9.10.12

O museu do Nada


           Em uma noite fogosa de assembléia de estrelas, um arquiteto teimava em pensar no projeto de um lugar que fosse tudo.
            De tanto gasto encefálico, uma hora suas pálpebras cansaram e desistiram.
            Dormiu.
          Sonhou respostas. Pelas paredes de seus sonhos também elevaram-se as paredes de seu projeto, aquele lugar que seria todos.
            Aos pouquinhos ele ia construindo, com argamassa onírica, um grande museu de Nada.
            Pois, que é o Nada senão o Tudo, só que despido de qualquer carga simbólica?
         Um concreto branco começou, então, a se erguer e a correr lateralmente por todas as vias em todas as dimensões. Fazia uma luz negativa de drama, e que enudecia e emudecia todas as cores.
            Caminhando como uma idéia, o arquiteto em seu sonho se escutava:
             No Nada encontro o Tudo. Assim como no cheio das cidades vejo pelos cantos um oco que desponta, nesse vazio do museu também vejo uma negação, uma luz que é repleta! Sim, sim! A luz das idéias que é repletamente infinita, e que se propaga num espaço vazio infinitamente preenchível, a mente.
          Assim seguiu, erigindo o seu projeto com extrema felicidade. Pois, nesse grande museu de Nada, os olhos de quem vê é que são o objeto exposto. E então flui-se rumo a si, e os eventuais quadros e esculturas suscitados rapidamente e logo em seguida deletados são o desfile de idéias esporádicas.        
           O arquiteto acordou num lampejo.
           Olhou ao redor.
           Sentiu-se oco no calor da noite que tombava em estrelas pela janela aberta. Concluiu que sempre tivera em mãos, prontinho, erigido e resistente, o projeto que sonhava em concretizar. Porque aquele grande lugar que é todos, o museu do Nada, sempre estivera construído em forma de inteligência na sua própria cabeça.

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