Era
mais ou menos começo de janeiro em 2013 quando eu percebi que caminhava a
passos largos em direção à loucura. A sensação não era verdadeiramente nova; já
podia ver alucinações das últimas noites se arrastando para o dia, durando mais
do que o sono, e a consciência, perdida em meio às fumaças de cigarro e nuvens
se formando na mente para criar o meu escuro retiro espiritual, se assentava como louca mais confortável sobre meus ombros do que a razão habitual. Mas a descoberta
veio mesmo quando Ana denunciou, e me flagrei vivendo em meio a representações,
trocando homens por signos, pensando o mundo e todas as minhas relações por
personagens inconsequentemente geridos por cineastas irracionais e poetas
bêbados. Vejo que, mais do que um sintoma, esse é o passo definitivo rumo à perda
da razão, essa substituição do mundo das coisas, do mundo dos homens, pelo
mundo dos símbolos, das formas mentais, das sombras e demais imagens da
inconsciência: o próximo passo era falar feito um desses loucos, contando
histórias fantasiosas no lugar de fatos, dramatizando metáforas por
incapacidade de comunicação. E assim eu encarei o rosto do camarada Baudelaire,
o seu resto, os pontos de luz emergindo dos olhos que deixavam entrever os
últimos lampejos de sanidade brilhando em sua mente consumida pelo ópio e há
muito imersa em seus paraísos artificiais, e o poeta era como o meu reflexo: a
minha cabeça que está ficando calva, cada vez menos fios de cabelo, o mesmo
olhar fixo, a audácia e a inconsequência, a mesma loucura, e ele dizia: bem-vindo,
camarada, à minha mente.
E
tendo descoberto que meu estado para logo é a insanidade, comecei, enquanto
ainda tenho a mente sã, a planejar meu futuro como louco. Qual é, afinal, a
alternativa? Posso mentir para todos sempre, e encontrar uma mulher comum, até
o dia quando eu a enlouqueceria; ou, sem os cuidados prévios e planejamento,
chegarei ao ponto de me perder em vida, como um andarilho de rua vagando pela
cidade, gritando frases sem sentido, interrompendo o trânsito, com uma matilha
de cachorros, meus únicos ouvintes, ou me despindo em público, sem nenhum
respeito pela lei. Como nenhuma dessas alternativas me soa agradável, é melhor
empregar os ainda frequentes momentos de lucidez para planejar uma loucura agradável.
Primeiro pensei que enfim era o momento de realizar aquele avesso do sonho
americano, me encerrar em um trailer perdido na estrada, no interior de alguma
parte ao Sul dos Estados Unidos, mas o risco de morte por crocodilos e doenças
venéreas me dissuadiram da ideia. Poderia ser o mesmo trailer, mas no deserto,
se a possibilidade de cobras e insolação não me desagradasse. Ainda como
americano, cogitei uma cabaninha em uma minúscula town de madeira, para viver isolado, em Oregon, no Alaska, ou no
Canadá. Enfrentaria os invernos frios com bourbon
e Jorge Luis Borges, mas os meus braços fracos e o meu sangue inadequado para a
vida de lumberjack me fizeram
desistir mais uma vez, pois a verdade é que é pedir demais de um louco que zele
por sua integridade física. Há muito falei dos espaços frios da Patagônia, uma
pequena casa sozinha perto de uma vila no deserto, para encerrar meus livros e
minha consciência. Somente cartas para alguns amigos queridos fariam a
comunicação entre uma mente cerrada e o resto do mundo, e talvez alguns
escritos sobrassem contando meus pesadelos, quem os encontraria? Na Argentina, vinhos
levariam o resto de minha razão pelo ralo, e a idade me alcançaria bem depois
de o espírito ter abandonado o corpo. Considerar o problema levou a outros
detalhes importantes do exílio voluntário: tenho direito a música? Quantos
livros levar, e quais seriam? Se levasse mil deles, teria algo como um livro
único por semana, se vivesse mais uns vinte anos, estoque aparentemente razoável,
já que depois de passar por tantos livros a experiência de um já lido deve ser
tornar algo bastante novo, e provavelmente, no estado de loucura, toda
experiência deve parecer nova, fora do normal, se não for absolutamente sempre
estranha. Reunir os mil livros para minha loucura deve ser uma tarefa a
empreender, também, dentro em breve, mas ainda falta o mais decisivo, o
componente geográfico. Veio bem cedo, nesse planejamento, a ideia de me exilar
em uma ilha, de pouca ocupação demográfica, e parece mesmo a que mais me agrada
o cérebro consciente. Primeiro, vi Tristan da Cunha, um território britânico
perdido no meio do Atlântico Sul, a dois mil e oitocentos quilômetros da África
do Sul e a um pouco mais da América, onde fica o pequeno assentamento de
Edimburgo dos Sete Mares, de duzentos e oitenta habitantes, a povoação humana
mais isolada do mundo. O título de lugar remoto me atraiu a atenção, mas a ilha
não admite novos moradores, independente de seu status de consciência; são
todos camponeses que cultivam a própria terra. Além do trabalho braçal, e do
impedimento diplomático, também o clima oceânico, de temperaturas moderadas, me
fez desistir deste destino. Não me agrada muito a ideia de um refúgio tropical para acabar os meus dias,
como a Polinésia foi para Gauguin, ou a Ilha de Moçambique para o desobediente
Tomás Antônio Gonzaga. O calor preguiçoso e os ventos tranquilos soprando do
mar me parecem muito mais uma forma de curar minha loucura do que de cultivar
os seus frutos curiosos, e com isso desisti também, um a um, da Nova Caledônia,
no Pacífico, de Santa Lúcia, no Caribe, da República africana de Seychelles, e
das Cíclades, e de Lesbos, no Mediterrâneo. O que quero é que, quando a loucura
finalmente me render, me terá encontrado em uma ilha gelada, flutuando na névoa
em meio ao mar escuro, numa casa sem cerca, envolto por livros e talvez alguns
companheiros felinos que fizessem nada sobrar dos meus restos frios, e onde um
eventual visitante, curioso pela longa inatividade do lugar onde se conhecia um
estranho estrangeiro de barba muito longa, e cabelos bagunçados, mentalmente inacessível
até para aqueles que o encaravam frente a frente para tentar dialogar,
encontrasse só rascunhos ilegíveis cobertos de senilidades terrivelmente vazias
de sentido. Pela necessidade de que se saiba de minha morte, a vida das pequena
comunidades parece mais adequada do que o isolamento de ermitão, que de todo
modo já estarei vivendo nas profundidades da mente; também conto com as
facilidades que o contato com outros seres humanos oferece no sentido de manter
a existência, alimentar-se graças a ocasionais gestos solidários de vizinhos,
mais recorrentes na pequena vila do que na impessoalidade dos centros urbanos;
e buscando uma vida remota nos limites temperados do mundo, descartei os
excessivos trezentos mil habitantes da Islândia, os oitenta mil da Ilha de Man,
os cinquenta mil das Ilhas Faroé. Atualmente estou dividido entre as ilhas
Falkland, com seus dois mil oitocentos e quarenta habitantes e temperatura
média anual de quatro graus Celsius, e os territórios de Saint-Pierre-et-Miquelon,
na costa norte-atlântica do Canadá, com cinco mil oitocentos e oitenta e oito
moradores, e média de dois graus Celsius anuais. Me sinto tentado à escolha por
Saint-Pierre-et-Miquelon, apesar da maior população, pois a instabilidade
geopolítica das Falkland desagradaria meu cérebro alienado, e os trinta e seis
mil visitantes anuais possivelmente perturbariam minha insanidade, logo que ela
se habituasse à igualdade absoluta no tempo de que se revestem o céu cinza, a
névoa gelada, a espuma branca do negro movimento marítimo congelando as pedras
da costa; além disso, soube que partes da ilha ainda têm o problema das minas
terrestres, que podem ser uma questão e tanto para um homem movido sobretudo
por impulsos inconscientes e sem nenhum controle racional dos próprios atos. O
território francês, por outro lado, foi ocupado por colonos com o pior sangue
da Europa: normandos, bretões, bascos; aqueles povos que Rimbaud, seu
descendente mais conhecido, descreveu como inadequados para a luta, com suas
vestimentas bárbaras, e manteiga rançosa nos cabelos, queimadores de ervas
inaptos, idólatras, amantes do sacrilégio, viciosos. Essa parece, cada vez
mais, a minha gente, a que melhor me acolherá no asilo perpétuo da razão, e
mais ainda são meus irmãos, entre essa raça, aqueles que trocaram os prados
amarelados e as montanhas gaulesas pelo isolamento insular, onde as noites que
duram meses, os sucessivos cruzamentos do mesmo sangue e o embrutecimento da
vida nas portas cinzentas do Ártico só podem ter cultivado uma linhagem bastante
peculiar de loucos: um lugar como esse decerto poderá receber mais um dos seus.
Durante
o auge de minha existência racional, emocionavam-me bastante os versos de John
Donne que diziam que nenhum homem é uma ilha, que descobri como citação no “Por
quem os Sinos Dobram” de Hemingway; na verdade, mais do que ver beleza na
meditação desse poeta, pastor da Igreja Anglicana, sempre as tomei como minha
moral, que me obrigava a um olhar carinhoso para a humanidade como medida da
vida. Mas agora que percebo que a razão não passou de uma fase, agora, na
iminência de minha insanidade, e me sinto do lado contrário, cada vez mais sou um
homem que é uma ilha. Isolado, não me sinto parte da terra firme, meus olhos
não distinguem bem torrões de areia e continentes, e celebro a morte de cada
homem como sua passagem para uma forma mais pura da matéria, libertação dos
espíritos em suas cascas de carne que os afastavam dos planos transcendentais;
dentro de minha mente dobram, a todo momento, milhões de sinos reluzentes,
dobram para mim, dobram para todos dentro de mim, como se os tocassem
trompetistas divinos, arcanjos negros como Coltrane, Miles Davis, que com solos
agudos de metais me segredam mensagens cifradas, testemunhos de crimes,
confissões de pecados, chaves para a iluminação, que eu tento reproduzir com a
fala, que no entanto me sai insensata e cada vez menos inteligível. Só resta,
agora, redigir uma carta para as autoridades francesas, explicando a
peculiaridade de minha situação mental e requerendo meu asilo permanente
naquele território ultramarino, para que eu possa me instalar sob seu céu
gelado e aguardar a loucura iminente. Que os dias que ainda poderei contemplar
preparem a terra para acolher decentemente o meu terror.

Caralho Adriano, isso é foda demais!
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