26.2.14

A poça

         A poça fora ali deixada, no chão, ao centro da praça, resquício do material da chuva, uma chuva qualquer, uma chuva de outrora.
         A poça refletia o mundo, o mundo acima de si, o mundo mergulhando em sua extensão espelhada.
         A poça sacudia ao timbre do vento, fazendo ondular e bailar o mundo em si contido.
         A poça rareava pelos goles dos bicos de pombos que nela matavam a sede.
         A poça sumia conforme avançavam o sol e o calor por ele libertado. Suas beiradas, tristes, perdiam-se lentamente nos desígnios misteriosos da evaporação.
         A poça também perdia-se carregada pelas solas dos sapatos daqueles que nela pisavam, daqueles que furtavam com passadas sua luz líquida.
         A poça foi morrendo, definhando, e com ela morria e definhava o mundo nela refletido, o mundo sem solidez, o mundo de duplicações sem materialidade, a aparência do mundo sendo tragada pelo próprio mundo, e a ele retornando.

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