Sentaram-se em uma rede virada para as montanhas, para cumes longos no anel da neblina. A rede estava presa em um gancho na parede, um gancho que rangia como resultado da constante maresia com a qual convivia. O outro gancho pendia de uma das colunas que seguravam o telhado da casa, e emitia um som similar, deveras mais grosso. Aquele ar litorâneo, contido pela umidade, esturricado. Todo aquele torpor das manhãs, cercado pelo espelho do mar, por tufos de areia, pelos mares de morros. Um pigmento azul iluminava o ar. Mexeram-se no embalo macio da rede, com os pés pendurados rente ao chão.
“Olha como a névoa cobre até perto da base da montanha.” – disse ele.
O telhado da casa se estendia ligeiramente acima deles, como pistas de telhas. O chão era de pedra fria, e as vezes seus pés tocavam o chão. A névoa estava ficando com cada vez menos sombras. O dia estava se alastrando bem ligeiro, engrenado.
“Quase seis horas.” – disse ela.
Ao lado da rede havia uma mesa com uma toalha xadrez. Em cima da toalha repousavam dois copos e um baralho. Repousava um maço de cigarros pela metade, uma caixa de fósforos e um cinzeiro circular de vidro. Todos eles saiam da penumbra conforme o dia avançava. Assim como as cadeiras de plástico branco que contornavam a mesa.
“Você não pensa mesmo em voltar?” – perguntou ele.
Ela não pensava.
Ela pensava nele e não em voltar.
Era um frio ligeiro e úmido que se alastrava até a porta de vidro da casa. Era uma areia cinza bege que se estendia ao chumbo do mar espumoso. Mar batendo, quebrando.
“Mas porque eu pensaria? Acho que não tem porque pensar.” – disse ela.
A rede ia de lá pra cá, com rangidos agudos. O gramado no canteiro antes da areia estava menos escuro. A grama estava salpicada de orvalho. Os corações deles estavam salpicados de alguma coisa. As luzes começavam a não fazer mais sentido, então se apagavam nos postes da rua de pedrinhas vizinha a casa. A manhã estava suspensa. Havia uma espera suspensa. Uma espera nas palavras, um jogo paciente das palavras.
“Esse silêncio é bom” – disse ela.
Só alguns zumbidos trastejavam no silêncio.
A rede estava bem laceada, quase tocando o chão, bem rente, no embalo de ninar. Suas coxas estavam suavemente encostadas em calor. O dia vindo em arco. Ela pensava na estrada se desenrolando pela janela do ônibus. Ele pensava no horizonte branco e nublado, grande. O mar era uma chapa de aço azul. As montanhas eram penumbras escuras nos cantos do horizonte branco e nublado. Ele lembrava do passar da noite, das cartas batendo na mesa, dos copos curtos com rum gelado e viscoso, as mãos no quadrado da mesa. Ela lembrava da noite alastrada pela grama escurecida e do sopro dos mosquitos. Ambos contavam as ondas com os ouvidos.
“O rum deixa a boca meio anestesiada, é bom.” – ela falava esfregando os dedões nos indicadores.
“Sim.” – ele assentiu. - “É gostoso...”
Enquanto um pássaro preto cortou os céus da esquerda para direita contra a montanha e o céu branco, ela passou os dedos no braço esquerdo dele. Ele pensou na tarde anterior, quando fizeram amor vagarosamente, ouvindo Billie Holiday e a chuva a tamborilar no telhado. As pálpebras de ambos ficavam pouco a pouco à deriva do cansaço.
“Talvez dê pra escutar a névoa.” – disse ela.
Ele assentiu. Sua boca estava um pouco pastosa por dentro e ele engoliu firme. Sentia a umidade nos antebraços e passou a mão em um deles. Um vento cruzou bem curto e eriçou os pêlos descobertos de suas canelas. Alguns mosquitos ronronavam perto de suas peles.
“Seria bom tomar um chá.” – disse ele.
“Vamos?” – disse ela.
Levantaram-se pausadamente, a estirar os músculos das panturrilhas e pisar no chão frio com as solas brancas dos pés. Ele passou rente a mesa, e sua bermuda de algodão roçou na toalha xadrez, tecidos enamorados por alguns segundos. Pegou o maço e puxou um cigarro, depositando-o na boca, no canto. Depois chacoalhou a caixa de fósforos e ouviu a cadência dos palitos. Abriu-a com o dedo indicador, retirou um palito, riscou-o na lateral do pequeno compartimento e acendeu o fumo com uma brasa bem viva. Tragou um longo trago e soltou a fumaça para cima, olhando para o teto escuro. Andou ao longo do alpendre e debruçou-se na janela que dava para a cozinha. Ela entrou na cozinha de pés descalços e tornozelos finos que subiam até as curvas da panturrilha. Seus dedos das mãos procuraram fósforos para acender a boca do fogão de metal enferrujado e marrom. Um risco e uma chama. A água esquentava na chaleira e ela olhou uma lagartixa cruzar a parede perto da pia. E pela janela ele contemplava tudo, de trago em trago.
“Você está com sono?” – perguntou ele.
“Estou com preguiça de dormir.” – disse ela.
O chá estava seco e tostado nas peneiras em cima das canecas brancas e pretas. Ela inclinou o punho e a água borbulhando molhou o chá. E o chá molhou a caneca. As mãos entornaram o calor para suas palmas e depois para suas gargantas.
“É bom esse quente aqui.” – disse ele, passando a mão no pomo de adão.
“É bom quando passa perto dos pulmões.” – disse ela.
Seus olhos procuraram um ao outro. Como que automaticamente, dirigiram-se até a área externa da casa que principiava-se na grama molhada. Ele sentiu a água do orvalho entre os dedos dos pés. Ela sentiu a água do orvalho molhar seu calcanhar. Respiraram água suspensa.
“Está bom.” – disse ela, referindo-se ao chá.
“Sim, está bem escuro.” – disse ele.
Entornaram os últimos goles, voltaram para a parte coberta e depositaram as canecas perto do baralho na mesa. Depois andaram até o princípio da areia e também sentiram-na molhada. E cavaram buracos e traçaram faixas nela com seus dedões dos pés curvados. E sentiram o mar bem mais perto, a revolver em farfalho e a rugir socos graves. Ele deu um último trago no cigarro, virou-se e olhou para baixo. Depois caminhou até próximo da mesa e apagou o cigarro com jeito no centro do cinzeiro. Deitou-se na rede e pousou as mãos na nuca, com os dedos entrelaçados. Olhou-a. Ela andava de lá pra cá, cruzando as pernas com desenvoltura, traços no ar, depositando ocasionalmente o peito do pé na areia gelada e molhada, revelando a sola enrugada e cheia de grãos ensopados. Seus joelhos curvavam-se ligeiramente e ela olhava para a terra e para o céu, cinza mais branco. Entreolharam-se e ela voltou para seu posto, junto à rede. Pegou o maço de cigarros, a caixa de fósforos e sentou-se.
“Quer um cigarro?” – perguntou ela.
“Não. Acabei de fumar.” – respondeu ele.
Ela fumava canudos de fumaça. A brasa quente do cigarro sibilava no silêncio. Depois ela esticava-se até a mesa e batia no filtro com a ponta do dedão para a cinza cair dentro do cinzeiro. Olharam-se, e ela beijou a barba áspera dele, próximo ao queixo. Viram a névoa mais dispersa e os raios bem brancos de claridade e, com os olhos aconchegados, sorriram.
Philippe Garrel, ou melhor, Godard, um demônio das onze horas: intimidade com o meio, a mulher, a matéria
ResponderExcluircara, é verdade, quando o andré leu me deu uma sensação meio saudosa do (não vivido) pierrot le fou.
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