Não siga o caminho dos antigos;
busque aquilo que os antigos buscaram
Matsuo Bashô
O relato de
Rimbaud sobre sua descida ao Inferno maldito onde passa toda uma temporada tem
mesmo algo de horripilante. É como um augúrio tenebroso a rondar aqueles que também
se descobrem penetrando as mesmas sendas, nas quais, ao que parece, ninguém
poderá encontrar nem Luz nem Paz. Mas suas palavras precisam ser interpretadas
não só com atenção, pois exigem uma profunda imersão nos seus sentidos simbólicos.
Cinco séculos antes, Dante já tinha escrito sobre a selva escura em que se viu
perdido no meio do caminho de sua vida, onde sua verdadeira estrada
desaparecera. Nenhum desses relatos, porém, é o registro verdadeiro de uma
perdição, de um descaminho. Se não tivessem voltado, como nos diriam? Por que
descreveriam as visões e as viagens ao mundo obscuro que há sob a Terra, no além,
lado reverso ao da vida? Acontece que a descoberta deste Outro caminho, seja
dentro de si, seja dentro da memória escrita e perpetuada dos poetas, é em
verdade uma Iniciação, semelhante à busca que aqueles mestres promoveram. Por
isso, livre-se agora dessas suspeitas medrosas; aqui, toda maldade está morta.
Vamos juntos descer a esse lugar que a toda luz é mudo, lá onde o Sol cala.
Rimbaud se disse
bárbaro, selvagem. Sai em jornada, deixa a Europa; queima ervas, caça, bebe
licores de chumbo derretido, como seus ancestrais ao redor do fogo; dança o
sabbath numa incendiada clareira, junto a velhas e crianças. Abomina o trabalho
e a civilização da qual ele mesmo está doente, e assim foge, proscreve-se,
torna-se um maldito. Desce ao Inferno para sair da Terra contaminada. Não vamos
repreendê-lo por isso. Na escrita, na sua poesia, realiza essa imersão no mundo
perdido dos mortos. Clamar às palavras que o levem da realidade visível para o
lugar do divinatório, do invisível onde regem as forças mágicas, é o que o
vemos fazer. É o responsável por evocar sua própria condição de maldito, o seu
ato de rebeldia, como fez Gérard de Nerval:
El Desdichado
Eu sou o Tenebroso, - o Viúvo, - o Inconsolado,
O Príncipe de Aquitânia na Torre abolida:
Minha única Estrela está morta, e meu alaúde
constelado
Carrega o Sol negro da Melancolia.
Na noite do Sepulcro, Tu, que me tens consolado,
O Posílipo e o mar Itálico me envias,
A flor que tanto agradara o meu ser desolado,
E a treliça onde a Vinha à Roseira se alia.
Sou Byron ou Lusignan?... Febo ou Amor? Minha fronte
Ainda arde rubra com o beijo da Rainha;
Eu sonhei na Gruta onde nada a Sirene...
E duas vezes cruzei vencedor o Aqueronte:
Modulando na Lira de Orfeu nota a nota
Os suspiros da Santa e os gritos da Fada.
Como Rimbaud,
como Dante, Nerval desce ao Inferno e atravessa o rio que o separa dos vivos.
Sua alma, sua essência onírica, o abandona nesse estágio de incorporação
divinatória, e vaga em jornada para longe do corpo. Contam os gregos que o
primeiro viajante que desceu ao mundo inferior foi Orfeu, o primeiro e maior de
todos os poetas. Os Hinos Órficos demonstram a grandiosidade das visões
sagradas deste deus, e sua suprema arte ao invocá-las magicamente com palavras
cantadas à Lira, como no grandiosa Hino à Divindade dos Sonhos (que era ouvido
enquanto fumegavam-se ervas aromáticas):
Eu te invoco, abençoado poder dos sonhos divino,
anjo dos destinos futuros, velozes são tuas asas:
grande fonte de oráculos para o ser humano,
quando ladrando fugidio, ou murmurando à mente,
pelo doce sono do silêncio e escuro da noite,
teu poder desperta tua força intelectual;
às almas silenciosas a vontade dos céus se revela,
silenciosamente com seus destinos futuros.
Sempre amável às mentes sinceras,
sagrada e pura, inclinada aos divinos ritos.
Era Orfeu quem
evocava os Deuses com os mais belos versos:
Hino Órfico 10: Natureza
(fumigação: ervas aromáticas)
Ó Natureza, deusa mãe de todos, mãe de muitos
engenhos,
celeste, anciã soberana, nume que muito engendra;
a tudo subjuga sem ser subjugada, governadora
oniluzente,
onipotente, suprema entre todos.
Imperecível, primogênita legendária, glorificada,
da noite e constelada, luzidia difícil de conter,
bem torneado rastro silente no girar dos ciclos,
pura magistrada dos Deuses, perfeita e imperfeita,
partilhada por todos, só tu de nada partilhas,
pai de si mesma e sem pai, amável, muito alegre,
magna,
bem flórea tecelã, amiga, repleta de misturas, hábil,
hegêmone, senhora vital, donzela toda nutriz,
a autossuficiente Justiça e a Persuasão de muitos
nomes das Graças,
Guardiã etérea, terrestre e marinha,
acerba aos vis, doce aos que te obedecem,
em tudo sábia, em tudo dadivosa, nutriente rainha de
tudo;
fruticosa, árbitra opima dos maturescentes frutos.
Tu és o pai de tudo, e a mãe; és nutriente e nutriz,
rápida parteira, venturosa de muitas sementes, o ímpeto
das Estações [Horas],
artificiosa, plasmadora, nume dos mares que muito
engendra.
Perpétua e movedora, muito experienciada e prudente,
turbilhonando em semprefluentes remoinhos o seu ágil
fluir,
toda fluida, circular, sempre alternante forma,
preciosa de belo trono, só tu distinta e perfeita,
rainha cetrada das alturas, tonitruante poderosa,
imperturbável que a tudo subjuga, destinada sina, ignívoma,
vida perpétua e providente imortal:
Tu és tudo isso, soberana, pois apenas tu fazes tudo!
Eia, deusa, suplico-te em hora bem afortunada:
traz saudável
paz, e o crescimento de todas as coisas.
O mesmo Orfeu é
o que desceu ao Vale dos Mortos, cruzou o Aqueronte e cantou sua dor para Hades
e Perséfone, para reaver Eurídice. Nesse processo realiza seu sentido trágico,
do qual é inseparável. Não se pode diferenciar o que nos hinos órficos é mágico
e evocativo do que é lirico e poético. Essa travessia para os estágios do mundo
que existem além dos sentidos e da consciência, através dos veículos mágicos
das palavras, é também xamânica. Em todos os agrupamentos humanos, o xamã é
aquele que ganha conhecimento, poder ou cura ao entrar nas profundezas da
dimensão espiritual do mundo. Esse aprofundar-se no espírito muitas vezes é uma
intoxicação, uma doença. O xamã, o curandeiro ferido, deve ficar doente para
que entenda a doença, e superá-la é a própria prova que o inicia no Mistério,
seu rito de passagem. Ao voltar do mundo dos mortos que o xamã viu com seus
olhos anímicos (em geral levado por um guia espiritual, como o Mescalito de Don
Juan, ou como Virgílio, que apareceu para conduzir Dante pelo Inferno), ele detém
um conhecimento sagrado, que o engrandece à vista dos demais indivíduos não
iniciados, aos quais deve auxiliar com suas ideias elevadas.
As palavras dos
poetas, como as dos profetas, dos curandeiros e dos magos, são intraduzíveis,
pois derivam diretamente de outra dimensão do mundo, aquela inteligível. São
verdadeiras e carregam consigo uma longa tradição. Poucos as recebem; aqueles
que não têm essa capacidade, que nada evocam, buscam orientação e esclarecimento
naqueles que foram chamados, introduzidos. Por essa posição de influência, os
xamãs e os poetas foram, nas culturas civilizadas, perseguidos e exilados,
tornaram-se malditos, rebeldes, enfants terribles, e tornaram suas Artes em Ciências
Ocultas, para que sobrevivessem. A Igreja relacionou os rituais sagrados que
precederam o Cristianismo com o demônio; condenaram à morte as mulheres de íntimo
contato com a Natureza, sacerdotisas da Grande Deusa; silenciaram as palavras
dos antigos tratados gregos e egípcios com fogo. Mas só essa dor, só essas
feridas, podem servir para carregar e introduzir os insatisfeitos que buscam a
verdade, e através delas encontrar o Divino. É preciso o desmaio para que se
desperte em seguida em outro plano. Os cantos que animam plantas, que se
comunicam com mortos, que chamam os deuses, que pedem cura e conhecimento, para
os ouvidos que não os compreendem, soam como lamentos. Como tal, são
condenados. A serpente, símbolo de conhecimento, como nas Pitonisas, sonâmbulas
ébrias portadoras de uma luz astral (o Espírito da serpente Python), como no
cetro de Hermes, foi descrita pela moralidade cristã como criatura vil que
oferta à primeira mulher e, por obra desta, ao primeiro homem, uma promessa de
igualdade com Deus, no Gênese. A sabedoria do Bem e do Mal foi declarada
blasfema; a busca pela Luz foi proibida. A Serpente passou a incorporar o Mal.
Lúcifer, Aquele que Porta a Luz, passou a incorporar Satã, o Oponente, e à obra
dele se atribuiu distorcidamente toda manifestação de conhecimento das forças
naturais. O poeta e o profeta já não podem mais viver entre todos. Mas sua
verdade continua viva. Tendo-lhes sido revelada, deve ser preservada e
amplificada. A leitura de suas palavras, mais do que um contato com conteúdos
divinatórios revelador, é uma efetiva realização da potência mágica nelas
contida; escrever o mito não é só registrá-lo; é reencená-lo, atualizá-lo,
revivê-lo. É fonte de êxtase e delírio.
Em outras tradições
ocorre o mesmo fenômeno: o haikai japonês parece tão insondável para o senso
comum do Ocidente porque ele mesmo, na sua estrutura interna, na sua sintaxe, é
a realização do espírito religioso que toda aquela cultura procura realizar ao
ritualizar cada aspecto e cada gesto da vida. A simplicidade frasal do haikai
vibra no espaço ao evocar o momento epifânico, como em Matsuo Bashô:
Passagem da primavera
Canto de aves, marejar de lágrimas
nos olhos dos peixes
, instante de contemplação do interior das coisas que existe no poema, da mesma forma como a Iluminação é compreendida no som das palmas emitidas por uma única mão. A palavra poética, ritualística, é simultânea à elevação divina. Transmiti-la é o papel dos que desceram ao mundo dos espíritos e que, incorporando Orfeu, cantam seus aprendizados mais profundos. Estonteantemente possuídos, devemos deixar que a força da natureza, que a Luz sagrada do conhecimento, nos tome os gestos e nos permita a comunicação com a nossa verdadeira alma.
Não sei se era memória o que eu falava,
se era palavra muda o que eu ouvia,
sei de imensas presenças que giravam,
enxame numeroso que me seguia.
Só eu não era lúcido nem firme,
só eu era emigrado e diminuto.
Desde aqui me fitei, vendo-me lá:
o antigo tempo, as coisas, meus avós,
o mês das vides, rostos imprecisos.
E estendendo as mãos às graças prometidas,
às mensagens traídas. Lágrima ázima
e sem sabor de sal, de tão sorvida.
Turva canção de treva refugiada,
em noturno galope de silêncios,
por secreto roteiro dirigida.
Os insetos irão me velejar
na tumba cinza. Dante! E teus insetos?
Ó canto cotidiano teu, meu. Dias.
Nsso duende, nossa ventania.
E no pego terreno eu distinguia
a irrupção que a desgraça levantava
que ora inchava, ora rápida morria.
Dante no inferno, Dante no céu, Dante
que me responde: "Escuto os astros; nada
posso, vou designado, apenas ser,
já me confundo em signos estelares,
sou invadido lume, pulso o eterno,
tua terra se esconde, terra infiel,
lua sem paz; recordo, era em jornada,
achei-me numa selva tenebrosa,
tendo perdido a verdadeira estrada."
(Jorge de Lima, trecho
de "Invenção de Orfeu")
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