A
primeira noite de um homem. Aguardo. No balcão do bar, tudo caminha bem. O
rapaz corteja a moça, sem abusos no consumo de álcool. Suas frases fluem,
piadas, fazem fluir os dentes da mulher, num sorriso de aceitação. A primeira,
sim, será. Então deixam o bar, dirigindo-se ao apartamento dela. A noite ressoa
seus passos e suas vozes em ruas já esvaziadas. Destino atingido. Sobem pelas
escadas. O elevador quebrado incrementa a expectativa. Já de frente para a
porta, a mulher brinca com a chave entre os dedos, feito gato com novelo. Será.
A primeira, a primeira. Num ímpeto cavalheiresco, o rapaz busca a coroação da
conquista. Oferece-se para abrir a fechadura, viabilizar o festejo. Se apruma,
galo macho. Inserida a chave, entre pequenos tremores de sua mão. Será. Não?
Pois é aí que emperra, começa a suadeira, aumentam os tremores antes
imperceptíveis, a moça diz que é assim mesmo, que a fechadura é enjoadinha,
precisa jeito, sabe como é, não, não sabe, a frase para liberar a calma só
aciona o desconforto, a possível primeira noite pesa, a mão do rapaz se
embanana, até amolece, perde firmeza, e num rasgo de descontrole tudo se perde,
pois a chave do prazer encontra-se agora partida, virgem ainda, quebrada no
interior da fechadura, e a primeira das noites se distancia, lentamente, já
chega a madrugada repleta de justificativas e de adeus.
O problema com a fechadura da porta
de minha casa naquela manhã amarela com cara de antiga logo foi solucionado,
porém o termo “fechadura” se instalou no espaço interno de meu crânio de forma
tal que não tardou muito para que me retornasse à memória, vinda lá da
obscuridade, esta anedota que me foi uma vez contada por I (numa das poucas e
péssimas conversas que tive com I), e que envolvia a simbologia deste utensílio
de uso tão prosaico.
O que I compartilhou comigo naquela
já distante noite (da qual minha recordação mais viva são intensidades das
luzes de janelas vistas de minha própria janela (a festa era em minha casa, e I
não havia sido convidado)) era, supostamente, a cena de um filme de Truffaut
que ele vira há algum tempo e cujo nome não lhe vinha a mente naquele momento,
conforme disse. Lembro-me que a potência da cena evocada por I apoderou-se de
mim com tal violência que, apesar de considerá-lo na época um sujeito bastante
desprezível, me pus a ouvir com atenção o que diziam seus lábios finos. É
preciso reconhecer, sobretudo depois de passados alguns anos, que mesmo
beirando o patético na maioria de suas considerações (posava de polêmico), I
vez ou outra acertava a mão em algum relato, relato que, por sua vez, por sua
qualidade, sempre permanecia fixado em minha mente durante os dias
imediatamente posteriores ao de sua aparição. Contradições.
Este caso que me proponho a narrar
aqui foi um desses. No entanto, em lugar de amortecer o desprezo que eu sentia
por I (como era possível que L, tão admirada por nós, ficasse com ele?), a
anedota e seus descaminhos posteriores somente agravaram a minha já existente e
latente falta de consideração por sua pessoa. Digo isso pois, no dia seguinte,
vasculhei com avidez a internet e alguns livros em busca do filme perdido de
Truffaut que continha a cena da fechadura, aquele cuja existência me foi
concedida num lapso inspirado da boca de I, imersa entre sua voz barítona, a
fumaça de seus inúmeros cigarros e as pontas de seus gordurosos cabelos, aquele
que me parece hoje (e me pareceu na época) uma gigantesca falácia.
O fato é que o dito filme até agora
sem nome não parecia ter procedência real de acordo com o que indicavam minhas pesquisas.
Em nenhum lugar foi possível encontrar uma associação entre “Truffaut” e
“fechadura”. Vi e revi dezenas de seus filmes e ao fim de cada um deles
lamentava não ter encontrado o tesouro. Pensando hoje, mesmo que assistir
Truffaut não seja martírio algum, me arrependo de ter desperdiçado tantas horas
de minha vida numa empresa que, desde o princípio, não pareceu nem um pouco
promissora e que prejudicou, por certo, minha apreciação dos filmes, visto que
durante eles não pensava em outra coisa que não o momento da fechadura. Após o
fracasso quase consumado da busca, lembro-me que cogitei o porquê da mentira de
I, por que não dizer, simplesmente, que a anedota era algo que ele próprio
tinha concebido (hipótese improvável), ou que se tratava de algo visto por ele
em outro lugar que não num filme de Truffaut (probabilidade maior).
O que sei é que, passados alguns
minutos nisso, nessa confabulação, cheguei a uma conclusão suavemente
satisfatória dos motivos que tinham feito I mentir na noite da festa. Levando-se
em consideração que se trata de uma anedota ligeiramente vexatória, na qual o
personagem principal se mostra inseguro e despreparado (um adolescente querendo
ser homem), pensei que talvez, de fato, a história tivesse acontecido com I e
que, para não sair tão mal do caso, para enobrecê-lo através da arte, ele tenha
metido em sua cabeça ansiosa por aceitação intelectual que o ocorrido fazia
parte do filme de um grande diretor. Como bem se sabe, uma mentira muitas vezes
contada brota, em determinado momento, natural, como verdade incontestável.
Tendo atingido este desfecho para
explicar a inexistência do filme (e também para intensificar a imbecilidade e o
pedantismo de I), senti-me, até certo ponto, contente. Eu desvendara o truque,
e isso me passava segurança e até uma sensação de maturidade, qualidades que o
homem da anedota (I?) mostrava não dominar por completo. Porém, naquela manhã
do problema com a fechadura, quando comecei a pensar de novo no caso, sentado
no ônibus que rasgava a avenida, percebi que minhas conclusões passadas haviam
sido falhas e precipitadas, tornando-me um péssimo “detetive”. Talvez (e nisso
pensei descendo do ônibus) as mentiras de I quanto a anedota haviam sido de
caso pensado. Talvez I estivesse um passo além de todos nós em matéria de
ficção na época, de contação, e relatara uma anedota de autoria sua, porém
atribuindo-a a um grande nome da narrativa moderna, Truffaut, apenas para
constatar a legitimidade que sua prosa possuía perante os ouvidos alheios sem
que esses se dessem conta disso. Ali se encontrava um verdadeiro escritor,
pensei, I, um sujeito que abdicava da autoria de uma história para que esta
ganhasse vida planando na realidade, em formato de uma suposta cena (real?) de
cinema. Fellini mesmo não se dizia ser, no fundo, um grande mentiroso?
Encontro-me carregado, incomodado
nos últimos dias. Devo procurar I, no intuito de esclarecer os fatos, de
esclarecer o propósito da anedota? Minhas sensações quanto a ele me parecem
cada vez mais conflitantes, contraditórias, já que, num respiro, todo o
ridículo de sua pose, sobressalente, sucumbiu a um possível ato de pura
genialidade narrativa. Alguém, algum mísero leitor que aí esteja, saberia me
informar se a tal da cena do tal do filme de fato existe, para que eu não precise
mais conviver com a absurda genialidade de I, para que eu possa voltar a
taxá-lo de desprezível sem remorso, para que meu orgulho não saia tão ferido
assim do caso todo?
Ultimamente, mesmo com a fechadura
em ordem, tenho tido problemas para abrir a porta de casa, para evitar a quebra
da chave dentro da fechadura. Penso no dia em que se encontrar ao meu lado,
aguardando a abertura da porta, uma mulher, e em mim estiver estalando o desejo
pela primeira das noites que tanto anseio. Que farei? Será? A simples
especulação de que I sabia de minha condição, de que sua anedota foi apenas um
deboche de minha pessoa, me faz tremer de indignação e admiração.
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