6.2.13

gongo –
o adormecer em 3 atos


para minhas avós, 
que me ajudavam a 
dormir

“Longtemps,
je me suis couché
de bonne heure.”
 - Marcel Proust 


I – piscar

deitado, vejo uma estrela escondendo-se atrás de um prédio. natureza que pisca como eu pisco. fecho a janela. negrume fresco vem, como tinta de um pintor andaluz. mas teimo em me afogar no resquício do azul de Miró, azulado teto de meu quarto que a noite povoa ao entrar. não haveria de ser negro? deve ser por conta das lâmpadas lá de fora, brancas lâmpadas da rua, paródias do sol que irradiam dia pela penumbra. e as doces trevas vão sendo ensanguentadas com o sangue anil dos antigos nobres, em forma de luz. desatino com Morfeu. pois tenho dormido como quem conta os segundos. afogado sempre no teto, ou melhor, no que traz ele com suas pigmentadas ondas de recordações, arco romano da lembrança. tenho dormido como um cronômetro suíço: tictacando sem dó, sem silêncio absoluto, pensamento pós outro. minha mente: cavalos acelerados independentes dos membros. assim o é durante o dia também. é que pela noite seria de se esperar que os cavalos ansiassem por palha, água e repouso. mas galopam mesmo assim, e até mais fervorosos, como vislumbrando um riacho numa película de Western.
fico assim meio craquelado no ser, pintura de casa velha. com sono, porém com trono. pois minhas memórias que do mar de teto emergem me fazem rei, brotando tantinho por tantinho como meu próprio reino reconquistado. império meu: minha vida de calças curtas, de pernas finas. minha vida de doçuras mais amargas que o alcaçuz. rebrota, refazenda. gabinetes que se abrem. floras revistas. brilhantes reparidos. recordar, motor que não me deixa, que não me deixa dormir. o sono como gongo impossível, ao final de uma escadaria chinesa. hei de batalhar para batê-lo, para soá-lo, para sê-lo.
vislumbro-o agora em totalidade. de contornos atingíveis, tangíveis. mas pulsa, se afasta, se aproxima. ocupa toda a extensão do teto, aos poucos metamorfoseado. e o mar ficando para trás.
meu reino, agora, ao pé dos olhos. reconstrução. reminiscências servis, trabalhando o cultivo de meu modesto feudinho na terra imensa. escape, refúgio cercado de fosso. vida própria no próprio rever. nem durmo, mas nem movo-me: dissolvo-me.
hoje carrego, por rarefeitos segundos, o caixão de minha avó. faz 10 anos já. mas carrego hoje, como carreguei outrora. vivejo seu corpo inerte imerso num branco lençol. penso em Rulfo, penso nos mortos que transitam ainda. minha avó correndo para perto de meu avô, num obscuro distante. sua luz tomba pequenina em crochês de estrelas diários. vejo-a na madrugada que faz ao meu lado. o princípio. atrevimento sucinto, árido desposicionamento corpo afora. flores no vaso ali em minha mesa, secando como vida. sinto-as estreitando, sem ao menos vê-las. os olhos já reféns das pétalas das pálpebras. duas luzes irmãs no funil da escuridão. uma num ponto mais alto que a outra, uma amarela, outra vermelha, duas luzes imóveis e cintilantes nas pontas do mastro da noite, enquanto o silêncio dos postes é devorador. meu reino, meus cavalos, meus poços, minhas colheitas: tudo em disfarce de trajeto meu. presença gigantesca em minha consciência, de dedos grossos mas suaves ao toque, mesmo que ríspidos pelas enxadas de violentos cabos pelo mundo. sinto-me irmão, parelho a mim mesmo. criador de mim mesmo. em meus resultados meu processo diário. todos os homens em mim, que fui e que quis, como brasa minguante. e a noite se alastra grande, com ecos transeuntes, fresco madrigal no intervalo do sol. deitado. preenchendo-me é que esvazio-me. meia escadaria cumprida. arrozais no caminho da subida. gongo abrindo-se, como um ditongo. da rua escuto constantes partidas e passagens de seres humanos.
há um silvo das ruas de paralelepípedo, vistas de um antigo alpendre de pedra fria e lavada. como cores de uma paisagem campestre russa. uma montanha se eleva, acima dos cílios. no traçado da montanha, querendo o sol, curvas que voltam, agora, como o contato primeiro com a malícia. sinuosa nudez, mais tarde entendida. também nudez de pequenos degraus das escadas de casas, com telhados que se abrem no horizonte dos olhos. há um apito grave de hora de almoço, saltando da fábrica de cerâmica. a massa que eu vislumbro de homens de macacão sentados no meio-fio, fumando. e o lastro rigoroso do mar do teto diluindo-se em creme de bolo, que ressoa em odor vindo da cozinha com santos pelas paredes. e as luzes, as luzes do alpendre noturno ali estão, brilhando embora apagadas. pela janela, o rufar de quietos tambores feitos de eventuais passantes. a cabeleira branca, branquinha. uma pele de papel, um felpudo suéter cor de café com leite. sabor de brisa ensolarada, num espaço sem espaço, de calor com uma camada de tinta de partículas visíveis somente à ligeireza que o corpo ganha. uma voz, voz de doce de leite esfarelado ganhando contornos ao pé da boca. colo quente sob a cabeça do então pequeno príncipe (agora pleno rei), que vai dormindo em seu castelo de paredes brancas e janelas de madeira com caixilhos pintados de azul, como o do já distante teto. velho piano que ganha os dedos distantes. sino longínquo sobre o aparador, que canta nas mãos da negra na hora do almoço. tudo numa voz só, a vó(z) que conta e reconta, na beira da cama. eis o apogeu, a maturidade de um reinado fundado sobre a recordação.
estatelado, ouço um clamor. noite já alta. estou prestes a fazer o gongo soar.

II – chuva

minhas pestanas, momentaneamente corridas para cima como as cortinas de um palco, puxadas pelos fios das orelhas (responsáveis maiores pelo despertar) em decorrência de um vento cheio de gotas frias cavando o muro súbito das venezianas e assobiando como o trem da ausência no espaço entre os prédios vizinhos ao meu, minhas pestanas que, não totalmente cientes de sua recomposição passageira como filtros identitários do meu próprio ser em vigília, recebem agora a fina luz de gelo patagônico trazida pelas cinzas da decadente noite que se insinua, por enquanto sem ônibus nem pernas, apenas respiro molhado e ventoso, enquanto jogam para dentro um novo primeiro contato com o já conhecido e desbravado cotidianamente ao se circular pelo quarto que guarda nossos livros, suores e sossegos, ou nossos reinos inacabados, como este há pouco recortado e que me joga quase instintivamente a mover o punho e abrir a janela, respirar o lá fora, tomar na pele do rosto salpicos frios da estranha chuva que cai, solitária em seu conjunto, como o bater de teclas num escritório qualquer. e então pensar que a humanidade e seus séculos de resistência ao
infindável tempo cabem todos em um soar de botas numa estrada de mato alto dentro de meu feudo, ou no fino suspiro das páginas do livro favorito sendo consumido incertamente como o chá de todas as manhãs, toda essa história condensada, insignificante e pequena perto de uma força de desigualdades máximas que pacifica a translação indiferente do universo, contínua, apagando registros nesse interlúdio de pálpebras que se abrem pela força maior do eco do vento e da chuva lá fora nas cavernas de meus ouvidos, e que, logo em seguida, novamente se fecham, a buscar uma vez mais o ressôo do gongo.

III – resgate

tenho dormido como quem conta os segundos. mas não por conta da memória. se é de alguém, é justo da memória que o sono brota, o pouco sono que ainda tenho, vez ou outra interpelado pela chuva. no refluxo, na locomotiva da recordação, o fechar de pálpebras vai se isentando do cronômetro. ao fim dos trilhos, o homem, rei de si, revê-se como corpo, resgatado enfim do branco mar de teto, senhor de seu palácio de glória, de seu governo, de seu repouso. senhor do gongo a soar. 

Um comentário:

  1. "mas teimo em me afogar no resquício do azul de Miró, azulado teto de meu quarto que a noite povoa ao entrar."
    como eu gosto do seu teto de céu de noite.

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