6.3.14

eu não quero conhecer o teu namorado

Não, moça, my dear: eu não quero conhecer o teu namorado. Aliás, nenhuma condição do ser humano é tão lastimável quanto a dos namorados. Das cartas de amor que escrevem, todas ridículas, não é preciso falar; sua tendência óbvia à hipérbole, suas comparações sem medida e sua espontaneidade ingênua já as desqualificam por si próprias. Os poemas imitando a geração mimeógrafo são medíocres, as leituras maldigeridas de Clarice Lispector que trocam o assombro diante do nada pela epifania amorosa de nada servem, as citações descontextualizadas de Drummond e João Cabral são uma falta de respeito e de vergonha. E não, os filmes do Godard não são filmes sobre relações amorosas, são metalinguagem. Namorados frequentemente esquecem o que é metalinguagem.

Com um namorado grudado no teu pescoço, moça, você nunca vai se sentir sozinha. Aquela angústia existencial que surge quando a cabeça fica abandonada a si própria, e que te faz questionar os mistérios, você não vai mais sentir, porque sempre vai ter um beijo inconveniente te atacando a bochecha, ou uma balada melosa tocando no aparelho de som, ou uma mensagem babaca no celular. Ninguém consegue encarar as páginas áridas de "O Conceito de Angústia" do Kierkegaard quando namora. Namorado, aliás, não entende Kierkegaard nem existencialismo, e por isso adora justificar as escolhas falando de paixão.

Se o teu namorado fuma, você vai fumar mais quando estiver com ele e estragar tua saúde. Se ele não fuma, você vai fumar menos e vai encaretar. Imagine, então, pegar as manias dele, os trejeitos de falar, as mesmas opiniões desnecessárias sobre a melhor fase dos Beatles, os mesmos bares favoritos na Augusta. Nada de bom pode vir do teu namorado. Quando vocês inevitavelmente terminarem, você vai ficar triste, magoada e desiludida. Vai ter que esquecer vários discos e vários filmes que te lembrarem dele, vai ter que conviver com o cheiro no travesseiro, passar pela dolorosa humilhação de pedir às amigas que peguem de volta tuas coisas esquecidas na separação. Você vai chorar e vai preferir que nunca tivesse acontecido. Pode até pensar em nunca namorar de novo.

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