3.9.13

Visão da Ayahuasca n. 2

(Minha alma nasceu nos Jardins do Éden)


            Foi Aline quem me introduziu àquela floresta imensa e resplendente dos braços brutalmente dourados do Sol que queimava acima de nós. Quem era? Era Aline, como eu sabia? Que nome teria? Por que me conduzia entre os ramos e os berços d'água, por que me acolhia com tanta ternura, com tanta alegria? Era a Mãe Terra? A Madre Ayahuasca, seria? Uma aparição de Nossa Senhora, uma Maria? Minha mãe, talvez, ela seria? (Por um momento, vi que abraçava e nutria uma criança, uma pequena cria, e os braços que a cercavam eram as folhas macias da samambaia. Vi que a criança tinha o meu rosto, e ela desapareceu, então, com um murmúrio de vento lhe tomando o corpo). Eu e Aline. Ela pediu-me o braço, e mostrou no meu pulso erguido a vibração do fogo das estrelas, e que meu corpo todo era feito de terra e de matéria escura, que é como o Céu do Universo se parece quando o olhamos de muito perto. Nos meus olhos apareciam os movimentos intensos de apagar-se dos cometas e um carrossel de galáxias, uma atrás de outra, todas repetindo-se como se fossem a mesma galáxia refletida, e tomando-me pela mão, Aline me chamou disto: de reflexo de galáxia.
            A luz que me aquecia era minha irmã, e ali, aquela mata onde eu também brilhava, aquela era a terra onde eu nasci, o ventre verde de onde verti, eu e cada ser humano, minhas irmãs, meus irmãos, bebemos todos da mesma sagrada fonte. Irmãos mais antigos se lembravam dela por histórias ouvidas em tempos irreconstituivelmente perdidos (porque daquela mata fazíamos parte antes de haver consciência, antes de conhecer a memória, no doce período esquecido em que todos nos ocupávamos apenas de existir, e nada mais era feito), e as lembranças que tinham eram de águas correndo tão puras, e de tal modo maravilhosas ao tocar dos lábios, que esses antigos as chamavam de rios de néctar, de mel, de ambrosia, cuidando de projetar no manto da linguagem o assombro quase divino diante das experiências quando eram as primeiras, e lá, naquele Jardim do Éden, tudo existia pela primeira vez.
            À nossa volta cresciam os mais vigorosos frutos, e os troncos se constituíam com mais vida e força do que as que corriam nos membros da mais poderosas feras, todas elas minhas irmãs. Perguntei a Aline se era ela minha irmã, e qual o nome que tinha. Mas já não falávamos a mesma língua. Sorriu-me, e com um sopro de fogo desapareceu no ar.


Jarinu, 31 de agosto de 2013

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