22.8.13

Visão da Ayahuasca n. 1

para Don Juan

            Abri os olhos, e me ofuscaram os claros riscos do sol. Não o via diretamente, mas refletido por um pequeno espelho, através de uma fresta nos tabiques toscamente justapostos que formavam o teto da casa. Nesse reflexo, além da luz desviada do dia, se viam também as grossas folhagens das árvores. Incapaz de mirar diretamente os raios, fechei os olhos novamente, e me virei na cama; o brilho orgânico no céu escuro de minhas pálpebras tornou-se então, em minha mente, uma imagem magnífica, na qual me via entre os galhos intermináveis do lado de fora daquela morada que aparentemente eu visitara buscando uma certa cura do espírito. Com a visão então preenchida pela mata, a massa de sons da natureza seguindo um ritmo ordenado por bumbos e maracás e os cipós a perder-se na distância, só detive os movimentos da cabeça confusa quando encontrei, diante de mim, o sábio Don Juan, com mantos coloridos que o confundiam com as folhas vermelhas de jatobás, amarelas de maçarandubas e verdes como todo o resto do mundo.
            Descobri dias depois, quando refletia a respeito dos elementos simbólicos desta visão, que tais cores não eram comuns nos trajes dos indígenas que viviam em semelhantes florestas tropicais; nelas usam-se, segundo os antropólogos que as estudaram, tangas e saiotes ou cintos que cobrem o sexo feitos de penas de animais, folhas de plantas, entrecascas de árvores, por isso a coloração mais crua, distinta das suas pinturas corporais, que em compensação vibravam de pigmentos do mato, com pasta de urucum, o jenipapo, argila ou até fuligem de panela. Francisco Hernández e o Fray Bernardino de Sahagún, um médico renascentista que embarcou ao Novo Mundo para estudar por sete anos as plantas medicinais conhecidas pelos indígenas e um frade formado em Salamanca e enviado dois anos após sua ordenação para a Nova Espanha (ali se tornando escritor de importantes tratados sobre o continente, até mesmo no idioma Náhua-tl), descreviam as tinturas multicores como parte dos usos dos índios da América Central, "pelo menos os do século XVI", embora, segundo os autores, se possa reconhecer uma antiguidade pelo menos oito séculos maior nos procedimentos de tingimento, na época já utilizados na obtenção do azul-maia das pinturas feitas por Juan Gersón em Tecamachalco, em 1562; alguns anos depois, Francisco Hernández obteve a receita para obter este azul a partir das folhas de anil, planta florífera hoje chamada de Indigofera suffruticosa, que os colonizadores acreditavam ser chamada de matlalli, confundindo-a com o nome dado a certa espécie do gênero Commelina devido a um provável problema no entendimento da língua local. Don Juan era um índio Yaqui, povo falante de uma língua Uto-Asteca, por isso possivelmente compartilhava de traços da cultura descrita pelo fray e pelo médico. Graciela, boliviana de mãe Quechua e pai Aymara que eu conheci no lago Titicaca graças à boa disposição à sociabilidade dos seus filhos Amaru e Amauta, propôs-me a teoria de que os indígenas andinos (eu cuidei de estender o raciocínio aos dos desertos norte-americanos) vestiam-se com cores mais vivas como forma de se contraporem ao espaço geográfico marcado pela aridez visual da poeira, experiência contrária à dos povos neotropicais. Talvez por respeito a Don Juan, também eu usava vestes de colorido estranho à gente da floresta: cobria-me um poncho azul bordeado por construções geométricas brancas e negras que representavam o wanaku e as aves sagradas.
            O brujo nada falava. Tinha os olhos e os lábios encerrados sobre uma flauta de madeira, e soprava uma melodia bastante rudimentar, como o som de insetos ecoando numa cavidade oca. Não saberei descrever a essência dessa música, devido ao fato de ela constar somente nos relatos orais de algumas lideranças religiosas de tribos pouco contatas pela civilização escrita, e por isso ter se perdido em interrompidas correntes de discípulos, e principalmente porque, nos minutos muito longos em que eu a ouvia, entrando em transe profundo, minha percepção se diluiu em um fluxo de pensamentos em redemoinho dentro do vasto aquário da realidade. Roberto Piva escreveu que a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da imaginação, frase que recupera as concepções kantianas da relação entre a mente e o mundo - categorias que, para o prussiano, jamais se acessam de modo claro, senão por condicionantes distorções, como as percebidas por um peixinho dourado que repouse sobre um piano empoeirado em uma imensa e aparentemente (para ele) infinita abóbada de cristal que lhe faz chegar as ampliadas deformações de um quarto acarpetado e escuro, de contornos reorientados pelas leis da refração aquática em vidros côncavos, as quais o sujeito-animal desconhece.    Ao tocar sua música, o xamã foi, sem que eu percebesse como, se transformando em um gigante. A voz da madeira, ao se tornar mais aguda, fê-lo crescer lentamente, até que eu o via dezenas de metros acima de mim. Na verdade, o verdejante escuro por trás dele também crescera; precisei deduzir, ao ver em minha volta folhas secas com pecíolos mais grossos que meus braços, que fui eu a diminuir de tamanho com o feitiço de Don Juan. As raízes que cresciam entre as pedrinhas cor-de-barro que eram partículas de terra, contorcendo-se musculosamente como troncos cortando o céu, erguiam-se altas como catedrais góticas; nas folhas brilhava o sol colorido ressaltando maravilhosos padrões de seus veios, como vitrais cheios de figuras sagradas que o barroco germânico pintou, talvez com o mesmo sentimento expresso um pouco mais tarde na história pelo assombro imensurável de exploradores do continente denso como Von Martius, Humboldt ou Rugendas, descendo em frágeis embarcações de fibras o violento Rio Negro. Dei as costas para o imenso índio e sua melodia, e comecei a abrir meu caminho com dificuldade pelos restos orgânicos do chão de terra.
            A experiência de ser minúsculo na mata não pode ser descrita facilmente com a linguagem da literatura, pois sinto que meu cérebro, em um tamanho diminuído, não era capaz de realizar as operações complexas de que dependem a intelecção da escrita e da leitura, como a concepção de signos e a própria racionalidade, os juízos; naquele momento, minha consciência estava reduzida a uma primitiva forma de percepção que mal distinguia as informações sensoriais umas das outras. O mundo ao redor me chegava em um único e colossal estímulo, mistura indistinta de manifestações visuais, reverberação de sons distantes e cheiros ora atraentes, ora amedrontadores. Assim, o que há de digressão e de interpretação no presente relato resulta de um processo posterior de organização do pensamento, passível de contaminação racional.
            Eu corria, talvez gritasse a plenos pulmões, até que a falta de fôlego me detivesse, e então parava escondido sob a sombra de alguma cobertura feita das bases emaranhadas das árvores, recuperava o ar e então voltava a correr com todas as minhas forças, sem me preocupar em dispender energia com movimentos eficientes de fuga, provavelmente cobrindo, nessas sucessivas carreiras, uma área muito pequena para os padrões espaciais de um ser humano. Estranhamente, eu sentia uma certa forma de gratificação mental ao movimentar meu corpo dessa maneira impulsiva, como se tivesse prazer pelo simples fato de correr, gritar e debater-me, de existir fisicamente com intensidade. Mesmo a diferenciação entre mente e corpo fazia pouco sentido. A minha existência, ali, coincidia exatamente com a extensão de meus membros no espaço, e o fato de estar vivo era o mesmo que ser um corpo, o que não é o mesmo que pensar ter um corpo, ao contrário da crença de Descartes numa casca vazia e inanimada que abriga uma insatisfeita consciência, ansiando não ter substância e esvanecer no éter. Fui-me preenchendo de algo como uma sensação de completude, de alegria, de desejo pelo continuar em movimento. Essa satisfação primordial era interrompida por breves intervalos de terror, quando algum som ou algum movimento entre as folhagens sugeria a presença de outros seres, e então eu parava arregalando os olhos e as narinas em todas as direções suspeitas, ou instantaneamente buscava abrigo na cavidade mais próxima.
            Logo (não sei dizer depois de quanto tempo, afinal era-me estranho o conceito de temporalidade tal qual o concebemos - simultaneidade ou sucessão progressiva dos fenômenos) cruzei o caminho de outro animal. O primeiro contato foi com uma criatura verde, três vezes mais alta do que eu ao se apoiar nas patas traseiras, e globos oculares maiores do que minha cabeça, fascinantes justaposições de hexágonos cristalinos refletindo, com um brilho iridescente, a minha expressão de medo e encantamento. Pela quantidade de membros articulados, descobri que era um inseto; pelas garras despontando do tórax, que era um louva-a-deus. O olhar que me lançava, e que lançava inevitavelmente para toda a circunferência do espaço, lembrou imediatamente o de um predador. Eu o sabia, e no entanto não era possível escapar; estava como que hipnotizado por ele. O louva-a-deus, porém, abriu as asas transparentes que surgiram do manto verde-folha e voou em outra direção. Despertei imediatamente do sonho em que me perdera (o qual, futuramente, deve ser a inspiração para um conto fantástico: em um tempo já esquecido, a visão assombrosa dos olhos dos tigres por homens vulneráveis seria, nesta história ficcional e absurda, o motivo criador da primeira forma de linguagem na história humana), e voltei a correr sem caminho.
            Certamente, a sensação de estar em tamanha desvantagem na luta pela sobrevivência, de representar um elo mais fraco da teia de relações alimentares, e de ter vislumbrado, na minha morte, a vitória da vida dos outros, produziu-me ainda mais respeito pela natureza, com particular atenção a todos os seres sencientes; eu já havia prometido não comer nenhum dos demais animais, e que não viveria da morte de meus irmãos sem que pudesse prestar-lhes os devidos tributos de agradecimento, mais importantes que as preces de perdão lamurioso pela culpa de um sacrifício. A morte que renasce em outro corpo é um ato profundamente simbólico, que a vida das cidades ignora grosseiramente, e nelas se apartam os seres humanos da natureza, assim como se aparta sua consciência particular da consciência do todo. Essa separação não se manifesta somente no gesto cultural de devorarem-se, sem ter clareza do sentido do ato, as fibras musculares, os diversos tecidos, as vísceras e o sangue de uma série de espécies animais após expô-las à ardência das brasas. Recordo-me de meu amigo de ofício que escreve sob a pena de liev lieb uma descrição bastante negra da nossa relação com a cadeia natural dos elementos vivos: os vegetais que cultivamos para nosso consumo, gordas hortaliças que brotam o ano inteiro (parecem desconhecer o ciclo solar) com suas estranhas formas e preenchimentos, cores extravagantes e texturas semiplásticas, envoltórios orgânicos onde os montes de adubo petroquímico depositam em ritmo fabril amido e vitaminas de valor exclusivo para seus artífices, resultado da seleção de grotescas e irreconhecíveis propriedades morfofisiológicas que somente de forma mínima e equilibrada se encontravam nas plantas selvagens, manifestações visuais e tácteis da deformação dos frutos terrestres pelas mais obscuras intenções humanas, são objeto a ser abordado pela ficção científica. Quem busca se alimentar somente dos vegetais da terra, assim, não se exclui da terrível ruptura com a vida; apesar disso, ainda acredito que a disposição de espírito de recusar-se a comer carne seja boa, independente de cálculos da moral.
            Cada vez que meu caminho passava pelo de um outro animal, eu expressava um sentimento de respeitosa apreensão, e procurava não interferir no ritmo que já estava estabelecido no espaço. As rãs continuavam preenchendo a floresta de tonalidades agudas, as teias de aranha continuavam acumulando gotas grossas de umidade, a jiboia continuava seu desenrolar grosso de linhas e ondas na água escura do rio, do qual eu não me aproximava, para não se manifestarem em mim os instintos de morte. Não fui ao rio, mas vi em minha frente uma folha onde pousava uma gota d'água do meu tamanho. Não pude, então, evitar o conflito de Narciso, a luta dos instintos mortais contra a vontade de vida diante do espelho aquático, com um resultado indeterminado. A superfície tensionada da gota fazia um espelho convexo, cuja reflexão me paralisou a contemplar; não consigo lembrar se na imagem ali formada eu reconheci a minha própria identidade, ou se era a visão de algo irreal no anteparo viscoso e material da água que me encantava, ou mesmo se o que eu vi só se diferenciava do resto da realidade pela perspectiva distorcida; aproximei-me da esfera resplandecente com um perigoso sentimento de adoração sagrada, um mesmo sentimento que em uma mente da humanidade civilizada (dotada de uma realidade mais elaborada do que a projeção do meu contraído cérebro) seria o de quem vê a si mesmo diante da entrada de uma caverna, no meio dos arbustos e pedras de uma montanha envolta pelo deserto, após a vocalização de palavras mágicas e evocativas mover o monstruoso bloco de pedra que a encerrava, e onde se supõe, pelas histórias contadas segundo a tradição, existir um interminável tesouro antigo, e com os olhos duros e saturados de fascinação, a garganta demasiado estreita para que desçam os volumosos goles da cobiça, vê-se do breu sem forma saltar um tigre. O Livro das Mil e Uma Noites inicia-se com uma evocação do nome de Deus, a quem se oferecem louvores e se reconhece como única fonte criadora de tudo que existe e de que se sabe; tal é a forma que tomou, na literatura islâmica, a inspiração grega pelas Musas que engendrava as narrativas épicas. Deus algum, porém, seria capaz de inspirar o terror do meu grito. Nos grandes contornos do orvalho vi descortinarem-se, ao me aproximar, as mandíbulas de um monstro de olhar vazio. Caí sobre minhas costas após gritar alimentado pelos mais profundos instintos, mas logo percebi que reluzia nas águas a cabeça de uma formiga já morta.
            Refeito do susto, abandonei a gota com sua nefasta criatura, segui adiante, e resolvi subir a copa da maior árvore que podia alcançar. Ganhava altura içando-me pelos braços através das cascas do gigantesco tronco, e com naturalidade um passo sucedia o outro com firmeza; o pequeno efeito da gravidade em um corpo tão reduzido provavelmente facilitava a minha rápida subida. Depois de alguns metros eu já enxergava o tronco sob uma perspectiva horizontal, como se andasse por uma planície estendida à minha frente. No final da subida, quando podia sentir os raios solares penetrarem mais quentes pelas copas, deparei-me com uma formiga; ela também se deteve, apesar do espaço ao redor, largo o bastante para que ambos seguíssemos sem interrupção nossos fluxos opostos. Ela parecia me encarar, embora não seja fisiologicamente claro para mim se olhos com os das formigas são capazes de fixarem um ponto no espaço, se eu não estaria projetando minhas próprias categorias perceptivas no animal. Não sei nem mesmo se aquela formiga tinha o sentido da visão. Ela parou diante de mim, talvez sem saber que o fez. Estava sozinha, e se aquela que percorríamos era uma trilha vinda de seu ninho, nenhuma de suas irmãs (no caso da colônia ser do tipo monogínica) a acompanhava. Se me percebeu, decerto considerou-me diferente de si mesma, o que pode ter sido uma percepção genérica, de opor a percepção que tinha de mim àquela que tinha de sua própria natureza, individual e ao mesmo tempo sem subjetividade, porque partilhada com os outros membros da sua colônia, da sua superindividualidade, que talvez abarcasse a sua família, o seu ninho, ou até toda a sua espécie, a depender do modo com que a formiga interpretasse a ausência ou a presença de certos feromônios. Teria ela uma identidade (portanto uma existência) compartilhada com as demais formigas, com as outras espécies? Como seriam suas relações, se elas existem? Klaus Jaffe C. cita que mais de uma aranha obteve lugar nas coleções entomológicas por ter sido mal identificada com as formigas em meio às quais vivia. Registram-se também casos de simbiose entre duas espécies de formiga que coabitam um mesmo ninho (Camponotus e Crematogaster, por exemplo). Não obstante, tais associações não são conhecidas em detalhe. A percepção concreta daquela formiga singular, por outro lado, parece ter superado tais reflexões ontológicas - embora eu não as tivesse naquele momento, fiquei paralisado até o instante em que ela rompeu o nosso (o meu) contato visual. Pôs-se em movimento e voltou a dedicar-se à tarefa de descer, contornando-me.

            Depois de um esforço adicional, finalmente cheguei ao topo da árvore, passando os últimos galhos mais novos e verdes e enxergando acima da linha da mata. O horizonte era o leito onde um sol balançava no torvelinho verde do dia, até afogar-se na imensidão de folhas. O movimento de seus raios denunciava, pela energia, a presença dos outros astros ocultos no céu. A terra que se estendia abaixo fervia com os fluxos do fogo através dos corpos soltos pela vegetação. A vida triunfava em todas as lutas, do broto que se ergue para o céu às garras da harpia (o uiraçu) cravadas no pescoço partido de um bugio vermelho aos fungos que crescem fermentando o mosto das mortes da floresta. Tudo, absolutamente tudo isso resultava maravilhoso e sagrado; a espantosa vibração do menor componente infinitamente multiplicado para formar a grandiosa unidade do conjunto. Disso eu fazia parte, e sinto como se particularizar o momento através da linguagem ocasionasse a perda de sua essência, de seu verdadeiro sentido, presente em meu corpo que mirava a vastidão da terra, e por ela era nutrido. O que circulava por dentro de si era o mesmo que circulava em todo o resto. Essa coincidência entre o ser e o todo, que é o Grande Espírito, entendi como fundamento de uma religião capaz de justificar a verdade tanto da vida da matéria quanto de sua transcendência. A minha visão tornou-se, por fim, uma revelação, uma epifania. Nesse ponto despertei.

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