Sentei-me. O dia era de cinzas. O céu tosco, debilitado. Gelado, o ar corria. Em breve a garoa, fato. Mas, e o porquê não sei, nada me impedia de querer estar no parque. Por isso ali permaneci, cercado de ausência: só verde, vento e eu.
Pelas
costas, do topo à base, pulsavam as estrias de madeira do banco. Com frio,
minha língua pedia por um pingado. Mas sem trocado, os bolsos aerados, qualquer
trato era impossível. Acendi, meio assim, com muito custo contra a brisa, o
cigarro amassado e enrolado que me restava. Desligou-se a reflexão, desligou-se
o tempo. O primeiro trago espelhou-me nas vazias vias do parque.
Meio
cigarro fumado, avistei cores no horizonte próximo (generoso horizonte, todo o
parque e a avenida ao alcance das retinas). Cores largas, cambaleantes. Sem
óculos, demorei-me no diagnóstico. Feito o foco, revelação: um palhaço. Ao que
indicava pelo pendular, embriagado. Mas não de todo desarmônico. Tinha um quê
de balé autônomo.
Aproximava-se.
Sendo por ali eu o único ser, via-se que em minha direção seguia. Inquieto,
movi-me. Desencostado, senti arejado meu dorso arqueado. Hesitei levantar, mas
permaneci: ver no que dava. Afinal, cercado de cinza, eram cores que se
dirigiam a mim: refresco aos olhos murchos, bom augúrio.
O
palhaço tomava forma, tomava contornos. Crescia. E quanto mais perto, mais
certo se percebia o quão bêbado se encontrava. Ou não, talvez cambaleia por
graça, por profissão, pensei eu. Mas cumprido o trajeto, tão comprido naquele
vazio de manhã, postou-se em minha frente, depois ao meu lado sentou-se, e
provou-se a teoria: o hálito entregava as pistas de suas últimas práticas.
Olhou-me,
os olhos finos. Procurou o bolso. Dele tirou algo que não se via, que com os
dedos em concha escondia. Das mãos aproximou a face. Contemplava. Sorria, a
maquiagem distorcida. Em cheiro, a cachaça me subia. Mirava-o. Em voz
dissimulada, disseram seus lábios vermelhos:
-
Tão bonita... tão perfeita...
Eu
mal o entendia. Algo, porém, me prendia. Curiosos e em silêncio, meus arrepios
e olhos perseguiam seus gestos. Todo meu vácuo e penúria iam deixando-se
derreter. O universo era, agora, plenas mãos de palhaço.
Levantou-se
num pulo. Reativo, recostei-me no banco. Fitava-o. Fitava-me. E com traje de
penduradas fitas coloridas, o palhaço embriagava-me, sem álcool nem erva
qualquer. Em seu rito de calculados acenos e esgares, queimava minha
curiosidade, incandescia minha fixação. Lento, o mundo ia ficando para trás.
Tudo que podia restar de relevante, o palhaço ocultava entre os dedos.
Num
passe, a face tristonha, desfez o escudo das mãos. Absorto, esqueci-me da brasa
de tabaco que aproximava-se de minhas articulações. E foi então que vi: em sua
mão direita, uma vermelha bexiga vazia, pendurada.
Desvelado
o mistério, pouco hesitei. Sentia-me incompleto. Não seria só isso. Algo ainda
havia por haver. E o bufão logo correspondeu-me nessa intuição. Levou a bexiga
aos lábios, cambaleando nos largos sapatos. Inflou-a até quase estourar. Via-se
aí seu calculado ou desleixado trejeito. Dava vida ao objeto. O vermelho do
balão incitava-me, refletindo a parca luz que vigorava pela manhã. De sorriso
frouxo, os dedos em pinça no gargalo de borracha, ofereceu-me o regalo, o
escarlate que tingia minha fascinação. Com tal gesto, cogitei que me convidava
a dar nó na bexiga, impedindo a fuga do ar, impedindo o despejo rubro. Alcei
minha mão esquerda. Inclinou seu corpo, em oferenda. Prestes a apanhá-la,
regozijo breve, bateu-me um descompasso: voava o vermelho, fora de alcance. Ele
a soltara. Em tom desafinado, de ar escapado por pescoço estreito, a morte da
bexiga. E inteira idealizada por aquele bêbado mago da cor, naquela finada
manhã de poucos movimentos e muitas carências. Perante o corpo, eu vi: ascensão
e extinção de um ciclo de brilho.
Desperto
de um largo transe, foquei o autor do assassinato. O palhaço mirava minha mão
direita, apoiada no joelho. Lembrei-me, então, do cigarro, e da brasa que
começava a esquentar minha pele. Olhei aquela quase-guimba acesa. Tinha, no
máximo, mais três tragos a oferecer. Tragos que o ofereci. Era tudo que tinha
como pagamento por seu teatro. Era, também, tudo que em mim lhe apetecia. Então
pegou a bagana, com a mesma pinça de dedos que sustentara a vida da bexiga.
Saiu trafegando, num bamboleio feliz. Deu-me as costas soltando fumaça, feito
velha locomotiva. Suas cores perderam-se no fosco horizonte alcançado por
minhas míopes íris. E a bexiga ali, falecida no chão.
Que conjunto de elementos foram esses?!! Paisagem indefinida, enredo onírico e cheio de significado. Um palhaço bêbado, um cigarro, uma bexiga. Como, dependendo da habilidade e competência do escritor, elementos simples podem compor uma realidade rica, uma cena que faz da vida uma multidão de possibilidades. Não sei como você interpreta essa palavra nesse contexto, mas parabéns.
ResponderExcluirÉrico