O que mais me assustou, intrigou no dia de hoje, não
foram os fatos, meras gotas d’água, mas sim a progressão que compuseram
combinados, oceano em tormenta. Todo acontecimento em si, solitário, separado
dos demais, basta-se em sua normalidade de ser. O que vem e altera tal ordem de
existência, viabilizando assustadores acessos de combinações inesperadas (os
quais o costume apelida de acaso, coincidência, enfim...), é a complexa rede
que o tempo tece no espaço com essa fartura de normalidades que multiplicadas,
somadas, subtraídas e divididas entre si, proporcionam aos espíritos atentos (e
também aos nem tão atentos assim) a boa dose de espanto que nunca fica de fora
da vida de ninguém.
Espanto. Pois bem, a trama que se me ofereceu
nas últimas horas, desde meu despertar (e principiando inclusive antes, vinda
dos sonhos) até o momento em que abri o jornal no metrô, fez ressoar
vertiginosamente a palavra “espanto” em todo o meu corpo, que mesmo já mais
manso agora, ainda carrega em si nervos agitados. Me pus a escrever neste
horário de almoço aqui na firma, pois não me veio mais nada, nenhuma
alternativa racional capaz de conceder um punhado de lógica à sucessão de fatos
pela qual transitei na manhã que acaba de passar. Resolvi pelo registro, assim,
sem intuito de significado, com intuito único de despejar no papel algo de um
frescor que me incomoda demasiado.
Fazia uma luz estranha logo que despertei. Meus
olhos pareciam melados, como se vissem a realidade através do vidro de uma
garrafa velha ou trincada ou suja. Disse-me: “coragem...”. Dei-me um tapinha na
bochecha, livrei-me das cobertas (nelas permanecia instalado o peso do sono) e
depositei meus pés no assoalho. A claridade que reinava no quarto, limitada, me
fez recordar um papel-toalha manchado de chá. Foi então que me senti como se
tivesse sido espancado durante a noite toda, pois meu corpo doía, arquejava de
dor, meu braço direito, em seu encaixe com o ombro, latejava como se penetrado
por centenas de grossas agulhas de tricô. Relevei o incômodo, contrariado, era
preciso sair e trabalhar, hoje é segunda, e me pus a calçar os sapatos.
Enquanto os amarrava, formou-se lentamente em meu crânio um vago panorama
(quase uma massa amorfa) de meus sonhos mais recentes. Muito acontecera neles,
eu tinha a sensação e a lembrança de uma noite de agitados percursos, ações e
imagens. Não me foi possível recordar tudo. Os sucedidos, como se sob a batuta
de um maestro negligente, retornavam e renasciam a mim desordenados, feito
épocas fora de época. Uma sequência em especial, porém, me veio à tona. Era
noite, eu estava numa rua escura, cercado de árvores que produziam sombras de
variados desenhos. Acabara de sair de um lugar repleto de gente, algo como uma
galeria ou um shopping ou um clube tremendamente iluminado por lâmpadas
amarelas. Então olhei para o céu, e, surpresa, em sua escuridão avistei um
enorme corpo cósmico, intensamente prateado, cheio de crateras e de imensos
detalhamentos. Era como ver a lua (pois o corpo tinha o rosto da lua) através
de um microscópio de escala irreal. O engodo é que se tratava de uma lua
incômoda: seu contorno não obedecia à redondez habitual, era irregular e em
alguns pontos até denteado, como se a lua houvesse sido metralhada ou mordida
por um Deus raivoso ou faminto; lembrei-me de que no sonho me perguntara: “Que
terá ocorrido com a lua?”, e que olhei para os lados, e me vi sozinho, de todo
solitário, sem ninguém com quem pudesse comentar a assombrosa imagem da qual
era refém. Foi nesse instante que surgiu um homem de terno, engravatado,
virando uma esquina próxima, ele cruzou meu caminho e eu tentei mostrar-lhe o
céu, balbuciar algo, mas ele passou reto, olhando-me nos olhos, dizendo-me
qualquer coisa que não podia compreender, em uma língua inominável, ríspida e
profética. Fim da recordação.
A partir daí, tendo o sonho se incrustado em
minha recém-retomada vigília, todos os aspectos da realidade que me rodeava
ganharam uma faceta peculiar, brevíssima porém estranha. Alguns objetos que
meus olhos tocavam pareciam envolvidos por um algodão invisível (esta é a
imagem mais próxima que consigo atingir para descrevê-los). Além disso,
acontecimentos prosaicos destilavam uma aura duvidosa por si sós, aura que me
fazia mergulhar em profundas meditações. Por exemplo, no café da manhã diário,
junto ao pão na mesa, sempre preparo um chá ao invés do café tão agressivo ao
meu estômago, e nele mergulho um golinho de leite, com o intuito de tornar seu
sabor ainda mais delicado. Hoje pela manhã, no entanto, ao diluir-se no chá, o
leite ofereceu-me um espetáculo incomum e deslumbrante, em seu estiramento
quase convulsivo era possível expedicionar pela visão de algo muito próximo ao
parto de galáxias, de supernovas, de sóis e de estrelas, algo também como o
movimento de nuvens rarefeitas deslizando num céu de inverno, só que cor de
tabaco escuro, que é a cor do chá que bebo, e tudo isso em câmera lenta,
lentíssima, prolongando ainda mais meu esquisito deleite.
Meu corpo ainda doía, e muito, e disso me dei
conta com mais veemência enquanto caminhava de casa até o metrô, ladeira acima,
o trabalho como destino, prosseguindo meu dia. Garoava e ventava e, enrijecido
debaixo do guarda-chuva, eu sentia como se minhas coxas detonassem em chamas.
Lá e cá, no decorrer das coisas com as quais cruzava, muito parecia permanecer
em aberto, ou sem desfecho, aparição virgem, intocada e nova de um percurso que
conheço como a palma de meus dedos. Já no vagão, minha sensação geral,
amplificada, era de beirar o insondável, dentro de mim e dentro do ar, um vago
respiro (novamente uma imagem incerta, o mais próximo possível que consigo
atingir do que de fato foi) se alastrava, eu me encontrava como que
inteiramente propenso ao nada, ou ao tudo, e a luz das lâmpadas incertas do
vagão em movimento me atingia feito a forma de espirais estelares. Ato
contínuo, senti-me vigiado, atentamente observado, invadido. Olhei para o lado:
a poucos palmos de mim, uma velha me encarava, seu olhar carregado de desprezo
e reprimenda. Sustentamos o duelo de olhos até a estação seguinte, na qual ela
desembarcou (curiosamente, tratava-se da estação de nome “Paraíso”). Algo
pareceu ter sido sugado de mim naquela breve troca de miradas, algo pequeno,
todavia vital.
Segui meu percurso habitual. Até então, todos
esses entremeios pareciam destilar uma lógica de acaso, de soma de simples
acontecimentos percebidos através do filtro que uma noite e um despertar
turbulentos provocam em nossos sentidos. Nada mais que isso. Resolvi, assim,
folhear o jornal que trazia na mochila, distrair-me para que o trajeto até o
serviço recuperasse sua normalidade prosaica, seu dia-a-dia. Mal sabia que o
que encontraria no jornal me apavoraria e deslumbraria com desmedida
intensidade, subvertendo minhas expectativas de que toda a sucessão de
ocorridos até então não passava de resultado efêmero das circunstâncias. Na
página de ciência, escondida ao final do primeiro caderno, reluzia uma notícia
de que um grupo de físicos da NASA mapeara o terceiro maior asteroide conhecido
no sistema solar. Havia uma imagem do asteroide, dessas tiradas por sonda
espacial, telescópio viajante do cosmos. E a imagem entrou em colisão com
minhas retinas, sombria, colocando-me subitamente de volta naquela rua
esvaziada e prateada de pouco antes, pois seus contornos e sua faceta eram
exatamente os contornos e a faceta da bizarra e mastigada lua (ou asteroide?)
que povoara o céu em meu sonho. Prenúncio?
Não sei que cara fiz no instante do choque,
deve ter sido uma cara de assombro ou de mal-estar tremendo, um senhorzinho ao
meu lado disse: “Jovem, sente-se bem? Quer sentar um pouco?”, e essas palavras
(benditas palavras!) resgataram-me do calvário, pois eu não mais sabia se
dormia ou se encontrava-me desperto, não tinha a mínima noção do buraco amorfo
no qual me situava, hesitante, inteiramente hesitante entre confiar e
desconfiar da realidade que me cercava. Só sei que olhei fundo nos olhos do
senhorzinho, e neles encontrei um pingo de segurança, algo brilhava ali com uma
intensidade verdadeiramente real, tão real que a anestesia na qual se encontrava
meu corpo dissolveu-se, e eu voltei a sentir o incômodo da dor que me assolava
desde o despertar. Disse: “Estou bem, obrigado...”, assim, seco e vago, enrolei
o jornal e desembarquei na estação seguinte, nem sequer averiguei se se tratava
da estação na qual deveria abandonar o trem, tomou-me violentamente um ímpeto
de salvação no centro daquele oceano em tormenta, e que fez meus músculos se
movimentarem com desespero. Então procurei a lixeira mais próxima, e nela
depositei sem remorso o jornal com a foto impressa e roubada de meu sonho.
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