Aquela foi uma época de muitos cigarros. Costumava
apagar uns trinta por jornada. Um ritual diário que me aproximava da morte, eu
sabia, mas tudo nos aproxima da morte, disso também sabia, até seguir inflando
e desinflando os pulmões com combustível para as células nos aproxima da morte,
a morte é questão de tempo, por isso seguia apagando minhas trinta ou menos
bitucas por dia (desse número nunca passava), esquecendo-me de suas implicações
futuras, e minhas preocupações maiores repousavam sobre ideias como: a partir
de que momento do arco do dia se institui chamar o que convencionamos chamar de
pôr do sol? ou, existirá um espaço no cosmos onde todos os acontecimentos da
história residem livres de qualquer memória humana para serem vislumbrados e contados
sem subjetividade? ou até, quantas páginas de quantos livros, sem repetições,
já foram lidas desde que páginas existem para serem lidas?, e meu pensamento
planava na toada dessas questões, o fumo e a varanda na qual me sentava para
fumar naquele hotelzinho vagabundo do centro talvez me deixassem inclinado a
esse tipo de reflexão sem utilidade alguma a não ser o sabor que destila ao
percorrer uma mente como a minha, propensa ao nada.
De qualquer forma, com respostas ou
sem respostas imaginadas ou cogitadas para tais e outras indagações, meu rito
cigarro + varanda se repetia diariamente, sempre que chegava do serviço, depois
de um turno de pratos e xícaras colocados e recolhidos pelas casas de mesas no
tabuleiro do salão do bar, subia as escadas do hotelzinho já enrolando meu
tabaquinho que mantinha junto a mim o dia todo como fiel escudeiro, meu Sancho,
assim como faço e fiz com outras coisas em outros momentos, livros, canivetes,
cadernos, e assim por diante, pequenas obsessões de irmandade com os objetos
que nos proporcionam vida, que carregam nossa vida, e me dirigia degrau após
degrau até a varanda e lá fumava, mesmo que o crepúsculo fosse de garoa ou até
de chuva torrencial, bastava fazer uma concha com os dedos em volta da brasa e
seguir tragando, os olhos em riste, vasculhando as outras varandas dos outros
prédios irmãos de rua daquele hotelzinho.
Foi uma temporada de solidão. Fugir
dá nessas coisas, em inevitável solidão. Mas com o tempo e com tantas fugas
tramadas, fui me habituando a criar macetes para driblar a falta de companhia.
Por vezes, passava horas de meu tempo livre deitado, olhando para as estrias
sujas ou para o lustre do teto sob o qual estivesse passando minhas noites, e
repassava em meu telão da memória diversos acontecimentos esparsos da minha
trajetória, como brigas com meus pais ou com mulheres, ou porres desfrutados em
caminhadas noturnas por ruas e avenidas nas diversas cidades que percorri pelo
planeta, ou ligar a imagem mental que tinha dos rostos de antigos amigos com a recordação
viva ou nem tanto do timbre de suas vozes. Também lia muito, os livros dão
ótimos parceiros, sem dúvida, às vezes, no entanto, brigava com eles e
passávamos por um rápido divórcio, e eu gastava algum tempo indo ao cinema ou
sentando em bancos de praças sujas, olhando os craqueiros, os velhos e os
bêbados, ou mesmo empresários e peões caminhando, e anotava tudo que via e
pensava em fragmentos em meus cadernos. Um dia, ainda brigado com os livros,
enquanto fumava na varanda, dei um tempo de xeretar as varandas e janelas
alheias, estavam quase todas quietas e esvaziadas, e então comecei a vasculhar
um desses cadernos velhos, que encontrara no fundo de uma mochila usada e
empoeirada perdida debaixo da cama, e lá encontrei passagens desconexas e
linhas dispersas produzidas num passado nem tão distante, mas do qual não me
recordava bem, coisas como:
um
homem falando sobre devaneios absurdos do cérebro de um demente. encarna na
mente uma ideia de técnicos de futebol como personagens trágicas.
(o conto se encerra
na casa de Gertrude Stein)
ou
resolvi
andar para esquecer que os raios do sol eram mais poderosos do que eu. em vão.
nada mais parecia nascer naquele dia em que as roupas flutuavam na varanda
enquanto ela secava os cabelos para arrumar o penteado e eu sentindo fome
desesperada. e a manhã branca lavando os olhos, a vegetação, o ar e o rio
cortando a cidade ao fundo.
Vasculhei outros trechos desse tipo
pelo caderno e sorri por dentro, e pensei que ali existia potencial para alguma
coisa, só não sabia para quê, nem como ampliar ou organizar aquilo tudo, por
isso me contentei com a ideia fácil e fugidia de que aqueles instantes
registrados se bastavam apenas naqueles pedaços de folhas de caderno, e em
nenhum outro lugar, sem pretensões muito maiores.
Apesar desses, digamos, passatempos
diversos para aniquilar a solidão, naquela época dos muitos cigarros o meu
passatempo favorito era mesmo fumar e bisbilhotar as outras varandas e janelas
defronte a minha. Ali encontrava recompensas que renovavam-se constantemente,
apesar da repetição de seus autores e ações. Sempre via, por exemplo, uma
menina que sentava em uma rede amarela e balançava de lá para cá, acelerando ou
alongando o ritmo da oscilação, e me vinha à cabeça o que estaria na cabeça
dela enquanto sentia o vento em seu rosto com todo aquele balançar. Também
sempre via um senhor de meia idade e bigodes que encostava os cotovelos no
parapeito de sua janela para beber café ou fumar, e sentia nele um companheiro
de vício e um irmão de solidão. Ou vasculhava o apartamento das três amigas
gordas e seus gatos, e lá pulsava uma estranha interação de personagens reais
que me dava vontade de escrever alguma coisa, algumas linhas, mas sempre ficava
com preguiça de entrar e procurar o caderno e uma caneta em meio a minha
bagunça, por isso seguia sentado, somente olhando.
Uma varanda, em especial, consumia
horas de meus dias. Nela sempre distinguia uma senhora, chutava que de uns
setenta anos. Ela costumava sentar-se para fazer tricô ou simplesmente olhar a
rua. Estava sempre de casaco, e em muitas ocasiões pensei vê-la movimentando de
leve os lábios, como se rezasse ou falasse consigo mesma. Os dias passavam e
ela seguia seu rito sem tormentos, assim como eu seguia meu rito, e
compartilhávamos distantes um do outro pela largura de uma rua um espaço no
mundo para a realização desses nossos ritos, esses instantes que vamos
acumulando até que algum evento um pouco maior e fora de comum acontece, e
então é preciso tomar uma decisão. Era sempre na iminência da chegada de
momentos como esses, de decisão, que eu sentia pulsar em mim a ânsia por fugir,
e fui me habituando a isso pela vida toda, acostumando-me a deixar tudo para
trás e evitar a escolha. A senhorinha, pelo contrário, me parecia sempre
tranquila, e para mim ficava a impressão de que ela existira sempre daquele
jeito, sempre senhora, sempre tricotando, sempre rezando, livre de ter que
decidir entre ficar e enfrentar ou fugir. Parecia livre do tempo. Creio que por
isso gostava tanto de olhá-la, me passava uma calma, uma tranquilidade, uma
esperança de que eu nunca mais teria de decidir coisa alguma e que passaria o
resto dos meus dias assim, inerte como ela, numa varanda, preocupando-me com
nada mais além da perfeição de fumar e deixar meus dias morrerem.
Com pensamentos deste ou desse ou
daquele modo foi que eu convivi no caminho entre o bar e o hotelzinho todos os
dias durante muitos e muitos dias, e sempre que começava a subir os degraus
enrolando um cigarrinho me batia uma ansiedade por encontrar logo, ao sair em
minha varanda, a imagem da senhorinha sentada em sua varanda, seu semblante
intocável, sua postura e gestos que mastigavam e dominavam o tempo com maestria
indubitável, domínio de causa digno de inveja. Por algum tempo, meses,
depositei nessa prática toda minha crença e certeza do que era o equilíbrio
perante a realidade, um equilíbrio que não era alegre nem triste, um equilíbrio
livre de designações sentimentais, a falência dos sentimentos perante um ato
realizado à perfeição, tricotar e rezar, tricotar e rezar, tricotar e rezar,
tique-taque, um relógio puro, o tempo puro, o cronômetro virgem. Alimentava a
esperança de que nunca mais pulsaria em mim o anseio por fugir.
Foi assim até o dia em que cheguei
do expediente, subi as escadas, entrei em meu quarto, saí na varanda e, no
momento em que unia o fogo do fósforo à ponta do cigarro, vi a senhorinha se
atirando de sua varanda num vôo livre e melancólico, sem bater de braços,
apenas mergulho e o casaco como asas rasantes. O barulho da queda aliado ao
primeiro trago do cigarro foram suficientes para eu saber que chegara a hora de
fugir mais uma vez.
A primeira impressão foi a de uma mudança de ambiente e clima. Embora esse personagem ainda conserve o gosto pela subjetividade e introversão, ele parece mais interessado em se dedicar ao vício tabagista do que qualquer atividade intelectual. A existência para ele parece estar resumida a assistir à existência alheia. Um vagabundo tentando entender a vida, fazendo do ócio um ofício e invejando a serenidade quase budista da senhora. mas a vida se revela trágica, o equilíbrio mais delicado do que ele julgava... O final surpreende e justifica o enredo. Me remete a Bukowski (não os textos escatológicos dele), Rubem Fonseca e Bortolotto. Provavelmente, esses autores não tenham sido sua inspiração, mas seu texto fez com que eu lembrasse deles. Continue nessa sua "jornada espiritual" pela prosa que ela vem rendendo bons frutos.
ResponderExcluirAbraço.
Érico