Bem no centro do céu estava vazando seus fachos de imensos lábios cor-de-fogo o sol. Em círculos baforentos latejava a tarde, intonteando. Do lado de baixo, uma absorta mente quase suspensa observava o movimento celeste desde o dentro de um corpo de menina. A mão do corpo remessava os seixos miúdos do chão no rumo do sol. A mente por sua face atentava tocá-lo em ideia, que o corpo breve e curto de menina não podia subir em tempo: cedo era noite. Por ora, o verde pasto ardia sob tudo, engolindo uma bateria de seixos artilheirados pelo corpo. Ambos, corpo e mente, em luta, afincados e intenso pedraçando o horizonte fronteiro de tudo. A mente agitou-se: dar por certa a cadência do astro, que lembrança! Assuntoso hábito cego, mais como homem posto baixo ao pó em demasiado presto. O vaivém do arco solar volteou o dia, o seguinte é conforme? Descendo as horas não é mais que presumice que desça o sol no ritmo mesmo. Que ia ele girar ao redor de outro? Do relógio? Se tudo que não se ignora faz o averso: gira a flor de fulvo petalado e de cerne opulento, desvaria o artista linguajaz verbando na vertigem do eu-mudo, e o profeta astrológico na medida sagrante da firmação, arvora-se firmescendo o caule suculento do vegetal, cirando-cirandeando os mundos no morno marolear da eternidade lenta no celestiarco.
— Nada sobrevém pelo depois, a mente da menina ordenou, e o corpo disse.
Pois que não se sobrevia. Se o próximo passo se dá depois do primeiro... tempo não é assim. O segundo que rebenta deste, o átimo que vai amanhecendo do agora, é outro qualquer. Que, só pensar no que espera do seguinte? Se sucedem inumeráveis futuros? O amanhã é um parto do impensável. Veio do corpo o pruído delicado de euforia, a mente sentiu o riso. E daí a rábia. Acaso não faziam por motivo as desfeitas todas? Se era tão simples, claro como prisma vermilhante, mirocular, na mansidão aberta: o globo é tal e igual seu semelhante. Desinverte! Quiçá quisessem que o astro rei servisse, feito o que eram. Nada mentalizam que não seja servitude. Até a estrela-pai é menor que o ego: tem que se prestar ao tempo.
De quê? Modo de ser gente tem tanto, careia decidir. A mente e o corpo vergaram. A boca partiu, cerrou.
A luta com os seixos voando pesados tinha montoado larga sebe de pedra no poente. A fúria do pedrejamento era a pura dissonância da menina, pulsão do grito cósmico contra o vazio, por acaso preencheu o espaço, subiu um muro. A pedra dura, quieta, negação deitada no céu ardido. Resistia.
Passou por ali um braço-da-lei. Enfintado em couros, ferro ao lado, pauladiante, o braço-da-lei deteve o próprio passo. Queria ver quem o defrentava.
— Mas é que é macaco? O braço-da-lei berra.
A mente maquina. O corpo sopra o suspiro de tédio. Aquela se manifesta:
— Não é mais assim que funciona…
O braço-da-lei bufa. Está desconsolado.
— É macaco! É que é macaco!
Não cabe mais no arreio, derribando ranho e babo mole e cinza enquanto grita. O olhar é um poçal podrecendo no cu da cidade onde um cracudo mata a sede e se banha. A menina não responde, o joão-balalão pode rebentar de uma só vez. A goela rasga de novo, emite.
— É macaco sim! Macaco sim!
O corpo fez menção de chispar, a mente duvidou. Mas é o tempo. O arremedo não bate, fica-se empatado, teso, preso. O braço-da-lei dominou.
Deus desditoso da mais-que-infâmia, do malogro e do malfado! Bufoso crime que o caprichoso caso comendou. O corpo foi brutamente marrado pelo braço-da-lei. Rastou-o o muque duro para as grades. A mente bastilhada no corpo no cerro da cela-da-lei deplorava o sucedido: não se junta o danificado. Era por demais injustoso. Pelo auto, tudo era legitimaldade. O braço-da-lei não tinha juízo. Sem remédio: tanto pior era a carceragem dos brutos que a da ordem.
— Não é desfeita apanhar do governo, pesou a mente.
Muito embora fosse tudo desfeita no ensejo. Antes da cela, a voz-da-lei implicou:
— A condição e o resultado da pugna no dado caso co-indicem. Uma é a premissa do outro. Ver-se-á o seguimento do padronato, glosoladrava a voz de gravado boloroso. A mente cuidou que falsava: o olho irridente fugia e o calço fazia batuco no discurso da voz-da-lei: queria era cela.
Braço, voz e cela-da-lei se sanhavam. Quisessem pago, desbuchavam. Queriam era bagaço outro: o dela, o da mente, sem o caroço, só o interno cerne grosso, que não haja fibra que passe da malha de arame cerralheado, até que restasse só o molhe inerte de pele seca. Tal o termo da cela-da-lei.
No gradeio rijo ferrolhando fora o espírito do céu, dentrando somente o sumo quente, zunia soante o gargalho do sol acima, no bocal colosso que glutia a terra com a cela, a voz, a lei e tudo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário