7.5.13

Bexiga


             Sentei-me. O dia era de cinzas. O céu tosco, debilitado. Gelado, o ar corria. Em breve a garoa, fato. Mas, e o porquê não sei, nada me impedia de querer estar no parque. Por isso ali permaneci, cercado de ausência: só verde, vento e eu.
            Pelas costas, do topo à base, pulsavam as estrias de madeira do banco. Com frio, minha língua pedia por um pingado. Mas sem trocado, os bolsos aerados, qualquer trato era impossível. Acendi, meio assim, com muito custo contra a brisa, o cigarro amassado e enrolado que me restava. Desligou-se a reflexão, desligou-se o tempo. O primeiro trago espelhou-me nas vazias vias do parque.
            Meio cigarro fumado, avistei cores no horizonte próximo (generoso horizonte, todo o parque e a avenida ao alcance das retinas). Cores largas, cambaleantes. Sem óculos, demorei-me no diagnóstico. Feito o foco, revelação: um palhaço. Ao que indicava pelo pendular, embriagado. Mas não de todo desarmônico. Tinha um quê de balé autônomo.
            Aproximava-se. Sendo por ali eu o único ser, via-se que em minha direção seguia. Inquieto, movi-me. Desencostado, senti arejado meu dorso arqueado. Hesitei levantar, mas permaneci: ver no que dava. Afinal, cercado de cinza, eram cores que se dirigiam a mim: refresco aos olhos murchos, bom augúrio.
            O palhaço tomava forma, tomava contornos. Crescia. E quanto mais perto, mais certo se percebia o quão bêbado se encontrava. Ou não, talvez cambaleia por graça, por profissão, pensei eu. Mas cumprido o trajeto, tão comprido naquele vazio de manhã, postou-se em minha frente, depois ao meu lado sentou-se, e provou-se a teoria: o hálito entregava as pistas de suas últimas práticas.
            Olhou-me, os olhos finos. Procurou o bolso. Dele tirou algo que não se via, que com os dedos em concha escondia. Das mãos aproximou a face. Contemplava. Sorria, a maquiagem distorcida. Em cheiro, a cachaça me subia. Mirava-o. Em voz dissimulada, disseram seus lábios vermelhos:
            - Tão bonita... tão perfeita...
            Eu mal o entendia. Algo, porém, me prendia. Curiosos e em silêncio, meus arrepios e olhos perseguiam seus gestos. Todo meu vácuo e penúria iam deixando-se derreter. O universo era, agora, plenas mãos de palhaço.
            Levantou-se num pulo. Reativo, recostei-me no banco. Fitava-o. Fitava-me. E com traje de penduradas fitas coloridas, o palhaço embriagava-me, sem álcool nem erva qualquer. Em seu rito de calculados acenos e esgares, queimava minha curiosidade, incandescia minha fixação. Lento, o mundo ia ficando para trás. Tudo que podia restar de relevante, o palhaço ocultava entre os dedos.
            Num passe, a face tristonha, desfez o escudo das mãos. Absorto, esqueci-me da brasa de tabaco que aproximava-se de minhas articulações. E foi então que vi: em sua mão direita, uma vermelha bexiga vazia, pendurada.
            Desvelado o mistério, pouco hesitei. Sentia-me incompleto. Não seria só isso. Algo ainda havia por haver. E o bufão logo correspondeu-me nessa intuição. Levou a bexiga aos lábios, cambaleando nos largos sapatos. Inflou-a até quase estourar. Via-se aí seu calculado ou desleixado trejeito. Dava vida ao objeto. O vermelho do balão incitava-me, refletindo a parca luz que vigorava pela manhã. De sorriso frouxo, os dedos em pinça no gargalo de borracha, ofereceu-me o regalo, o escarlate que tingia minha fascinação. Com tal gesto, cogitei que me convidava a dar nó na bexiga, impedindo a fuga do ar, impedindo o despejo rubro. Alcei minha mão esquerda. Inclinou seu corpo, em oferenda. Prestes a apanhá-la, regozijo breve, bateu-me um descompasso: voava o vermelho, fora de alcance. Ele a soltara. Em tom desafinado, de ar escapado por pescoço estreito, a morte da bexiga. E inteira idealizada por aquele bêbado mago da cor, naquela finada manhã de poucos movimentos e muitas carências. Perante o corpo, eu vi: ascensão e extinção de um ciclo de brilho.
            Desperto de um largo transe, foquei o autor do assassinato. O palhaço mirava minha mão direita, apoiada no joelho. Lembrei-me, então, do cigarro, e da brasa que começava a esquentar minha pele. Olhei aquela quase-guimba acesa. Tinha, no máximo, mais três tragos a oferecer. Tragos que o ofereci. Era tudo que tinha como pagamento por seu teatro. Era, também, tudo que em mim lhe apetecia. Então pegou a bagana, com a mesma pinça de dedos que sustentara a vida da bexiga. Saiu trafegando, num bamboleio feliz. Deu-me as costas soltando fumaça, feito velha locomotiva. Suas cores perderam-se no fosco horizonte alcançado por minhas míopes íris. E a bexiga ali, falecida no chão.  

Um comentário:

  1. Que conjunto de elementos foram esses?!! Paisagem indefinida, enredo onírico e cheio de significado. Um palhaço bêbado, um cigarro, uma bexiga. Como, dependendo da habilidade e competência do escritor, elementos simples podem compor uma realidade rica, uma cena que faz da vida uma multidão de possibilidades. Não sei como você interpreta essa palavra nesse contexto, mas parabéns.

    Érico

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