a chuva cessou de repente, saiu a luz, trazendo consigo a possibilidade do sol flamejar outras cores.
            A cura da igualdade é quem agora assola Julio: nas paredes de sua casa há o gracejo de um arco-íris de retratos, um filme em tecnicolor. Aos fins de semana, o encarecido protagonista vence e deixa o tempo para trás enquanto encalça poses de todos os ônibus com os quais cruza o olhar. Não importa o tom, a cor, não importa a idade ou os propósitos sociais de suas existências. Julio apaixonou-se pela multiplicação. Evoca todos os matizes. E quando se cansa de fotos, senta-se em algum boteco e pede café, sem açúcar.



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