para Don Juan
Abri
os olhos, e me ofuscaram os claros riscos do sol. Não o via diretamente, mas
refletido por um pequeno espelho, através de uma fresta nos tabiques toscamente
justapostos que formavam o teto da casa. Nesse reflexo, além da luz desviada do
dia, se viam também as grossas folhagens das árvores. Incapaz de mirar
diretamente os raios, fechei os olhos novamente, e me virei na cama; o brilho
orgânico no céu escuro de minhas pálpebras tornou-se então, em minha mente, uma
imagem magnífica, na qual me via entre os galhos intermináveis do lado de fora
daquela morada que aparentemente eu visitara buscando uma certa cura do
espírito. Com a visão então preenchida pela mata, a massa de sons da natureza
seguindo um ritmo ordenado por bumbos e maracás e os cipós a perder-se na
distância, só detive os movimentos da cabeça confusa quando encontrei, diante
de mim, o sábio Don Juan, com mantos coloridos que o confundiam com as folhas
vermelhas de jatobás, amarelas de maçarandubas e verdes como todo o resto do
mundo.
Descobri dias depois, quando
refletia a respeito dos elementos simbólicos desta visão, que tais cores não
eram comuns nos trajes dos indígenas que viviam em semelhantes florestas
tropicais; nelas usam-se, segundo os antropólogos que as estudaram, tangas e
saiotes ou cintos que cobrem o sexo feitos de penas de animais, folhas de
plantas, entrecascas de árvores, por isso a coloração mais crua, distinta das
suas pinturas corporais, que em compensação vibravam de pigmentos do mato, com
pasta de urucum, o jenipapo, argila ou até fuligem de panela. Francisco Hernández e o Fray Bernardino de Sahagún, um médico
renascentista que embarcou ao Novo Mundo para estudar por sete anos as plantas
medicinais conhecidas pelos indígenas e um frade formado em Salamanca e enviado
dois anos após sua ordenação para a Nova Espanha (ali se tornando escritor de
importantes tratados sobre o continente, até mesmo no idioma Náhua-tl), descreviam as tinturas multicores como parte dos usos dos índios
da América Central, "pelo menos os do século XVI", embora, segundo os
autores, se possa reconhecer uma antiguidade pelo menos oito séculos maior nos
procedimentos de tingimento, na época já utilizados na obtenção do azul-maia das
pinturas feitas por Juan Gersón em Tecamachalco, em 1562; alguns anos depois, Francisco
Hernández obteve a receita para obter este azul a partir das folhas de anil,
planta florífera hoje chamada de Indigofera
suffruticosa, que os colonizadores acreditavam ser chamada de matlalli, confundindo-a com o nome dado
a certa espécie do gênero Commelina
devido a um provável problema no entendimento da língua local. Don Juan era um
índio Yaqui, povo falante de uma
língua Uto-Asteca, por isso possivelmente compartilhava de traços da cultura
descrita pelo fray e pelo médico.
Graciela, boliviana de mãe Quechua e
pai Aymara que eu conheci no lago
Titicaca graças à boa disposição à sociabilidade dos seus filhos Amaru e Amauta,
propôs-me a teoria de que os indígenas andinos (eu cuidei de estender o
raciocínio aos dos desertos norte-americanos) vestiam-se com cores mais vivas
como forma de se contraporem ao espaço geográfico marcado pela aridez visual da
poeira, experiência contrária à dos povos neotropicais. Talvez por respeito a
Don Juan, também eu usava vestes de colorido estranho à gente da floresta: cobria-me
um poncho azul bordeado por construções geométricas brancas e negras que
representavam o wanaku e as aves
sagradas.
O brujo nada falava. Tinha os olhos e os lábios encerrados sobre uma
flauta de madeira, e soprava uma melodia bastante rudimentar, como o som de
insetos ecoando numa cavidade oca. Não saberei descrever a essência dessa
música, devido ao fato de ela constar somente nos relatos orais de algumas
lideranças religiosas de tribos pouco contatas pela civilização escrita, e por
isso ter se perdido em interrompidas correntes de discípulos, e principalmente
porque, nos minutos muito longos em que eu a ouvia, entrando em transe
profundo, minha percepção se diluiu em um fluxo de pensamentos em redemoinho
dentro do vasto aquário da realidade. Roberto Piva escreveu que a cabeça é uma
bola digerindo os aquários desordenados da imaginação, frase que recupera as
concepções kantianas da relação entre a mente e o mundo - categorias que, para
o prussiano, jamais se acessam de modo claro, senão por condicionantes
distorções, como as percebidas por um peixinho dourado que repouse sobre um
piano empoeirado em uma imensa e aparentemente (para ele) infinita abóbada de
cristal que lhe faz chegar as ampliadas deformações de um quarto acarpetado e escuro,
de contornos reorientados pelas leis da refração aquática em vidros côncavos,
as quais o sujeito-animal desconhece. Ao
tocar sua música, o xamã foi, sem que eu percebesse como, se transformando em
um gigante. A voz da madeira, ao se tornar mais aguda, fê-lo crescer lentamente,
até que eu o via dezenas de metros acima de mim. Na verdade, o verdejante escuro
por trás dele também crescera; precisei deduzir, ao ver em minha volta folhas
secas com pecíolos mais grossos que meus braços, que fui eu a diminuir de
tamanho com o feitiço de Don Juan. As raízes que cresciam entre as pedrinhas
cor-de-barro que eram partículas de terra, contorcendo-se musculosamente como
troncos cortando o céu, erguiam-se altas como catedrais góticas; nas folhas brilhava
o sol colorido ressaltando maravilhosos padrões de seus veios, como vitrais
cheios de figuras sagradas que o barroco germânico pintou, talvez com o mesmo
sentimento expresso um pouco mais tarde na história pelo assombro imensurável de
exploradores do continente denso como Von Martius, Humboldt ou Rugendas,
descendo em frágeis embarcações de fibras o violento Rio Negro. Dei as costas
para o imenso índio e sua melodia, e comecei a abrir meu caminho com
dificuldade pelos restos orgânicos do chão de terra.
A experiência de ser minúsculo na
mata não pode ser descrita facilmente com a linguagem da literatura, pois sinto
que meu cérebro, em um tamanho diminuído, não era capaz de realizar as
operações complexas de que dependem a intelecção da escrita e da leitura, como
a concepção de signos e a própria racionalidade, os juízos; naquele momento,
minha consciência estava reduzida a uma primitiva forma de percepção que mal
distinguia as informações sensoriais umas das outras. O mundo ao redor me
chegava em um único e colossal estímulo, mistura indistinta de manifestações visuais,
reverberação de sons distantes e cheiros ora atraentes, ora amedrontadores. Assim,
o que há de digressão e de interpretação no presente relato resulta de um
processo posterior de organização do pensamento, passível de contaminação racional.
Eu corria, talvez gritasse a plenos
pulmões, até que a falta de fôlego me detivesse, e então parava escondido sob a
sombra de alguma cobertura feita das bases emaranhadas das árvores, recuperava
o ar e então voltava a correr com todas as minhas forças, sem me preocupar em
dispender energia com movimentos eficientes de fuga, provavelmente cobrindo,
nessas sucessivas carreiras, uma área muito pequena para os padrões espaciais
de um ser humano. Estranhamente, eu sentia uma certa forma de gratificação
mental ao movimentar meu corpo dessa maneira impulsiva, como se tivesse prazer pelo simples fato de correr,
gritar e debater-me, de existir fisicamente com intensidade. Mesmo a
diferenciação entre mente e corpo fazia pouco sentido. A minha existência, ali,
coincidia exatamente com a extensão de meus membros no espaço, e o fato de
estar vivo era o mesmo que ser um
corpo, o que não é o mesmo que pensar ter
um corpo, ao contrário da crença de Descartes numa casca vazia e inanimada que
abriga uma insatisfeita consciência, ansiando não ter substância e esvanecer no
éter. Fui-me preenchendo de algo como uma sensação de completude, de alegria,
de desejo pelo continuar em movimento. Essa satisfação primordial era
interrompida por breves intervalos de terror, quando algum som ou algum
movimento entre as folhagens sugeria a presença de outros seres, e então eu parava
arregalando os olhos e as narinas em todas as direções suspeitas, ou
instantaneamente buscava abrigo na cavidade mais próxima.
Logo (não sei dizer depois de quanto
tempo, afinal era-me estranho o conceito de temporalidade tal qual o concebemos
- simultaneidade ou sucessão progressiva dos fenômenos) cruzei o caminho de outro
animal. O primeiro contato foi com uma criatura verde, três vezes mais alta do
que eu ao se apoiar nas patas traseiras, e globos oculares maiores do que minha
cabeça, fascinantes justaposições de hexágonos cristalinos refletindo, com um
brilho iridescente, a minha expressão de medo e encantamento. Pela quantidade
de membros articulados, descobri que era um inseto; pelas garras despontando do
tórax, que era um louva-a-deus. O olhar que me lançava, e que lançava
inevitavelmente para toda a circunferência do espaço, lembrou imediatamente o
de um predador. Eu o sabia, e no entanto não era possível escapar; estava como
que hipnotizado por ele. O louva-a-deus, porém, abriu as asas transparentes que
surgiram do manto verde-folha e voou em outra direção. Despertei imediatamente
do sonho em que me perdera (o qual, futuramente, deve ser a inspiração para um
conto fantástico: em um tempo já esquecido, a visão assombrosa dos olhos dos
tigres por homens vulneráveis seria, nesta história ficcional e absurda, o
motivo criador da primeira forma de linguagem na história humana), e voltei a
correr sem caminho.
Certamente, a sensação de estar em
tamanha desvantagem na luta pela sobrevivência, de representar um elo mais
fraco da teia de relações alimentares, e de ter vislumbrado, na minha morte, a
vitória da vida dos outros, produziu-me ainda mais respeito pela natureza, com
particular atenção a todos os seres sencientes; eu já havia prometido não comer
nenhum dos demais animais, e que não viveria da morte de meus irmãos sem que
pudesse prestar-lhes os devidos tributos de agradecimento, mais importantes que
as preces de perdão lamurioso pela culpa de um sacrifício. A morte que renasce em
outro corpo é um ato profundamente simbólico, que a vida das cidades ignora
grosseiramente, e nelas se apartam os seres humanos da natureza, assim como se
aparta sua consciência particular da consciência do todo. Essa separação não se
manifesta somente no gesto cultural de devorarem-se, sem ter clareza do sentido
do ato, as fibras musculares, os diversos tecidos, as vísceras e o sangue de
uma série de espécies animais após expô-las à ardência das brasas. Recordo-me
de meu amigo de ofício que escreve sob a pena de liev lieb uma descrição bastante negra da nossa relação com a
cadeia natural dos elementos vivos: os vegetais que cultivamos para nosso
consumo, gordas hortaliças que brotam o ano inteiro (parecem desconhecer o
ciclo solar) com suas estranhas formas e preenchimentos, cores extravagantes e
texturas semiplásticas, envoltórios orgânicos onde os montes de adubo petroquímico
depositam em ritmo fabril amido e vitaminas de valor exclusivo para seus
artífices, resultado da seleção de grotescas e irreconhecíveis propriedades morfofisiológicas
que somente de forma mínima e equilibrada se encontravam nas plantas selvagens,
manifestações visuais e tácteis da deformação dos frutos terrestres pelas mais
obscuras intenções humanas, são objeto a ser abordado pela ficção científica.
Quem busca se alimentar somente dos vegetais da terra, assim, não se exclui da
terrível ruptura com a vida; apesar disso, ainda acredito que a disposição de
espírito de recusar-se a comer carne seja boa, independente de cálculos da
moral.
Cada vez que meu caminho passava
pelo de um outro animal, eu expressava um sentimento de respeitosa apreensão, e
procurava não interferir no ritmo que já estava estabelecido no espaço. As rãs
continuavam preenchendo a floresta de tonalidades agudas, as teias de aranha
continuavam acumulando gotas grossas de umidade, a jiboia continuava seu
desenrolar grosso de linhas e ondas na água escura do rio, do qual eu não me
aproximava, para não se manifestarem em mim os instintos de morte. Não fui ao
rio, mas vi em minha frente uma folha onde pousava uma gota d'água do meu
tamanho. Não pude, então, evitar o conflito de Narciso, a luta dos instintos
mortais contra a vontade de vida diante do espelho aquático, com um resultado indeterminado.
A superfície tensionada da gota fazia um espelho convexo, cuja reflexão me
paralisou a contemplar; não consigo lembrar se na imagem ali formada eu
reconheci a minha própria identidade, ou se era a visão de algo irreal no
anteparo viscoso e material da água que me encantava, ou mesmo se o que eu vi
só se diferenciava do resto da realidade pela perspectiva distorcida;
aproximei-me da esfera resplandecente com um perigoso sentimento de adoração
sagrada, um mesmo sentimento que em uma mente da humanidade civilizada (dotada
de uma realidade mais elaborada do que a projeção do meu contraído cérebro) seria
o de quem vê a si mesmo diante da entrada de uma caverna, no meio dos arbustos
e pedras de uma montanha envolta pelo deserto, após a vocalização de palavras
mágicas e evocativas mover o monstruoso bloco de pedra que a encerrava, e onde
se supõe, pelas histórias contadas segundo a tradição, existir um interminável tesouro
antigo, e com os olhos duros e saturados de fascinação, a garganta demasiado
estreita para que desçam os volumosos goles da cobiça, vê-se do breu sem forma
saltar um tigre. O Livro das Mil e Uma Noites inicia-se com uma evocação do
nome de Deus, a quem se oferecem louvores e se reconhece como única fonte criadora
de tudo que existe e de que se sabe; tal é a forma que tomou, na literatura
islâmica, a inspiração grega pelas Musas que engendrava as narrativas épicas.
Deus algum, porém, seria capaz de inspirar o terror do meu grito. Nos grandes contornos
do orvalho vi descortinarem-se, ao me aproximar, as mandíbulas de um monstro de
olhar vazio. Caí sobre minhas costas após gritar alimentado pelos mais
profundos instintos, mas logo percebi que reluzia nas águas a cabeça de uma
formiga já morta.
Refeito do susto, abandonei a gota
com sua nefasta criatura, segui adiante, e resolvi subir a copa da maior árvore
que podia alcançar. Ganhava altura içando-me pelos braços através das cascas do
gigantesco tronco, e com naturalidade um passo sucedia o outro com firmeza; o
pequeno efeito da gravidade em um corpo tão reduzido provavelmente facilitava a
minha rápida subida. Depois de alguns metros eu já enxergava o tronco sob uma
perspectiva horizontal, como se andasse por uma planície estendida à minha
frente. No final da subida, quando podia sentir os raios solares penetrarem
mais quentes pelas copas, deparei-me com uma formiga; ela também se deteve,
apesar do espaço ao redor, largo o bastante para que ambos seguíssemos sem
interrupção nossos fluxos opostos. Ela parecia me encarar, embora não seja
fisiologicamente claro para mim se olhos com os das formigas são capazes de
fixarem um ponto no espaço, se eu não estaria projetando minhas próprias
categorias perceptivas no animal. Não sei nem mesmo se aquela formiga tinha o
sentido da visão. Ela parou diante de mim, talvez sem saber que o fez. Estava sozinha, e se aquela que percorríamos era
uma trilha vinda de seu ninho, nenhuma de suas irmãs (no caso da colônia ser do
tipo monogínica) a acompanhava. Se me percebeu, decerto considerou-me diferente
de si mesma, o que pode ter sido uma percepção genérica, de opor a percepção
que tinha de mim àquela que tinha de sua própria natureza, individual e ao
mesmo tempo sem subjetividade, porque partilhada com os outros membros da sua
colônia, da sua superindividualidade,
que talvez abarcasse a sua família, o seu ninho, ou até toda a sua espécie, a
depender do modo com que a formiga interpretasse a ausência ou a presença de certos
feromônios. Teria ela uma identidade (portanto uma existência) compartilhada
com as demais formigas, com as outras espécies? Como seriam suas relações, se
elas existem? Klaus Jaffe C. cita que mais de uma aranha obteve lugar nas
coleções entomológicas por ter sido mal identificada com as formigas em meio às
quais vivia. Registram-se também casos de simbiose entre duas espécies de
formiga que coabitam um mesmo ninho (Camponotus
e Crematogaster, por exemplo). Não
obstante, tais associações não são conhecidas em detalhe. A percepção concreta daquela
formiga singular, por outro lado, parece ter superado tais reflexões ontológicas
- embora eu não as tivesse naquele momento, fiquei paralisado até o instante em
que ela rompeu o nosso (o meu) contato visual. Pôs-se em movimento e voltou a
dedicar-se à tarefa de descer, contornando-me.
Depois de um esforço adicional,
finalmente cheguei ao topo da árvore, passando os últimos galhos mais novos e
verdes e enxergando acima da linha da mata. O horizonte era o leito onde um sol
balançava no torvelinho verde do dia, até afogar-se na imensidão de folhas. O
movimento de seus raios denunciava, pela energia, a presença dos outros astros
ocultos no céu. A terra que se estendia abaixo fervia com os fluxos do fogo
através dos corpos soltos pela vegetação. A vida triunfava em todas as lutas,
do broto que se ergue para o céu às garras da harpia (o uiraçu) cravadas no pescoço partido de um bugio vermelho aos
fungos que crescem fermentando o mosto das mortes da floresta. Tudo,
absolutamente tudo isso resultava maravilhoso e sagrado; a espantosa vibração
do menor componente infinitamente multiplicado para formar a grandiosa unidade
do conjunto. Disso eu fazia parte, e sinto como se particularizar o momento
através da linguagem ocasionasse a perda de sua essência, de seu verdadeiro
sentido, presente em meu corpo que mirava a vastidão da terra, e por ela era
nutrido. O que circulava por dentro de si era o mesmo que circulava em todo o
resto. Essa coincidência entre o ser e o todo, que é o Grande Espírito, entendi
como fundamento de uma religião capaz de justificar a verdade tanto da vida da
matéria quanto de sua transcendência. A minha visão tornou-se, por fim, uma
revelação, uma epifania. Nesse ponto despertei.
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