11.6.13

Varanda

            Aquela foi uma época de muitos cigarros. Costumava apagar uns trinta por jornada. Um ritual diário que me aproximava da morte, eu sabia, mas tudo nos aproxima da morte, disso também sabia, até seguir inflando e desinflando os pulmões com combustível para as células nos aproxima da morte, a morte é questão de tempo, por isso seguia apagando minhas trinta ou menos bitucas por dia (desse número nunca passava), esquecendo-me de suas implicações futuras, e minhas preocupações maiores repousavam sobre ideias como: a partir de que momento do arco do dia se institui chamar o que convencionamos chamar de pôr do sol? ou, existirá um espaço no cosmos onde todos os acontecimentos da história residem livres de qualquer memória humana para serem vislumbrados e contados sem subjetividade? ou até, quantas páginas de quantos livros, sem repetições, já foram lidas desde que páginas existem para serem lidas?, e meu pensamento planava na toada dessas questões, o fumo e a varanda na qual me sentava para fumar naquele hotelzinho vagabundo do centro talvez me deixassem inclinado a esse tipo de reflexão sem utilidade alguma a não ser o sabor que destila ao percorrer uma mente como a minha, propensa ao nada.
            De qualquer forma, com respostas ou sem respostas imaginadas ou cogitadas para tais e outras indagações, meu rito cigarro + varanda se repetia diariamente, sempre que chegava do serviço, depois de um turno de pratos e xícaras colocados e recolhidos pelas casas de mesas no tabuleiro do salão do bar, subia as escadas do hotelzinho já enrolando meu tabaquinho que mantinha junto a mim o dia todo como fiel escudeiro, meu Sancho, assim como faço e fiz com outras coisas em outros momentos, livros, canivetes, cadernos, e assim por diante, pequenas obsessões de irmandade com os objetos que nos proporcionam vida, que carregam nossa vida, e me dirigia degrau após degrau até a varanda e lá fumava, mesmo que o crepúsculo fosse de garoa ou até de chuva torrencial, bastava fazer uma concha com os dedos em volta da brasa e seguir tragando, os olhos em riste, vasculhando as outras varandas dos outros prédios irmãos de rua daquele hotelzinho.
            Foi uma temporada de solidão. Fugir dá nessas coisas, em inevitável solidão. Mas com o tempo e com tantas fugas tramadas, fui me habituando a criar macetes para driblar a falta de companhia. Por vezes, passava horas de meu tempo livre deitado, olhando para as estrias sujas ou para o lustre do teto sob o qual estivesse passando minhas noites, e repassava em meu telão da memória diversos acontecimentos esparsos da minha trajetória, como brigas com meus pais ou com mulheres, ou porres desfrutados em caminhadas noturnas por ruas e avenidas nas diversas cidades que percorri pelo planeta, ou ligar a imagem mental que tinha dos rostos de antigos amigos com a recordação viva ou nem tanto do timbre de suas vozes. Também lia muito, os livros dão ótimos parceiros, sem dúvida, às vezes, no entanto, brigava com eles e passávamos por um rápido divórcio, e eu gastava algum tempo indo ao cinema ou sentando em bancos de praças sujas, olhando os craqueiros, os velhos e os bêbados, ou mesmo empresários e peões caminhando, e anotava tudo que via e pensava em fragmentos em meus cadernos. Um dia, ainda brigado com os livros, enquanto fumava na varanda, dei um tempo de xeretar as varandas e janelas alheias, estavam quase todas quietas e esvaziadas, e então comecei a vasculhar um desses cadernos velhos, que encontrara no fundo de uma mochila usada e empoeirada perdida debaixo da cama, e lá encontrei passagens desconexas e linhas dispersas produzidas num passado nem tão distante, mas do qual não me recordava bem, coisas como:

            um homem falando sobre devaneios absurdos do cérebro de um demente. encarna na mente uma ideia de técnicos de futebol como personagens trágicas.
(o conto se encerra na casa de Gertrude Stein)

ou

            resolvi andar para esquecer que os raios do sol eram mais poderosos do que eu. em vão. nada mais parecia nascer naquele dia em que as roupas flutuavam na varanda enquanto ela secava os cabelos para arrumar o penteado e eu sentindo fome desesperada. e a manhã branca lavando os olhos, a vegetação, o ar e o rio cortando a cidade ao fundo.

            Vasculhei outros trechos desse tipo pelo caderno e sorri por dentro, e pensei que ali existia potencial para alguma coisa, só não sabia para quê, nem como ampliar ou organizar aquilo tudo, por isso me contentei com a ideia fácil e fugidia de que aqueles instantes registrados se bastavam apenas naqueles pedaços de folhas de caderno, e em nenhum outro lugar, sem pretensões muito maiores.
            Apesar desses, digamos, passatempos diversos para aniquilar a solidão, naquela época dos muitos cigarros o meu passatempo favorito era mesmo fumar e bisbilhotar as outras varandas e janelas defronte a minha. Ali encontrava recompensas que renovavam-se constantemente, apesar da repetição de seus autores e ações. Sempre via, por exemplo, uma menina que sentava em uma rede amarela e balançava de lá para cá, acelerando ou alongando o ritmo da oscilação, e me vinha à cabeça o que estaria na cabeça dela enquanto sentia o vento em seu rosto com todo aquele balançar. Também sempre via um senhor de meia idade e bigodes que encostava os cotovelos no parapeito de sua janela para beber café ou fumar, e sentia nele um companheiro de vício e um irmão de solidão. Ou vasculhava o apartamento das três amigas gordas e seus gatos, e lá pulsava uma estranha interação de personagens reais que me dava vontade de escrever alguma coisa, algumas linhas, mas sempre ficava com preguiça de entrar e procurar o caderno e uma caneta em meio a minha bagunça, por isso seguia sentado, somente olhando.
            Uma varanda, em especial, consumia horas de meus dias. Nela sempre distinguia uma senhora, chutava que de uns setenta anos. Ela costumava sentar-se para fazer tricô ou simplesmente olhar a rua. Estava sempre de casaco, e em muitas ocasiões pensei vê-la movimentando de leve os lábios, como se rezasse ou falasse consigo mesma. Os dias passavam e ela seguia seu rito sem tormentos, assim como eu seguia meu rito, e compartilhávamos distantes um do outro pela largura de uma rua um espaço no mundo para a realização desses nossos ritos, esses instantes que vamos acumulando até que algum evento um pouco maior e fora de comum acontece, e então é preciso tomar uma decisão. Era sempre na iminência da chegada de momentos como esses, de decisão, que eu sentia pulsar em mim a ânsia por fugir, e fui me habituando a isso pela vida toda, acostumando-me a deixar tudo para trás e evitar a escolha. A senhorinha, pelo contrário, me parecia sempre tranquila, e para mim ficava a impressão de que ela existira sempre daquele jeito, sempre senhora, sempre tricotando, sempre rezando, livre de ter que decidir entre ficar e enfrentar ou fugir. Parecia livre do tempo. Creio que por isso gostava tanto de olhá-la, me passava uma calma, uma tranquilidade, uma esperança de que eu nunca mais teria de decidir coisa alguma e que passaria o resto dos meus dias assim, inerte como ela, numa varanda, preocupando-me com nada mais além da perfeição de fumar e deixar meus dias morrerem.
            Com pensamentos deste ou desse ou daquele modo foi que eu convivi no caminho entre o bar e o hotelzinho todos os dias durante muitos e muitos dias, e sempre que começava a subir os degraus enrolando um cigarrinho me batia uma ansiedade por encontrar logo, ao sair em minha varanda, a imagem da senhorinha sentada em sua varanda, seu semblante intocável, sua postura e gestos que mastigavam e dominavam o tempo com maestria indubitável, domínio de causa digno de inveja. Por algum tempo, meses, depositei nessa prática toda minha crença e certeza do que era o equilíbrio perante a realidade, um equilíbrio que não era alegre nem triste, um equilíbrio livre de designações sentimentais, a falência dos sentimentos perante um ato realizado à perfeição, tricotar e rezar, tricotar e rezar, tricotar e rezar, tique-taque, um relógio puro, o tempo puro, o cronômetro virgem. Alimentava a esperança de que nunca mais pulsaria em mim o anseio por fugir.
            Foi assim até o dia em que cheguei do expediente, subi as escadas, entrei em meu quarto, saí na varanda e, no momento em que unia o fogo do fósforo à ponta do cigarro, vi a senhorinha se atirando de sua varanda num vôo livre e melancólico, sem bater de braços, apenas mergulho e o casaco como asas rasantes. O barulho da queda aliado ao primeiro trago do cigarro foram suficientes para eu saber que chegara a hora de fugir mais uma vez. 

Um comentário:

  1. A primeira impressão foi a de uma mudança de ambiente e clima. Embora esse personagem ainda conserve o gosto pela subjetividade e introversão, ele parece mais interessado em se dedicar ao vício tabagista do que qualquer atividade intelectual. A existência para ele parece estar resumida a assistir à existência alheia. Um vagabundo tentando entender a vida, fazendo do ócio um ofício e invejando a serenidade quase budista da senhora. mas a vida se revela trágica, o equilíbrio mais delicado do que ele julgava... O final surpreende e justifica o enredo. Me remete a Bukowski (não os textos escatológicos dele), Rubem Fonseca e Bortolotto. Provavelmente, esses autores não tenham sido sua inspiração, mas seu texto fez com que eu lembrasse deles. Continue nessa sua "jornada espiritual" pela prosa que ela vem rendendo bons frutos.
    Abraço.

    Érico

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