20.9.13

O asteroide


           O que mais me assustou, intrigou no dia de hoje, não foram os fatos, meras gotas d’água, mas sim a progressão que compuseram combinados, oceano em tormenta. Todo acontecimento em si, solitário, separado dos demais, basta-se em sua normalidade de ser. O que vem e altera tal ordem de existência, viabilizando assustadores acessos de combinações inesperadas (os quais o costume apelida de acaso, coincidência, enfim...), é a complexa rede que o tempo tece no espaço com essa fartura de normalidades que multiplicadas, somadas, subtraídas e divididas entre si, proporcionam aos espíritos atentos (e também aos nem tão atentos assim) a boa dose de espanto que nunca fica de fora da vida de ninguém.
           Espanto. Pois bem, a trama que se me ofereceu nas últimas horas, desde meu despertar (e principiando inclusive antes, vinda dos sonhos) até o momento em que abri o jornal no metrô, fez ressoar vertiginosamente a palavra “espanto” em todo o meu corpo, que mesmo já mais manso agora, ainda carrega em si nervos agitados. Me pus a escrever neste horário de almoço aqui na firma, pois não me veio mais nada, nenhuma alternativa racional capaz de conceder um punhado de lógica à sucessão de fatos pela qual transitei na manhã que acaba de passar. Resolvi pelo registro, assim, sem intuito de significado, com intuito único de despejar no papel algo de um frescor que me incomoda demasiado.
           Fazia uma luz estranha logo que despertei. Meus olhos pareciam melados, como se vissem a realidade através do vidro de uma garrafa velha ou trincada ou suja. Disse-me: “coragem...”. Dei-me um tapinha na bochecha, livrei-me das cobertas (nelas permanecia instalado o peso do sono) e depositei meus pés no assoalho. A claridade que reinava no quarto, limitada, me fez recordar um papel-toalha manchado de chá. Foi então que me senti como se tivesse sido espancado durante a noite toda, pois meu corpo doía, arquejava de dor, meu braço direito, em seu encaixe com o ombro, latejava como se penetrado por centenas de grossas agulhas de tricô. Relevei o incômodo, contrariado, era preciso sair e trabalhar, hoje é segunda, e me pus a calçar os sapatos. Enquanto os amarrava, formou-se lentamente em meu crânio um vago panorama (quase uma massa amorfa) de meus sonhos mais recentes. Muito acontecera neles, eu tinha a sensação e a lembrança de uma noite de agitados percursos, ações e imagens. Não me foi possível recordar tudo. Os sucedidos, como se sob a batuta de um maestro negligente, retornavam e renasciam a mim desordenados, feito épocas fora de época. Uma sequência em especial, porém, me veio à tona. Era noite, eu estava numa rua escura, cercado de árvores que produziam sombras de variados desenhos. Acabara de sair de um lugar repleto de gente, algo como uma galeria ou um shopping ou um clube tremendamente iluminado por lâmpadas amarelas. Então olhei para o céu, e, surpresa, em sua escuridão avistei um enorme corpo cósmico, intensamente prateado, cheio de crateras e de imensos detalhamentos. Era como ver a lua (pois o corpo tinha o rosto da lua) através de um microscópio de escala irreal. O engodo é que se tratava de uma lua incômoda: seu contorno não obedecia à redondez habitual, era irregular e em alguns pontos até denteado, como se a lua houvesse sido metralhada ou mordida por um Deus raivoso ou faminto; lembrei-me de que no sonho me perguntara: “Que terá ocorrido com a lua?”, e que olhei para os lados, e me vi sozinho, de todo solitário, sem ninguém com quem pudesse comentar a assombrosa imagem da qual era refém. Foi nesse instante que surgiu um homem de terno, engravatado, virando uma esquina próxima, ele cruzou meu caminho e eu tentei mostrar-lhe o céu, balbuciar algo, mas ele passou reto, olhando-me nos olhos, dizendo-me qualquer coisa que não podia compreender, em uma língua inominável, ríspida e profética. Fim da recordação.
           A partir daí, tendo o sonho se incrustado em minha recém-retomada vigília, todos os aspectos da realidade que me rodeava ganharam uma faceta peculiar, brevíssima porém estranha. Alguns objetos que meus olhos tocavam pareciam envolvidos por um algodão invisível (esta é a imagem mais próxima que consigo atingir para descrevê-los). Além disso, acontecimentos prosaicos destilavam uma aura duvidosa por si sós, aura que me fazia mergulhar em profundas meditações. Por exemplo, no café da manhã diário, junto ao pão na mesa, sempre preparo um chá ao invés do café tão agressivo ao meu estômago, e nele mergulho um golinho de leite, com o intuito de tornar seu sabor ainda mais delicado. Hoje pela manhã, no entanto, ao diluir-se no chá, o leite ofereceu-me um espetáculo incomum e deslumbrante, em seu estiramento quase convulsivo era possível expedicionar pela visão de algo muito próximo ao parto de galáxias, de supernovas, de sóis e de estrelas, algo também como o movimento de nuvens rarefeitas deslizando num céu de inverno, só que cor de tabaco escuro, que é a cor do chá que bebo, e tudo isso em câmera lenta, lentíssima, prolongando ainda mais meu esquisito deleite.
           Meu corpo ainda doía, e muito, e disso me dei conta com mais veemência enquanto caminhava de casa até o metrô, ladeira acima, o trabalho como destino, prosseguindo meu dia. Garoava e ventava e, enrijecido debaixo do guarda-chuva, eu sentia como se minhas coxas detonassem em chamas. Lá e cá, no decorrer das coisas com as quais cruzava, muito parecia permanecer em aberto, ou sem desfecho, aparição virgem, intocada e nova de um percurso que conheço como a palma de meus dedos. Já no vagão, minha sensação geral, amplificada, era de beirar o insondável, dentro de mim e dentro do ar, um vago respiro (novamente uma imagem incerta, o mais próximo possível que consigo atingir do que de fato foi) se alastrava, eu me encontrava como que inteiramente propenso ao nada, ou ao tudo, e a luz das lâmpadas incertas do vagão em movimento me atingia feito a forma de espirais estelares. Ato contínuo, senti-me vigiado, atentamente observado, invadido. Olhei para o lado: a poucos palmos de mim, uma velha me encarava, seu olhar carregado de desprezo e reprimenda. Sustentamos o duelo de olhos até a estação seguinte, na qual ela desembarcou (curiosamente, tratava-se da estação de nome “Paraíso”). Algo pareceu ter sido sugado de mim naquela breve troca de miradas, algo pequeno, todavia vital.
           Segui meu percurso habitual. Até então, todos esses entremeios pareciam destilar uma lógica de acaso, de soma de simples acontecimentos percebidos através do filtro que uma noite e um despertar turbulentos provocam em nossos sentidos. Nada mais que isso. Resolvi, assim, folhear o jornal que trazia na mochila, distrair-me para que o trajeto até o serviço recuperasse sua normalidade prosaica, seu dia-a-dia. Mal sabia que o que encontraria no jornal me apavoraria e deslumbraria com desmedida intensidade, subvertendo minhas expectativas de que toda a sucessão de ocorridos até então não passava de resultado efêmero das circunstâncias. Na página de ciência, escondida ao final do primeiro caderno, reluzia uma notícia de que um grupo de físicos da NASA mapeara o terceiro maior asteroide conhecido no sistema solar. Havia uma imagem do asteroide, dessas tiradas por sonda espacial, telescópio viajante do cosmos. E a imagem entrou em colisão com minhas retinas, sombria, colocando-me subitamente de volta naquela rua esvaziada e prateada de pouco antes, pois seus contornos e sua faceta eram exatamente os contornos e a faceta da bizarra e mastigada lua (ou asteroide?) que povoara o céu em meu sonho. Prenúncio?
           Não sei que cara fiz no instante do choque, deve ter sido uma cara de assombro ou de mal-estar tremendo, um senhorzinho ao meu lado disse: “Jovem, sente-se bem? Quer sentar um pouco?”, e essas palavras (benditas palavras!) resgataram-me do calvário, pois eu não mais sabia se dormia ou se encontrava-me desperto, não tinha a mínima noção do buraco amorfo no qual me situava, hesitante, inteiramente hesitante entre confiar e desconfiar da realidade que me cercava. Só sei que olhei fundo nos olhos do senhorzinho, e neles encontrei um pingo de segurança, algo brilhava ali com uma intensidade verdadeiramente real, tão real que a anestesia na qual se encontrava meu corpo dissolveu-se, e eu voltei a sentir o incômodo da dor que me assolava desde o despertar. Disse: “Estou bem, obrigado...”, assim, seco e vago, enrolei o jornal e desembarquei na estação seguinte, nem sequer averiguei se se tratava da estação na qual deveria abandonar o trem, tomou-me violentamente um ímpeto de salvação no centro daquele oceano em tormenta, e que fez meus músculos se movimentarem com desespero. Então procurei a lixeira mais próxima, e nela depositei sem remorso o jornal com a foto impressa e roubada de meu sonho.

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