Ele vai até o orelhão na esquina. Precisa falar com o irmão do Duda, precisa falar com o irmão do Duda, pois ele não tem vindo. No caminho, o mesmo casario fronteiro, as mesmas poucas lojas, a praça engalanada nesse tempo sem memória que é. A própria janela que é só de madeira, sem. A vista da própria casa como um animal pequenino que se pudesse aninhar.
Precisa falar com o irmão do Duda. Fazer uma fézinha. Discar e botar fé
que do outro lado estará a voz do irmão que ignora o codinome do Duda.
- Alô –
faz, incrédulo.
-
Alô – é o
eco da própria voz.
-
Alô
…
-
Porra,
minha memória já não vai além do dia que você me trouxe... de carro.
-
Alô...
ah! É você?
-
Sim. Sim
sou.
-
Cuidado
com esses nervos.
-
Quando
você vem?
…
-
Tem tempo
já que não vem.
-
Te
acalma. Quando tiver novidade para contar eu apareço. Lhe falta alguma coisa?
-
Eu queria
fazer uns consertos, trocar umas coisas quebradas, repor umas coisas sem
serventia.
-
Cuidado
com esses nervos. O dinheiro vai continuar chegando, mas tá sem novidade. Isso,
por enquanto.
-
Quando
você vem?
-
Tá
difícil. Tá um puta de um enrosco.
-
É assim
tão difícil?
-
Semana
que vem peço pra eles mandarem mais dinheiro. Cuidado com os nervos... Continua
sem novidade. Tchau.
-
Alô – é o
eco da própria voz.
-
Porra
Um fastio do tamanho do estômago, pensamentos desencontrados de um. A
boca do estômago revirada e ele como que afásico. Ao menos lembrei de falar que
preciso de dinheiro para colocar um pouco de ordem naquela casa.
-
Tchau.
A lotérica fica bem perto do orelhão e ele agora leva sempre no bolso,
anotados, os números com os quais sonhou. Daria para fugir com o dinheiro do
prêmio. Daria para consertar a janela, trocar os móveis, mandar refazer o
estofado do sofá e das poltronas, comprar um relógio de parede novo. Comprar
muitas latas de comida de gato. Pagar alguém para limpar as latas de comida de
gato estragada. Os dias não mais quedariam esbatidos, os dias se infundiriam
com um novo ânimo. Uma fézinha
e daria para fugir da polícia, fugir deles. Nunca mais ligaria para o
irmão do Duda, nunca mais ligaria para o novo contato. A praça até restaria.
Quando ele abrisse a janela e visse. Não abriria mais a janela. Nem veria nunca
mais aquela luz coada, densa, cheia de treva. Nem os entrevados seus vizinhos.
Nem o gosto travoso de saber que só o findar da noite e o amanhecer lhe trariam
a chance de abrir a janela, solitariamente, contrito, e ver mais uma vez a
praça e o casario fronteiro.
O lento aproximar-se da janela, certo e grave do rito. A janela algo mais
empoeirada ou algo mais carcomida. Quieta diante do dia lá fora, como se sem
emoção alguma por separar o lado de cá do lado de lá do mundo das coisas.
Membrana que sustentava todo o resto de sentido de sua existência. Não uma
fronteira, mas o Fiat Lux irmão do Verbo ainda inexpresso na eternidade.
(trecho de um romance ainda sendo escrito)
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