5.3.13

masculino, feminino

de onde brota o gênero? os gêneros? o sexo entre os gêneros? a fusão, em atos, de duas faíscas, gerando uma centelha de complementaridade? quem determina o direcionamento de cada gênero? o que gera a bifurcação dos gêneros?
peguei-me pensando, dia desses, em pares complementares. atrevido, rumo pelas ruas sempre de esguelha, catando visões, movendo-me de acordo com os olhos. foi, então, que percebi o quanto me atiça a brasa dos casais. fogo corriqueiro, este. inevitavelmente, como partículas, casais interagem, formam-se. uns propagam-se, outros duram horas, questão de assobios. é já consenso esta extensa união entre masculino e feminino que caminha e que faz caminhar a energia vital da espécie humana. não se para, no entanto, com o intuito de desvelas as forças magmáticas que sugerem tais uniões.
em vez de um, dois. há complemento. há teorias que trafegam pelas almas gêmeas, dizem coisas de buscas que se concretizam só na forma de casal, buscas surgidas na separação original por gênero que se dá pelo acaso dos cromossomos. ao nascer-se, separa-se. e, assim, ao consumar-se uma relação em casal, a fertilidade gera, pela união dos sexos, uma luta que resultará em mais parciais dessa equação, que se juntarão com outras parciais, e assim indo, indefinidamente, ciclo do homem.
não cabe a mim, no entanto, desenvolver historicidades, panoramas das ideias que conferem tais paradigmas de interação homem-mulher. poderia adentrar-me nos orientais, por exemplo, no yin e yang que se estende para todas as complementaridades que geram a vida. prefiro não. disso já se muito falou, muito melhor. pretendo eu, com esse continho, com esse recital, revelar a origem, a faísca geradora dessas questões e profundidades convergindo eu adentro.
andei lendo algumas palavras em algumas línguas. comparei-as. coloquei lado a lado a projeção do real em signos. sentado no metrô, pela manhã, lia um texto em espanhol. no meio da força das palavras paridas em castelhano, me deparei com uma: “mar”. o que me fisgou, porém, foi o artigo que precedia tal palavra: “la”. estranheza a princípio, desposicionamento interno. pensei em minha língua e constatei, no espaço de um instante, que “mar” em português é precedido por “o”. cheguei a uma constatação, dúvida de partida. ah, caprichosas engrenagens das línguas! quer dizer, então, que no espanhol, nosso irmão mais próximo no espectro originário do latim, “mar” levanta ares femininos com suas ondas? la mar...
deliciei-me com esse tempero novo. mas não sosseguei. garimpei... por quê línguas irmãs, tão próximas, manifestam o mesmo conceito com gêneros diferentes? me veio, então, a gravura mental das grandes navegações. portugueses e espanhóis, ali, enfrentando de peito aberto o (a?) mar. os lusitanos, carrancudos, deviam ver naquele processo um duelo de espadas, deviam ter a mesma sensação ao navegar de quando brigavam com outros homens nas tavernas, socos e pontapés para provar quem seria o melhor. uma questão de orgulho. os castelhanos, por sua vez, galanteadores, deviam enxergar “la mar” como uma dama geniosa a ser cortejada, ou como uma feiticeira a ser esmagada no ímpeto da conquista. também uma questão de orgulho. e daí viriam, assim, os artigos feminino e masculino que precedem a mesma palavra em línguas tão parecidas.
tais imagens mentais, porém, apesar de razoáveis e divertidas, não me levaram a lugar algum, a não ser até o desfrutar de algumas risadas internas.
não satisfeito, então, segui. fui até o francês, nosso irmão elegante. lá, mar também é mulher: “la mer”. Debussy bem sabia disso... a dúvida começou a crescer, e com ela o prazer de vasculhar o sexo do (ou da?) mar. fui até o italiano, língua de
meus ancestrais. lá, “mar” corresponde ao português em gênero: “il mare”. tinha na mão, por assim dizer, um empate. 2x2. e empate, apesar de às vezes dar jogão (já vi até um 4x4!) dá também sensação de conclusão inócua, como aquelas que minha professora de redação criticava em meus textos de escola. como desfecho de tão fresca indagação, não poderia contentar-me com empate.
arrisquei um passo a mais: o latim. ali, no cerne desta árvore de línguas que se bifurcaram pela história como os caminhos do jardim de um conto de Borges, ali eu encontraria a semente original, a pérola, a pedra fundadora que esclareceria não o sexo dos anjos, mas o sexo de “mar” (tentado fico a colocar o “do” antes, mas agora, neste ponto da reflexão, vou de “de”).
depois de uma pesquisa não tão rápida quanto eu imaginava, e que me levou, inclusive, a um de meus chefes no escritório, antigo coroinha e ex-estudante de latim no colégio São Bento, encontrei minha pedra preciosa. meu chefe não soube dizer se os padres lhe haviam ensinado, em latim, que Jesus caminhara sobre “o” mar ou sobre “a” mar, e se Moisés dividira ao meio, para a fuga dos judeus, uma entidade feminina ou masculina.
recorri aos dicionários. revirei a internet, ou seja, revirei o google atrás de tal informação. me custou tempo e menos trabalho feito no escritório (e eu recebo por produção!). mas achei-a! para minha surpresa, para o brotar de um leve sorriso em minha feição de sexta-feira de manhã, eis que deparei-me com isso: “mare”, em latim, é neutro em gênero! monumento erigido! nada mais natural do que isso: a origem dos gêneros repousa na neutralidade, naquilo que se equilibra entre dois opostos. a língua, assim, tão deixada de lado no cotidiano, tão corriqueira, tão mal falada, abriu-me esta porta, a da fundação do masculino e do feminino. e pensando bem, depois de mais algumas leituras e memórias de relatos alheios, caí em dois fatos que corroboram tal divagação. o primeiro refere-se ao simbolismo de “mar”. para muitas culturas, “mar” carrega consigo o sentido de “portador de toda a vida”. em alguns relatos de psicanalistas que encontrei, inclusive, “mar” é tratado como um dos elementos mais potentes dentro dos sonhos, algo que significaria, entre tantas outras possibilidades, a “inconsciência” ou a “alma”, por conta de seu caráter inesperado que transita entre a calmaria e a tempestade. nossos espíritos, portanto (e nisso sou eu quem volta a falar), seriam grandes mares em eterna transformação, movimento, portando a origem e a ilusão das coisas.
o segundo fato no qual pisei, e que alimenta o primeiro, refere-se ao lugar do mar na história da vida. de acordo com a ciência, no mar se encontrou a “origem das espécies” (em algum lugar no espaço, agora, o velho Darwin sorri...). naquele caldo de transformações foi onde surgiram as primeiras manifestações da vida, ainda isentas de sexo, engrenando posteriormente a roda da evolução. eis que, assim, a neutralidade do termo em latim me pareceu mais saborosa, rica, por remeter ao caldeirão das bifurcações que se abriram na clareira da origem.
            mas é preciso voltar, dar um desfecho. vejo-me, então, neste momento, em uma situação no mínimo cômica. é preciso concluir este meu devaneio. aparecem-me imagens do rosto daquela antiga professora de redação. aparecem-me imagens de placares com números iguais separados por um “x”. depois de tanto esforço, não quero concluir este trabalho singelo sobre os gêneros com palavras inócuas, com um empate. pensei assim, então: as línguas de herança latina, em seus destrinchamentos pós-origem, elegeram, através do jogo do acaso de suas formações submetidas às consciências humanas, um gênero/sexo para “mar”, e assim o fizeram para tantas outras palavras. creio que se entrasse a fundo neste terreno, descobriria uma porção de outras discrepâncias nos artigos que precedem palavras de mesmo conceito em
português, espanhol, francês e italiano. em nossas línguas paridas pelo latim não há o “the” do inglês, artigo despido de gênero. tampouco há o “it”, pronome que designa coisas e objetos, como se estes estivessem livres da influência de designações masculinas e femininas. prefiro assim. o raio de influência de homens e mulheres, destes opostos, sobre as coisas teoricamente inanimadas me parece essencial em nossas vidas. como olhar para, digamos, um machado e não ver nele um troncudo e parrudo homem? ou olhar para uma agulha e ali não ver uma caprichosa e afiada mulher? e o mar (ah mar!), como o amor, comportando caricias e socos, gritos e sussurros, superfícies e profundidades, parelhas dignas de homens e mulheres juntos? talvez possa ser uma questão histórica, de escolha momentânea que ficou para a posteridade. mas trata-se, também, de uma análise de portas abertas para nossas imaginações.
talvez minha conclusão fique parecendo, deste jeito, empate. mas é bom assim. fica a expectativa para uma segunda partida.

Um comentário:

  1. que me desculpem o italiano e o português, línguas que me deram nome e sobrenome, mas na língua do meu coração "mar" é feminino, como em "amar"

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