De longe na rua vem aquela que passa por mim. Os seus passos curtos carregam a firmeza de pedra dos leões que rugem inertes às portas da biblioteca municipal. Nos seus olhos fixos vai crescendo a linha vermelha do horizonte da maior cidade do hemisfério. Marchando, ela deixa as roupas para trás, e rompe a rocha que a encerrava fundo tantos e tantos anos no seu interior de matéria: não sente mais o peso do emprego diário, das modas românticas em voga, dos maus presságios do horóscopo, do grito violento dos jornais, do clima nebuloso das peças de teatro, das novidades filosóficas. Despida e feita só espírito, ela ascende em direção à lua que desponta no céu. Bem maior do que sua pequena e provisória moradia de carne, passa a altura das árvores da praça, das antenas sobre o contorno brilhante dos edifícios, e quase se perdendo no limiar pintado das estrelas, pára, e volta-se para mim. Que mensagem virá com a luz que a atravessa e vem banhar o meu rosto? Só o silêncio sopra no ar úmido da noite. Os animais de rua aproximam-se, sentem o traço da presença feminina que há pouco esvaneceu, buscam a mesma essência daquela que paira acima de nós. Não está nas vestes abandonadas pela calçada de concreto, no resto de colônia que ainda carregam, nos sapatos vazios que restam de pé, nem na bolsa colorida, ordinária e inútil no chão. Clara, translúcida e aquosa, essa alma transcende sua prisão de corpo denso para me contemplar. Pressinto um sorriso imaterial feito de tristeza e de vaga esperança, que me fala da inacreditável solidão no coração do homem, do vácuo imenso que procura preencher todos os dias com seus sacrifícios de amor, da angústia que trata de esvaziá-lo novamente e o torna permeável à felicidade, de sua luta contra a intransponível separação entre as consciências individuais, das vastas subjetividades que se olham como ilhas distantes no mar, da derrota dos naufrágios que vão morrer no escuro profundo da memória. Recebo as palavras da brisa em ondas frias, e a alma elevada dissolve-se no gradiente celeste, ecoando suspiros declinantes pela madrugada que a cidade dorme. Os vira-latas, as folhas de jornal no passeio, a fiação dos postes acesos, o telefone desligado da delegacia, o vigia trancado dentro da sala de concertos, o filósofo sofrendo na esquina, as predições astrológicas do dia, o fantasma branco no pesadelo da menina de catorze anos, o sono duro e breve dos assalariados da cidade - tudo treme com a desaparição violenta. Agora, a alma é uma lembrança irremediável do meu peito. Em vão a busco nas roupas deitadas ao chão, vasculho os cantos da praça que nunca se moveram, lanço os braços no ar que me escapa, recolho relíquias que vão desmanchar nas gavetas, sem parar de mudar, sem jamais ganhar vida alguma, reles sombras de coisas verdadeiras. As pedras sob mim tentam me consolar, mas o vazio gelado por dentro é sólido e acolhe com um inesperado conforto a grande ausência. Minha alma, quem sabe um dia a encontrarei?
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