9.4.14

Uma cidade

O viajante que em busca de um desesperado repouso encontre o branco de uma página que se desfolhe no universo poderá um dia sonhar uma cidade brotando, pedra por pedra. Imaginará a linha do horizonte começando a dançar enquanto sobem os contornos dos muros ainda sem cores. Balançando, encostando-se um sobre o outro apoiarão o peso que subitamente vai surgindo do ar, em busca de um equilíbrio que se revela demasiado instável para assumir a solidez da matéria, e que assim permanece, meio rocha rígida e força, meio resquícios da substância da alma. O resultado dessa dualidade, para a a mente do viajante, é o fato de que toda visão que se tem nessa cidade evoca imediatamente o seu contrário. Ao tocar as aldrabas de uma das incontáveis portas de madeira que percorrem a cidade, este viajante não logrará jamais calcular a dimensão e o destino dos caminhos entranhados em suas estruturas; pode-se deparar com os limites de um alto precipício sem escadas, mas pode-se também adentrar corredores escuros e tão longos que se morrerá de sede ao caminhá-los, sem vislumbrar saída ou mesmo um facho de luz, antes que a voz da consciência vença o orgulho de não voltar atrás. Pode-se encontrar tabernas de má fama, onde a sorte do frequentador acaba em largos goles de aguardente ou no bico de um punhal que se crava na mesa; onde os prazeres de fato distraem, e não se deixará de pensar, no entanto, que os beijos das moças são mais doces do que o consolo amargo dos destilados, e assim se sentirá o frio estrangular do arrependimento de não ser alguém outro. Pode-se encontrar a sorridente filha de um comerciante em vestes de lavadeira e vontade de amar como uma adolescente, e pode-se cair em perdição por ela, fazer-lhes os caprichos todos e pedi-la em casamento, e depois lamentar com azedume todo o resto da vida por não se ter casado com a balconista da tabacaria que lia romances de folhetim. Quem por acaso não suportar o fado das escolhas feitas e atirar-se por um dos inumeráveis poços que semeiam toda a extensão da cidade, durante o infinito tempo de sua queda não deixará de invejar a velhice que poderia gozar diante dos jardins enluarados de um de seus átrios, quando um violão cantaria a substância triste de sua música, que por sua vez evocaria com saudade as flores não recolhidas dos amores passados. Na cidade, tudo projeta sobre o parapeito seguinte a memória de sua própria sombra. A pedra na parede em que o viajante se declina para assossegar sua vertigem se torna logo o apoio grave dos pés no chão, e o céu reluzindo o nauseará com o vaivém dos castelos no horizonte vacilante, a meditar entre os seus cílios que se fecham, cheios d'água.

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