Eu
falava sobre a “hora de dormir”, sobre o fato de existir uma “hora de dormir”
e, por incrível que pareça, os olhares dos presentes concentravam-se em mim
(também os ouvidos?), e eis aí algo que me impressiona demasiado, pois era já
tarde, passáramos muito da “hora de dormir”, a cidade ao fundo cochilava entre
um carro e outro perdido na noite, entre uma lufada e outra de persistentes
vozes notívagas que chegavam até nós, distantes, e, claro, eu me perguntava
(como já me perguntei em tantas outras ocasiões) qual força impulsiona as
pessoas a prestarem atenção umas nas outras nos finais de noites de boêmia,
quando dormir apresenta-se como tarefa iminente. Mas eram pensamentos vagos que
eu vocalizava em palavras, logo perderam força, e então D nos contou uma boa
anedota de como sua ex-mulher lhe cantava uma canção de Mercedes Sosa quando
deitavam-se juntos todas as noites, uma canção quase de ninar que tentou
reproduzir com seus pulmões em direção a nós com um esmero que não era o da
bela tonalidade de sua voz, mas sim o esmero de sua lembrança por trás da letra
e da melodia, a metamorfose das palavras de Sosa nas palavras da ex-mulher de
D, a bela ex-mulher de D, e depois nas palavras de D propriamente dito, e a
canção seguia assim, como se transitando entre outrora e agora, entre as vozes
femininas e a masculina, colocando-nos num pedestal de onde podíamos ver toda a
fuga dos tempos:
Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el
campo, negrito
Duerme, duerme, mobila
Que tu mama está en el
campo, mobila
Te va a traer codornices
Para ti
Te va a traer rica fruta
Para ti
Te va a traer carne de
cerdo
Para ti
Te va a traer muchas cosas
Para ti
Y si el negro no se duerme
Viene el diablo Blanco
Y zas le come la patita
Chacapumba, chacapumba,
apumba, chacapumba.
Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el
campo, negrito
Trabajando duramente,
trabajando sí
Trabajando e va de luto,
trabajando sí
Trabajando e no le pagan,
trabajando sí
Trabajando e va tosiendo,
trabajando sí
Para el negrito, chiquitito
Para el negrito sí
Trabajando sí, trabajando
sí
Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el
campo
Negrito, negrito, negrito.
e
enquanto D cantava, todos nós sorvíamos com gula os líquidos em nossos copos,
mesclando o sabor da bebida com a lembrança que o ar nos trazia pelo intermédio
de nosso amigo, e a imagem que me cegou naquele instante, mesmo depois de
encerrada a interpretação da canção, era a de D e sua ex-mulher deitados sob
uma colcha colorida, e a ex-mulher de D acariciando seus crespos cabelos como
se acariciasse com uma mão gigante um largo campo de trigo sob sol, e me
emocionou que era isso que faziam antes do “se recolher” para o sono, talvez
logo após fazerem amor recheados de carícias e volúpias e cuidados e embates
duradouros entre si (enfrentando assim a dureza das horas mortas que encaramos
durante os dias, como a “mama” da canção), e na sequência dessa entrega, desse
lirismo corporal, em lugar de acenderem cigarros ou comentarem a disposição e a
performance de cada um e a qualidade do ato recém-ocorrido, D devia
simplesmente encostar sua cabeça nos seios ainda quentes de sua ex-mulher, e
ali ouvia a fresca canção e era consumido pelo cansaço e pela cama cheirando a
cansaço e a noites de potentes ímãs negros.
Eu me perdia nessa convulsão
imagética, nessa cegueira amorosa, quando me dei conta de que M seguia e
sustentava o curso de nossa aventura boêmia revelando que caso tivesse um filho
algum dia, a leitura que faria antes de niná-lo em seu colo todas as noites
seria a do trecho inicial de “No Caminho de Swann”, de Proust, para acostumar a
criança à doçura real da vida, esta que se chama memória, recordação,
lembrança, reminiscência, retorno, o sumo do que é ser humano é lembrar-se,
disse a nós, e quero que meu filho saiba disso desde bebê, então A interveio
após exclamações gerais de afeto e disse que não pensava em leituras para seus
filhos pois não pretendia ter filhos, mas que pretendia, sim, colocar em
prática um plano de alimentar seus sonhos lendo todos os dias, antes de dormir,
“Os Cantos de Maldoror”, de Lautréamont, e confabulava sobre como isso poderia
interferir de forma magistral em seus trajetos oníricos. Neste segundo foi que
me lembrei (concordo com M, lembrar é o que nós, humanos, fazemos, lembramos e
contamos e recontamos) daquela anedota que li em um livro sobre a história do
surrealismo de que o poeta Phillipe Soupault descobrira um cópia dos “Cantos de
Maldoror” na seção de matemática de uma pequena livraria parisiense, próxima ao
hospital militar onde estava internado durante a guerra, talvez na mesma época
em que morreu Apollinaire (mas disso não sei), e me inclinei a compartilhar
esta pequena reminiscência com meus queridos camaradas de noite, me seduziu a
ideia, mas me contive, pois às vezes tenho a impressão de que prezo tanto pela
síntese em meus relatos que ao fim deles não sobra nada mais a ser dito ou
acrescentado, não pela qualidade do conteúdo ou da forma do que falo, mas por
eu talvez ser o encarregado natural do acaso pelo encerramento de pequenos ciclos
de conversas, algo como um escultor do silêncio que está por vir, então guardei
para mim este pedacinho vibrante e reminiscente de minha mente para evitar o
silêncio (mais tarde, horas ou dias, com certeza o contaria à L, à minha bonita
L que agora encostava seus dedos macios em meu confuso couro cabeludo), e logo
percebi que alguns dos presentes se dirigiam ao cômodo contíguo e alguém ligava
a televisão, G pegou o controle remoto e começou a trafegar pelos canais na
busca por qualquer coisa que talvez lhe trouxesse o cansaço, e instintivamente
todos mudaram de cômodo para fazer o mesmo (pelo menos era esse o meu objetivo
quando o fiz), o dedo de G parou de apertar o botão do controle quando
encontrou um canal no qual passava um filme pornô de aparência bem antiga, e
então todos ficaram eriçados e o ar recheou-se de comentários sobre a
performance na tela. Sentamo-nos, no chão ou no pequeno sofá, e ouvimos em
sintonia o que dizia o ator do filme enquanto passava a mão pelos seios da
mulher nua ao seu lado, dizia que um corpo daquele era como um mapa-múndi e que
as partes salientes eram como continentes, e que seu papel naquela noite era
ser algo como um descobridor dos sete mares, então imediatamente todos nós
rimos juntos uma massa de alegria e descaso e pureza compartilhados (painel do
espírito de mais uma de tantas daquelas noites daquela época), mas voltamos a
assistir o filme, com seriedade, e por um tempo que não sei determinar houve
silêncio e dois dos casais presentes começaram a se beijar mais com carinho do
que com volúpia, e era como se o sono tivesse entrado repentinamente na sala
vindo da distante cidade lá no fundo da janela e pairasse sobre nós, pois um a
um os pares de nossos olhos foram se fechando e os corpos se ajeitando como
podiam, apoiando-se uns nos outros, nas saliências e na maciez e no carinho
para com o outro de cada um, cedendo à branda fadiga, eu me apoiei em L e em
mais alguém, em mais alguéns, pensando na glória de nossos jovens corpos
unidos, e a última sensação que tive naquela noite já madrugada já quase dia
foi a de que dormiríamos todos conectados e concretos, com um ou outro
espacinho aqui e ali entre nós, como se formássemos um mapa-múndi de sono e de
ternura.
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