Na frente da capa
lia-se o nome em letras brancas: “ÍDOLOS”; logo abaixo, em tipos menores,
“crepúsculo dos”. Além do título, a foto da principal chamada da revista: um
homem jovem, de uns vinte e cinco anos. A calvície já aparecia nos cabelos
castanhos, quase negros, onde a testa começava um pouco acima de onde costuma começar
nos outros rapazes nessa idade. O comprimento da cabeleira chamava a atenção,
cobrindo as orelhas e caindo levemente sobre as sobrancelhas cheias. As
costeletas desciam formando uma imensa barba, comprida mais de cinco dedos, da
mesma cor que os cabelos mas reluzindo alguns fios quase ruivos; o bigode,
porém, não era muito pronunciado.
Esta grande quantidade de cabelos faciais
adornava olhos de cor âmbar, que naquela luz de tarde no parque da cidade
pareciam até verdes. Vestia calça jeans justa com camisa xadrez, aberta no
peito, revelando uma grande massa de músculos, e de pêlos. As mangas subiam
dobradas, bastante abertas, para conseguir conter os bíceps e o resto do braço
volumoso. Apesar das roupas sugerirem-no, não era como um lenhador: o desenho
bem trabalhado revelava que aquele homem se esculpira em academias. “Metafisiculturista”
era o subtítulo explicativo do assunto da capa. Abrindo-se a revista, facilmente
se chegava a um ensaio fotográfico, acompanhado de uma entrevista, com um homem
muito semelhante a ele, com roupas diferentes; na verdade, apesar de
diferentemente vestidos, todos os que apareciam nas fotos subsequentes pareciam
ser o mesmo homem, por terem o mesmo rosto. As fotos se sucediam ocupando às
vezes duas páginas, ou até desdobrando-se para fora da revista. Na primeira,
onde se lia a chamada “O HOMEM GREGO DO FUTURO”, aquele mesmo homem da capa
aparecia em página dupla, sobre blocos de pedra de ruínas cenograficamente
dispostas, vestido com panos brancos, caindo-lhe sobre um dos ombros e deixando
parte do torso desnudo, o que revelava ainda mais a beleza de seu estado
físico. Na imagem seguinte, cheia de efeitos visuais que simulavam envelhecimento
fotográfico, usava óculos escuros aviador, os cabelos soltos sobre um metal
vermelho, e o homem aparecia deitado no teto de uma grande Kombi, vestindo
roupas largas e coloridas. Outras fotos mostravam-no com camiseta canoa, com um
grande charuto nas mãos, com grandes óculos de armação quadrada, dessa vez com
lentes de leitura, e revelavam-se outros traços de sua existência: tropical,
vicioso, portador de deficiências da vista. Com maior ou menor destaque, junto
a cada uma das fotos, várias frases de opinião atribuídas ao entrevistado, e
pequenos trechos narrativos da jornalista descreviam o conteúdo de sua mente.
“Se precisasse
me definir, diria que sou o tropicalismo, o trotskismo, o existencialismo,
ayahuasca, a Bauhaus, Finnegan’s Wake, os beatniks, os Panteras Negras, poesia
concreta, Rimbaud, Edgar Allan Poe e Alex Atala”
“Gosto muito de
arquitetura. Principalmente moderna. Porque ela nos trouxe o concreto armado,
que substituiu os tijolos carregados com as mãos. Com o concreto armado, que é
muito pesado, a gente desocupou os braços para malhá-los na academia, e liberou
tempo para dedicar a outras atividades do espírito”
“Não sou de
dormir muito, apesar do catabolismo ao ficar muito tempo acordado. Tenho
dificuldades de me entregar aos domínios de Morfeu. Os braços do ópio são meu
Morfeu”
“Não estou com
ninguém, pois as mulheres que encontro só conseguem falar de veleidades. Eu
raramente me sinto avançando ao conversar com elas, e perco rapidamente o
interesse. As pessoas deveriam ter mais consciência do pecado mortal que é a
banalidade. Nesse ponto, concordo com Oscar Wilde”
“Fala-se muito
de uma geração que só tem corpos bonitos e nenhum conteúdo no cérebro. Acho que
essa crítica vem dos saudosos daqueles momentos em que os cérebros concebiam
coisas grandiosas, saudosos do século vinte. O que essas gerações criaram?
Bombas atômicas, o fascismo, narrativas implausíveis. Nada é pior, hoje, do que
modernistas saudosos”
“Hay que
endurecerse nesses tempos de modernidade líquida”
“O problema da
crítica é não pegar ninguém. Qualquer um se apaixona pelos artistas, por saber
que os caras, ou as moças, que fazem arte, estão moldando uma obra do espírito,
como o sonhador do conto do Borges. Agora, o sujeito que olha o trabalho do
artista e faz a crítica, ou o que vai analisar as teses e fazer a crítica da
crítica, um sujeito assim não está trazendo nada de novo ao mundo. E ninguém
quer transar com um peso morto”
“É a moral
revolucionária, o braço do proletariado, que me move entre um supino e outro”
“Depois do
Carnaval, vivo uma gigantesca ressaca física e existencial. Geralmente, ela dura
o ano inteiro”
O corpo bem
definido e o rosto cheio e barbudo impedem qualquer confusão com os outros
arquétipos de ídolo presentes na atual cena midiática: não se pode comparar
esse pequeno modelo de semibárbaro culto a outros tipos das revistas, de braços
ainda mais trabalhados mas de face e peito limpos, sem nenhum pêlo; nem aos
galãs adolescentes com barbas levemente por fazer e corpos bem mais magros que
o dele. Muito menos ao grande intelectual barrigudo, de barbas puídas pela
ausência de hidratante adequado, esse tipo que, como se sabe, até encanta
popstars excêntricas. A diferença para os demais heróis contemporâneos? “Eu
devoro todos eles”, responde.
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