26.2.13

Carta aberta a Julio Cortázar


Camarada querido,

Para quê? Para quê matamos a rotina? Em qual instância da realidade preenchemos o tempo para torná-lo um compilado de recordações?
Começo assim esta carta aberta para ti, esse mais imbróglio que carta, ato de auto-recorrência. Quando nasci era você já morto, há pouquíssimo tempo (2 doces anos) alguém escondido no outro lado do planeta, lá pelas terras nas quais não chove. Ouvindo agora Moacir Santos enquanto lhe escrevo, sentado no escritório, tentando acelerar o momento, sinto que o único reconhecimento que tenho de mim mesmo reverbera nas palavras dos outros, distantes. E isso porque o tempo para mim é um grande larápio, um ladrão descarado. Mesmo quando me reconheço em mim (tão raramente...),  esse eu já sou (ou é?) outro. O tempo criminoso age eficientemente. E do outro lado há só o relógio, que não passa de um delator, agrimensura falha do espaço incogitável, incapaz de deter o momento. Me encantaria despir essa coisa de horas e anos para atingir o fogo de todas as épocas, todos os fogos o fogo, mas não vivo sozinho. Me encantaria desmascarar o tempo para nele encontrar-te, amigo, como artefato real, respirando e ainda produzindo.
Que faço, então?
O presente, para mim, é uma roda sem centro, pois vivo-o e ele não se detém. Como será isso possível? Cada coisa que desabrocha é única e não o é. Então, sempre constatando isso, me recolho e, soturno, olho as coisas ao meu redor até que haja um mergulho súbito em tudo aquilo que já visitei. Vivo um passado enquanto os outros vivem um algo que vira passado. Recorro ao pretérito mais-que-perfeito pois, no fundo, tudo existe enquanto vira passado, na medida em que a ação se desmaterializa como condição presente. Então esvazio-me e entorpeço-me e sempre gosto de, nesses momentos, rever a vida de amigos e camaradas com os quais nunca falei.
Como você, Julio.
Não sei ao certo, e fico angustiado, pensando o que você diria em matéria presente, hoje em dia. Mas, para variar, sou só eu vivendo mais um algo que é pura especulação, distante de qualquer possibilidade contemporânea. 
Mas a memória (do que existiu e até do que nunca se passou) e a imaginação com a qual ela se erige como edifício sagrado são o fundamento da viagem temporal. É possível trafegar no tempo real, Julio, no verdadeiro instante já ditado por Bresson. O imaginário de acordo com a natureza. É a imaginação de cada epopéia diária de cada homem a responsável pela conjectura que se mostra confessa, entregue a cada um com pulsação de brasa que aviva, insuportavelmente real. E é por isso que escrevo. Por isso sinto a paranóia de dedos malditos que me manda registrar tudo aquilo que encontro e que penso, e que gostaria de manter como passagem constante para o passado, como esse magnífico solo de saxofone que o Moacir Santos solta em meus tímpanos com doçura magmática (você já chegou a ouvir um disco dele chamado “Coisas”?).
E enquanto essas linhas vão saindo, reflito sobre impossibilidades. Pensar nisso é como a lua de minha sina. Então o sol cai atrás dos prédios, mais uma vez, e eu volto a mim e percebo que sou uma massa com tempero irritadiço e repleta de ternura querendo ser cuspida. Digo e falo sobre a ternura, pois sei o quanto você a tinha. É perceptível em sua fala e em seus contos. Enquanto penso em cada letra separada da palavra “ternura”, ela se torna escorregadia, e me germina o projeto do abraço que gostaria de te dar para te agradecer.
Provavelmente se te encontrasse não conseguiria dizer nada. Mas tudo bem. Digo aqui, nessas linhas que um ou dois lerão amanhã ou em alguma outra metade de verão distante.
Para mim, cheio de tinta azul nos dedos, basta refletir sobre a bondade e o fulgor que brotaram quando entrei em contato contigo em um outono dourado, sentado num galpão antigo funcionando como cinema, eu ali de bilheteiro no balcão, lendo-te, lendo tuas babas do diabo, e dizendo para o silêncio ou para um eventual passante como todas aquelas tuas linhas que sempre me lembram teu rosto barbado de sábio amigo ou a cor do tabaco loiro ou um tom de vermelho quase grená no intervalo do espírito que há entre cada palavra impressa pelas folhas do livro falam mais sobre mim do que eu mesmo jamais consegui dizer em toda a minha ainda curta experiência. Eu vestia um sobretudo naqueles momentos, e me sentia no âmago da agitação de todas as ondas de todos os mares e oceanos do planeta, da calmaria do Pacífico ao guerreiro Mediterrâneo, do esperançoso Atlântico dos primeiros navegadores ao raivoso Índico dos tsunamis, tentando entender-te, o mecanismo inequívoco de teu raciocínio para falar sobre todos os equívocos, todas as buscas, as tardes e o vento, gatos, gestos e cigarros. E um ar corrompido pelo frio ingressante me alimentava, e eu era feliz.
Hoje, sob o calor, digo obrigado. Acho que é o fim óbvio, porém correto, e nada vulgar. Espelho-me em tua audácia acima até das lâmpadas mais altas da cidade, sinto-te em meus poros vivendo tua outra época, um intercâmbio, nós compartilhando em tempos não tão distantes um do outro esse enxame de oboés que às vezes os ares nos trazem. Acima de qualquer suspeita, sinto que você viveu e pressionou teclas e mecanismos que agora querem brotar e girar dentro de mim, ou que já o fazem como precipícios 
vibrantes.
Sei, no entanto, que preciso destruí-lo conceitualmente, pois quem me vive sou eu e não o espelho de você. E é essa independência o que de mais fantástico podemos cultivar dentro de nosso cotidiano (não preciso mais matar a rotina, basta construir o tempo!). E é tal independência o que de mais valioso você me proporcionou quando falou através de teus contos e declarações que em mim reverberam como um boxe de estrelas na galáxia, corrompendo o escuro desde que o tempo é tempo, lá onde você habita agora, próximo de tantos outros, dialogando, jogando e fumando, em conspiração.

 São Paulo, 25 de fevereiro de 2013

andré 
bonani

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