16.7.13

Sagração

para Adriano

            Certa noite, sob brumas de fumo, conversávamos os quatro num longo transe de falas e pausas, e que se metamorfoseava, conforme galopavam as horas, em ritmo parelho ao do arco de estrelas no céu acima de nós. Entrados já na mais alta madrugada, em determinado momento cessaram abruptamente nossos comentários, e um silêncio apoderou-se da sala com brilho de navalha, e nossos olhos ficaram assim, chocando-se, debatendo-se incertos no vazio de ruídos. Foi então que Adriano, segundos ou minutos (ou horas?) depois, despertou-nos do mergulho, e mencionou um caso que recentemente ouvira da boca de seu irmão. Rapidamente esquecemos daquele interlúdio de áspera quietude, ajeitamos cadeiras e acendemos cigarros, e foi essa rápida mescla de madeira e fogo que preparou-os para a história de um incêndio, segundo pregava nosso amigo-narrador.
            O irmão de Adriano, psicólogo, trabalhava na época em um hospital psiquiátrico num recôndito da zona oeste da cidade. Lá, entrava em contato com peculiares indivíduos, seres obcecados pelas próprias biografias. Foi assim que ficou sabendo da história do incêndio, que era a história de um de seus pacientes, um homem de meia-idade recém-transferido de um hospício no interior do estado. Acontece que este homem botara fogo em uma igrejinha de sua cidade natal, e ninguém ao certo sabia explicar o porquê, ou como se desenrolara tudo até o ápice de tão trágico desfecho. O que se sabia é que o homem nunca fora bem visto pelos outros na cidadezinha, andava sempre cercado por vira-latas e passava os dias sentado na praça a queimar fósforos ou lendo uma bíblia de bolso toda surrada. Num domingo de manhã, sem mais nem menos, atirou diversas garrafas de cachaça na fachada da igreja, para nela descarregar, logo em seguida, uma enxurrada de fósforos acesos. A hora era de missa, e muitos se machucaram gravemente entre as labaredas. O homem foi rapidamente recolhido e encarcerado (sequer ofereceu resistência), e assim permaneceu até que um dos poucos médicos da cidade resgatou-o de uma cadeia para colocá-lo em outra, o hospício. O homem permaneceu na instituição por quase vinte anos, sem nunca esclarecer aos profissionais do local a razão de seu ato.
            Então foi que o hospício fechou por falta de recursos do estado, e os poucos pacientes que lá restavam foram transferidos para a capital. E por essas coisas da vida que se sofre para explicar (simpatia?), na primeira consulta do homem com o recém-contratado irmão de Adriano, consulta de rotina e reconhecimento, o paciente principiou a narrar naturalmente, com marcante sobriedade, o que de fato lhe levara a incendiar a igrejinha. “Foram os anjos”, repetia ele ao final de cada frase, como para reiterar a possessão que sofrera. O fato é que o homem lera uma porção de vezes em sua bíblia surrada a palavra “sagração”, sem nunca compreendê-la por completo. Perguntou mais de uma vez ao padre qual era o sentido do termo, mas o padre já era velho e mais pra lá do que pra cá (talvez tão louco, em segredo, quanto o nosso incendiário), e desandava a falar um bocado de palavras e anedotas incompreensíveis.
            Contou o homem que, na manhã de domingo do incêndio, após olhar fixamente para o sol por alguns minutos, luzes amarelas (anjos?) irromperam perante si, afirmando-lhe que o significado de “sagração” era “oferecer calor a Deus”. O homem, muito religioso, seguiu à risca a orientação de sua visão. O resto são cinzas e passado.
            Não se sabe se de fato foram anjos, nem qual obscuro mecanismo agiu secretamente na cabeça do homem, ligando os pontos, erigindo uma faísca que acabou fugindo de controle, materializando-se em larga fogueira. Nessa terra arrasada da mente de cada um, sempre sobram carrascos desoladores esperando por uma oportunidade fatal.
            Só sei que mal a fala de Adriano deu por encerrado o relato, voltou a pairar sobre nós quatro aquele ríspido silêncio de antes. Os olhos de cada um se debatiam levemente, peixes atônitos. Então, no sigilo do som, profanamos uma vez mais o calor da sagração, compartilhando entre nós a caixa com os fósforos que paulatinamente acendiam nossos cigarros.

2 comentários:

  1. como monges, ateemos labaredas em nossos velhos eus...

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  2. os três textos da semana em consonância. no meu caso, pelo menos, completamente involuntário. 'foram os anjos', creio.

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