29.4.13

estudo sobre o caminho da floresta


O grande triunfo dos que vivem de paixão é a possibilidade de viver em desprendimento de toda a matéria. Se sou corpo, não luto: entendo. Sendo espírito, solto as amarras da causalidade, do tempo, do espaço e de tudo o mais que sejam só categorias de castração dos sentidos. Sentidos do corpo; existem outros, mais tenazes. A alma tem antenas, e pele, olhos e boca, pode surgir feita em maquiagem e máscaras de vaidade, independente de o corpo vestir, ou não, calças, gravata. Me enoja tudo que é útil e instrumental. O sentido estrito da razão prática precipita-se vertiginoso, em linha reta, sempre adiante e sabendo-se contínuo de tais ou quais pontos do passado. O que serve-para é o vértice do percurso parabólico que resulta do cálculo das máquinas, aquelas de óculos ou de núcleo de silício. Encontra-se sempre na mesma composição. Dos mesmos estímulos da ordem matemática do mundo culmina no objetivo, logos estendido sobre a cama, mesquinho, satisfeito. Orgasmo masculino. O contrário disso é o que imagino para o orgasmo feminino. Possível. Pathos aberto. Grandes lábios em sim. Sim. Sim. Sin. Antipoder. Fluxus. Ilegível. Imperscrutável para o que não sente. Se sai do corpo, vibra, paira diante dos olhos. Se escapa da alma, morre. Mas eu jamais saberia; apenas concebo. Como toda essência de pintura, talvez quadro-negro ferido pelo risco de giz. “E meus olhos repousaram sobre um pescoço nu – um braço nu – eu vi seus quadris em movimento – aqui caminhamos eu e ela para a grande floresta – tronco de árvore sobre tronco de árvore eretos como colunas firmes de uma catedral gótica – e muito acima os galhos em arco feitos teto de igreja – e em tudo uma pequena espiral – linhas e linhas de minúsculas voltas”. O quadro de Munch. Quero pensar que as palavras não traduzem intenções. Que sejam só o ponto de partida. Um princípio de retorno. De pé diante do escuro insondável da floresta, dois apaixonados, de costas, seus corpos enlaçados, não se vê o que veem. Talvez fitassem a substância do medo, dela se protegessem nos braços um do outro. Talvez sorvessem as últimas carreiras de amarelo abandonadas pelo ocaso. Ou a copa das árvores tenebrosas fosse a nave de capela sob a qual jurariam os votos do amor que salva almas. Penso que não fitam nada. Os olhos na direção da floresta não a procuram, apenas é preciso ter onde os repousar enquanto se sente a vida dos demais sentidos. Talvez nem olhos tenham. E o signo em que se afigura a árvore, a floresta, o ocaso, sua representação em tinta, não seja determinado de dentro da matéria que os compõe. Não exista fora dos sujeitos calorosos, seres humanos, dois sexos prostrados diante da natureza nua e de seu cio. O signo-árvore pode ser para ele um desejo de força. Potência incendiária. Uma vingança contra a Terra. Sangue de folhas mortas. Para ela, pode ser a causa dos frutos. Produto do chão maduro. Seiva. Canela fresca. Um filete de saliva, o mel açucarado escorrendo pelo queixo. Passando quente pelos seios. Pode ser o contrário. Pode ser nada. Uma pulsão de morte. Pego o livro de poemas da Alice Ruiz: “depois que um corpo – comporta – outro corpo – nenhum coração – suporta – o pouco”. Um pedaço de amor passado, perdido na gaveta. Possibilidade de ser um Outro. Olhar irresistível crepitando branco no violeta do céu estrelado. Preto de todo. O corpo tem porta. Perto do pouco à parte. Fresta, réstia de luz. E mais uma vez o sexo todo aberto como um figo. Um sim. Outra vida. Outro poema. “um signo que sonho – um sonho que sim – assim fico – imagem gêmea de mim”. Como se fosse um parto violento a cada vez que se arrebenta em sonho de dentro do útero em que se é desperto. Como se fosse nascer como outro, como si, como mesmo, cada um distinto, e deles entalhar com cuidado uma alma para se vestir. Como se palavra alguma significasse o que a ela própria atribuíram. Como se não houvesse sentido. Toda literatura fosse uma imensa convenção de valises onde cabe qualquer imagem, qualquer motivo. E o trabalho do poeta não fosse mais do que colecionar palavras e arranjá-las segundo a atração que exercem sobre o seu espírito e o magnetismo do olhar com que as fita, inconsciente, embriagado, e no entanto não pudesse definir jamais o significado que deseja que assumam neste ou naquele momento. Palavras assim são caprichosas: um dia a palavra “rio” pode ser uma torrente de espuma, pode ser um choro desesperado, com soluços, pode ser uma fileira de dentes, um ressoar de mau-agouro por um vale vazio. “Floema” pode ser um estuário de baleias azuis, uma dança de sacrifício pela primavera. Um sexo aberto de mulher. “Debaixo” pode ser algo fora de relação, uma madeleine. O traçado seco de um rio. “Encontrar” pode ser perder. Pode ser o não-esquecimento. Uma frase como “debaixo do teu rio eu encontrei floemas” não tem sentido a priori. Cada palavra, cada signo é dotado de vida autônoma. Sujeito de seu próprio significado. A mais simples formulação poética abre-se em tantos caminhos de interpretação que uma análise completa de um único verso levaria mais tempo do que é possível existir, porque conceber uma tal duração já a limita à finitude do entendimento sincrônico. Diante do sujeito pensante, o que ele puder ver. Sujeito desejante. Aos pés da floresta negra não há floresta, nem negro. Apenas dois sujeitos do querer. Duas metades partidas a bisturi vertendo lágrimas. Essências soprando no oco das mentes. Duas partes feridas, em-si-mesmando-se em uma. O mundo fora de ambos como uma imensa fratura. De um lado, carne da matéria. Átomos. Substância. Tração, repulsão. Homem. O veludo do que existe. De outro, espírito puro. Anima. Sopro. Reflexo na água. No espelho. No sonho. Inconsciente. Psique. Delírios. Visões. Anéis de fumaça, ópio. Paraísos artificiais. Desmaio lisérgico. Signos. Simbolismo. Metafísica. Deus. E depois a síntese: abraçar o corpo como um caminho de transcendência. Surréalisme. Beleza convulsiva. Ele e ela como pedaços maduros da árvore da vida, prestes a cair, a abrirem-se na terra espalhando milhares de sementes fecundas e o sumo saboroso. Ele e ela. Eros. Abraços como laços vencendo o vão antes intransponível rachando a condição de ser humano. Um sexo aberto. Um planeta. Poema infinitamente minúsculo. E então não há mais mundo. Nada significa senão dentro. Não há poder, pois não há relação. Não há sequer partes distintas. Nada de órgãos dos sentidos. Vozes de todas as coisas se calam. E foi assim que eu parei de escutar e passei a amar o silêncio.

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