Aos loucos
Garanto a verdade, da mais pura, apesar
de sonhada. Sonho não é também verdade? Um sonhado que extrapolou o sono, feito
gente extrapolando o vagão em fim de expediente. Cruzou a linha, hesita agora
sobre as possibilidades das distâncias. Tão real se me afigura, em trânsito
constante, que tenho as palavras do diálogo lá travado marcadas até na retina,
de tanto buscar reescutá-las para comprová-las, para compreendê-las após aquele
meu despertar. Faz semanas já, mas por vezes ainda pareço sentado naquela mesa.
Mesa de proporções duvidosas, incertas, tal qual o teor das cartas nas mãos de
um mau jogador, do mau jogador que sou. Pois o que se desenrolou parecia
jogatina, até fumaça de fumo tinha, circulando, penetrada em buracos por luz baixa.
Não é de costume que eu me entregue a tal tipo de prática, só que sonho é
assim, diz um algo querendo falar outro. Sugestivo, feminino. E no caso aqui,
além de me ver jogador, saí sem derrotas recorrentes, fato constante nas raras
ocasiões em que me arrisco com outros em partida do que seja, pôquer, truco ou
buraco na mesa com cerveja. Saí sem revés do diálogo jogado. E tampouco saí
vitorioso. Saí inerte e assustado, abismado com as palavras ditas, feito estou
até agora, sobretudo na última semana passando. Pois além de o dito no sonho
ter-se me imposto como real, percebi indício no real que corrobora com o
desfecho que se fez daquela imagem mental.
Me
explico. Seguindo, um fato é que a mesa da disputa, lá pelo sonho, engolia as
coisas. Nem de feltro, nem de madeira: o tampo tinha cara de barro movediço.
Nele não se apoiavam cartas, copos, nem cotovelos, caso contrário tornar-se-iam
partes perdidas. Antes daquelas palavras
que ouvi e falei de frente para a lama, porém, palavras arruinando paulatinamente
minha sobriedade desde então, percorri uns bocados, que agora me aparecem
terrivelmente vagos, dia após dia mais apagados da lembrança. Lembro-me de
lances de escadas, feitas de pedra-sabão, e cujos degraus eu ia superando, no
galgar, de dois em dois. Não me sentia cansado, mas fazia calor, e vultos em
volta voavam. Sem conseguir bem me recordar da passagem, um piquenique, uma
cozinha, ou algo assim, sei que num momento dado dei de cara com a tal da mesa.
Fecharam-se paredes ao meu redor, construindo um pequeno cômodo, mas que ainda
assim delimitava uma distância quase intransponível entre a mesa e eu. Senti-me
bêbado. De longe, atirei uma garrafa de vinho esverdeada na superfície do
tampo, sem propósito. Sumiu. Decerto tragada pelo barro vivo. Depois, fui-me
até a mesa, fácil assim apesar do afastamento, e numa cadeira me sentei, também
sem propósito, também sem desejo certo. Não são assim as intenções nos sonhos,
atos desmedidos? Sentado, instalado, acendi um cachimbo. Ao soltar a subida do
primeiro trago, avistei meu pai, que me encarava, sentado de frente para mim,
pontuado atrás da fumaça, entre nós o barro da mesa. Na hora, quase que
instantâneo, senti-me parte de um antigo embate, de uma antiga rivalidade.
Sem
saber por qual razão, tentei vasculhar o tampo, buscando a garrafa que perdera.
Lama na mão, viscosidade. Nada. Sem sucesso, retirei a mão. Limpa, sem
escorrer. E tudo sempre sob o atento olhar de meu pai.
Apagou-se
o cachimbo instalado no lábio. Ele falou:
-
Queria te contar algo.
-
Pode dizer. – eu disse.
-
Ando pensando nos leões, filho.
-
Como?
-
Nos leões... nos leões velhos...
-
O que têm?
-
Dizem que os leões, quando se sentem velhos, pedem por sacrifício aos seus
próximos. – de voz grave e baixa, ele falou.
-
Pedem pelo fim?
-
Sim.
-
Mas por quê? – perdendo-me, eu retruquei.
-
Porque desde cedo batem nas presas com as patas, com violência. Vão calejando.
Mas no fim da vida os calos reabrem, pela velhice, e as patas estalam de dor.
-
E por isso o sacrifício?
-
Eles deitam de costas, e agonizam. São deixados, por falta de coragem da prole.
E morrem.
Nesse
ponto, o despertar. E desde então, e até este instante em que me debruço no
relato, pesa-me algo, uma insustentável fagulha. A garantia da verdade do aqui
narrado, de ter vivido este diálogo, apesar de sonhado, me afantasma. Juro que
se sigo nesse passo, enlouqueço. Por quê? Pelo indício. Não me aterroriza mais
tentar caçar uma indicação de significado nesse ocorrido todo. Isso já busquei,
e muito, e muito fracassado. Me aterroriza outra coisa, e é por ela que vai se
nublando para mim o que é real e o que não é. Confundo. Há justos sete dias meu
pai vem reclamando de pequenas e insistentes dores nos calos das mãos. Durmo
ainda? Não? Prenúncio, prenuncio: Sacrifico-o?
lembro-me deste sonho e como você ficou atordoado.
ResponderExcluiro texto ficou ótimo