para Adriano
Certa
noite, sob brumas de fumo, conversávamos os quatro num longo transe de falas e
pausas, e que se metamorfoseava, conforme galopavam as horas, em ritmo parelho
ao do arco de estrelas no céu acima de nós. Entrados já na mais alta madrugada,
em determinado momento cessaram abruptamente nossos comentários, e um silêncio
apoderou-se da sala com brilho de navalha, e nossos olhos ficaram assim,
chocando-se, debatendo-se incertos no vazio de ruídos. Foi então que Adriano,
segundos ou minutos (ou horas?) depois, despertou-nos do mergulho, e mencionou
um caso que recentemente ouvira da boca de seu irmão. Rapidamente esquecemos
daquele interlúdio de áspera quietude, ajeitamos cadeiras e acendemos cigarros,
e foi essa rápida mescla de madeira e fogo que preparou-os para a história de
um incêndio, segundo pregava nosso amigo-narrador.
O
irmão de Adriano, psicólogo, trabalhava na época em um hospital psiquiátrico
num recôndito da zona oeste da cidade. Lá, entrava em contato com peculiares
indivíduos, seres obcecados pelas próprias biografias. Foi assim que ficou
sabendo da história do incêndio, que era a história de um de seus pacientes, um
homem de meia-idade recém-transferido de um hospício no interior do estado.
Acontece que este homem botara fogo em uma igrejinha de sua cidade natal, e
ninguém ao certo sabia explicar o porquê, ou como se desenrolara tudo até o
ápice de tão trágico desfecho. O que se sabia é que o homem nunca fora bem
visto pelos outros na cidadezinha, andava sempre cercado por vira-latas e
passava os dias sentado na praça a queimar fósforos ou lendo uma bíblia de
bolso toda surrada. Num domingo de manhã, sem mais nem menos, atirou diversas
garrafas de cachaça na fachada da igreja, para nela descarregar, logo em
seguida, uma enxurrada de fósforos acesos. A hora era de missa, e muitos se
machucaram gravemente entre as labaredas. O homem foi rapidamente recolhido e
encarcerado (sequer ofereceu resistência), e assim permaneceu até que um dos
poucos médicos da cidade resgatou-o de uma cadeia para colocá-lo em outra, o
hospício. O homem permaneceu na instituição por quase vinte anos, sem nunca
esclarecer aos profissionais do local a razão de seu ato.
Então
foi que o hospício fechou por falta de recursos do estado, e os poucos pacientes
que lá restavam foram transferidos para a capital. E por essas coisas da vida
que se sofre para explicar (simpatia?), na primeira consulta do homem com o
recém-contratado irmão de Adriano, consulta de rotina e reconhecimento, o
paciente principiou a narrar naturalmente, com marcante sobriedade, o que de
fato lhe levara a incendiar a igrejinha. “Foram os anjos”, repetia ele ao final
de cada frase, como para reiterar a possessão que sofrera. O fato é que o homem
lera uma porção de vezes em sua bíblia surrada a palavra “sagração”, sem nunca
compreendê-la por completo. Perguntou mais de uma vez ao padre qual era o
sentido do termo, mas o padre já era velho e mais pra lá do que pra cá (talvez
tão louco, em segredo, quanto o nosso incendiário), e desandava a falar um
bocado de palavras e anedotas incompreensíveis.
Contou
o homem que, na manhã de domingo do incêndio, após olhar fixamente para o sol
por alguns minutos, luzes amarelas (anjos?) irromperam perante si,
afirmando-lhe que o significado de “sagração” era “oferecer calor a Deus”. O
homem, muito religioso, seguiu à risca a orientação de sua visão. O resto são
cinzas e passado.
Não
se sabe se de fato foram anjos, nem qual obscuro mecanismo agiu secretamente na
cabeça do homem, ligando os pontos, erigindo uma faísca que acabou fugindo de
controle, materializando-se em larga fogueira. Nessa terra arrasada da mente de
cada um, sempre sobram carrascos desoladores esperando por uma oportunidade
fatal.
Só
sei que mal a fala de Adriano deu por encerrado o relato, voltou a pairar sobre
nós quatro aquele ríspido silêncio de antes. Os olhos de cada um se debatiam
levemente, peixes atônitos. Então, no sigilo do som, profanamos uma vez mais o
calor da sagração, compartilhando entre nós a caixa com os fósforos que paulatinamente
acendiam nossos cigarros.
como monges, ateemos labaredas em nossos velhos eus...
ResponderExcluiros três textos da semana em consonância. no meu caso, pelo menos, completamente involuntário. 'foram os anjos', creio.
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