Deitado,
acordado dentro de um sono, de um sonho. Mas o que há de ser estar acordado no
próprio sono? Não há de ser nada. Apesar de tudo que me envolve ressoar a
mentira noturna, apesar dessa tensão em abrir os olhos, em abrir os dedos, em
abrir o peito para o dia que chega, não há de ser nada. Talvez seja só cansaço
em atraso, chegando impertinente no momento em que o dia nasce, e não no
momento em que declina, como normalmente acontece. Pouca coisa. Quem nunca
experimentou más noites, inquietas noites, noites de estiada do descanso?
Cansaço, é isso, e só, ponto final. O certo mesmo é que de duas há de ser uma
coisa, pois ambas é nunca, é nuca no corpo da falácia. Não acredito. E você,
não acredite em ambas! Nem em empate! Duas em duas opções é só um postergar,
uma vacilação na decisão, moeda parada em cima da mesa, escolha que não voltou
da viagem na avaliação, carne crua que precisa assar para ser cortada. Não é,
não pode ser, é um, sempre, tem e deve ser vigente e absoluto, um único estado
soberano frente a realidade. Por isso tudo isso, chegar em tudo isso, na
pergunta certa: estou dormindo ou acordado?
Em
algum dos lados tenho de estar, devo. Não se pode ficar em cima de perímetros.
Custa-nos ficar em cima de perímetros, de fronteiras. Custa-nos decisões
constantes, lâmpada acesa, lâmpada apagada, caneca e camisa serventes do dia,
quais serão? Bom mesmo é estar logo em algum dos lados, não se deter na
travessia da fronteira. Atravessando rápido, as ações pedem menos e dão mais,
elas gostam de saber onde atuam. Meio de campo aqui é embolação, nem defesa nem
ataque. É preciso cruzar, sempre, e com rapidez, acabar com o incômodo da
travessia, da passagem. Passagem sem lugar é trânsito, e quem não se move na
passagem apenas atrapalha o tráfego. Sair do meio de campo, tocar a bola,
definitivamente!
Veja,
as paredes que me chegam são as mesmas de sempre. Me envolvem há mais de duas
décadas, me envolvem com seu estigma de luz parada. Viram tanto que fiz. Até
pesam. Nesse caso, estou acordado, devo estar, pois sinto-as soltando em
resposta a luz que entra filtrada pela janela. Se estivesse dormindo, para quê
eu sonharia com o quarto que me cerca todos os dias, todos os anos de minha
vida? Se eu estivesse sonhando, sonharia longe daqui, em alturas cósmicas,
naqueles úteros de estrelas recém-descobertos pelos cientistas. Isso se eu
pudesse controlar meus sonhos, o que muito anseio.
Mas,
se não tenho controle, é bem possível que sonhar com a vigília não seja tanta
loucura assim. Acordado dentro de um sono? Se não sou eu quem coordena o sonho
(e como eu gostaria de o fazer!), algum aquém ou algum além me impõe essa
força. Serão nervos? O que sei é que meus olhos doem, como se quisesse abri-los
e não pudesse. E não posso. Não. Mas não estão abertos? Se vejo essas paredes,
devem estar abertos! As pálpebras fechariam essa visão tão real,
impossibilitar-me-iam de ver minha mesa de trabalho ali no canto do quarto,
parada e quieta tanto quanto eu sobre essa cama. Vejo também a colcha, o canto
do travesseiro, as arestas da janela. Mas vejo por onde, se me pesam as
pálpebras como num abraço de sono? Se me doem, se cai sobre mim a ausência do
movimento? As pernas lutam e não saem, rígidas. Presos por cordas todos os meus
órgãos. É isso? Então durmo e sonho, e meu corpo se controla para que eu não
saia voando. Tomando consciência da imobilidade, em segundos acordarei, darei
fim nisso.
Mas
fico. Teimosia que paira no ar. Vertigem de forças. E a imobilidade me diz que
ainda é noite. O silêncio também o faz, ainda nenhum ônibus lá fora, nenhum
trabalhador aventureiro despertou. Poeira da noite pelo quarto, quietude. Mas,
se é noite, porque entra um sol de madrugada leve pelas frestas da veneziana?
Porque divido-me entre a aurora que dispara-me os sentidos e a noite que exalam
os objetos que me envolvem?
Todos
eles pesam. Caem sobre o tempo que parece não andar. E eu andando também não
estou, somente meus olhos andam, percorrem cantos e travessas, detalhes de uma
posição insuportável, de uma incapacidade, de uma impotência perante o
despertar. Deitado fico, a contemplar o pânico de não me sentir em sonho.
Deitado fico, a contemplar o pânico de não me sentir em vigília.
São
horas que recusam se mexer, são meses que se movem sem parar, são as dores que
impedem o corpo de correr. Dos cantos brotam luzes, dramáticas. Dos cantos
brotam memórias, viscosas. Riscos, risos inebriantes de desespero, camarins de
façanhas totalmente errôneas.
Mas
o que há de ser estar acordado no próprio sono?
Noite
inteira nesse vai e vem das criptas, do calor que não se move, do ar parado.
Noite inteira sob luz de alvorada incorruptível. O tempo todo no meio do tempo,
serrando-o onde ele não existe, onde ele deixa de ser convenção. Passam-me
janelas diversas dentro dessa janela imóvel ao meu lado, o corpo colado na boca
da cama, o travesseiro que esquenta o couro cabeludo, retratos de uma falsidade
sabida mas impossível de se combater. O corpo se acomete, se fere em inércia.
Não é possível acordar, não é possível dormir. Só é possível a impossibilidade,
ficar parado, movendo-se na própria ausência.
O
quarto sobe e desce, começa a se mexer. Dilata, aumenta. Abarca uma multidão de
luz em gomos gelatinosos, abarca o que não posso ser. Contrai, diminui. Esquece
dos meus membros, fica do tamanho deles, uma caixa em forma de quarto, uma
caixa em miniatura, meu coração em miniatura oprimido pela falta de ar.
Sigo.
Devo tentar. Se não tentar, que caralhos vou fazer? Se não consigo me
distinguir no meio desse sono, se não sequer escolher o sono como via de
escape, será que posso ao menos chegar até ao interruptor do quarto, acender a
luz, ou abrir a janela, deixar a umidade da manhã entrar e acabar com essa
palhaçada pelo menos temporariamente?
Mas
não, não há. Estou rijo, fixo. Estou na hora em que a hora não significa
andares, contagens atrasadas ou adiantadas, medição de uma vida. Estou na hora
em que o pânico é maior, em que o nervosismo por não poder sequer escolher
estar calado é maior do que tudo.
Acima
de mim, sei que estou desperto. Abaixo de mim, sei que estou acordado. Mas não
me movo, e cogito no sono uma resposta para a invalidez. Mas como, se até no
sono a validade se dá em respostas oníricas, em percalços menos atrelados ao
sentido cotidiano? Estou no meio, na passagem.
Nas
mesmas repetições, seguidas e seguidas vezes, o pânico. Fome não se faz por
nada. A mordaça, agora, está até nos olhos, que se recusam a aguentar mais um
segundo da mesma quantidade de luz filtrada pela janela.
O
ouvido, no entanto, parece se mover. Uma chama de tons acende-se por fora.
Através da janela, chega bem fino, como vento sibilino, um freio de ônibus, um
pneu que rasga-se um pouco mais, que deixa movediça a matéria do asfalto.
Deixando-me
ir nesse estalo recente, tão somente escuto. Esqueço das dores, dos calores da
pausa, da inação de meu corpo. Rebroto, se é que assim se pode dizer. A pouca
verdade que se extrai está ausente dos olhos, larápios de patas aracnídeas. Os
objetos mentirosos, nuvens fugazes de massas, não me entregam mais nada. O que
me entrega, de portas em fileiras abrindo-se em pequenos vãos, são os ouvidos,
mais distintos agora do que nunca.
Lá
fora abre-se a porta do ônibus, na rua tão perto de minha janela. Bem logo,
logo lá embaixo. Ouço seu soco, a boca do ônibus que abre, que vomita apenas um
alguém, um incógnito. Os passos na curta escada da embarcação destoam, o
desembarque na rua se faz. O motor reacelera, a baleia se vai embora,
espirrando fumaça pelo espiráculo. Retorna o silêncio. Recai o véu, recaem
cortinas. Tão súbito, novamente, o silêncio.
Olho
ao redor. Recorro novamente aos olhos. São fossas, mas são recursos últimos
quando outros falham. Pensava ter os ouvidos, mas após a partida das rodas que
nem vi rodarem, do motor que fugiu como coelho caçado, voltou essa inação, a gelatina
severa de todos os sentidos sendo nenhum, dependentes dos móveis ao meu redor
que não se movem, ambiguamente quietos, escravos da mesma luz de um também
empacado sol.
Mas,
nessa hora vaga, eis que ressurgem, dando vida a tudo que é diverso. Agora, prestando
atenção, vislumbro que não há silêncio, vislumbro que o ser descido do ônibus
ali ainda está, respirando. Ouço sua respiração, sua indecisão andares abaixo.
Ouço seu pesar, de que lado olhar, para onde me postergar. Sinto-me ali, fôlego
humano, pés sobre a calçada, cidade esmagada pelos vácuos de gentes, de
movimentos, de peles e de aumentos. Eis que me escuto, e percebo que, estando
preso aqui, também o ser está preso lá, que estando preso dormindo aqui, também
ele está preso acordado lá, sem caminho, brotado, empregado de um tempo que
teima em não chegar.
Um
pé se move, no entanto. Surpresa. Como tudo de novo, surge de súbito. Um pé
basta para todo um percurso. Enquanto ouço um passo que se arrasta no asfalto,
sinto meu calcanhar que se arrasta no colchão. Movo-me envolto, pequeno, apenas
um trecho. Mas movo-me. Então devo estar acordado. Mas quantas vezes não me
contaram que me mexo enquanto durmo, que falo, rio, conto histórias em pleno
laço da cama? É de se estranhar, talvez mesmo não exista fronteira entre dormir
e acordar. Talvez tudo seja um mesmo braço de nosso simples descaso, de nosso
atraso, de nosso constante abraço que quer tudo abarcar. A fronteira das
pálpebras, fechada ou aberta, vê o mesmo luar.
Move-se
a luz do sol, imanente ao que toca. Agora os dedos daquele pé tocam o chão,
dentro do sapato. Agora os dedos deste meu pé sentem o ar, descalços,
novamente. Sinto que a noite se transfigura, e que o sol muda, e que já não há
mais ar estanque no quadrado do quarto.
De
novo, ouço. Enquanto toco a cama com meus pés, únicos movíveis em todo esse
espanto, ouço o ser que caminha e que quer se aproximar. Ouço em mim, sendo-me,
ouço-o rasgando as ruas, decidido a voltar para qualquer lugar, largar o que
quer que seja, amanhã é o amanhã, agora o que se quer é o lar.
Eis
então que se aproxima, que atravessa a rua até o portão deste prédio que detém
a janela ao meu lado. Eis que ouço a trava se abrindo. Eis que ouço-me me
abrindo. Eis que as pernas, minhas pernas, tão incertas, começam a chegar,
roçar no colchão, ansiosas por ritmo, por caminhar.
Conforme
se aproxima, conforme o ser que brotou do ônibus supera a inação, conforme vai
adentrando os meandros dessa torre em que vivo, sinto o vacilo de meu estômago,
a boca de uma luz que se altera, a ânsia por trabalhar, o descompasso, a fome
que clama. De certo, o ser sobe agora as escadas, porque escuto ao fundo
passadas largas, lentas mas firmes, que sobem andar por andar até o meu
despertar. Eis que ouço a porta da casa se abrindo, como ele entrou, não passei
a chave na noite passada? Eis que se aproxima a ausência de estar parado, o
vulgo do movimento, o rascunho da ação. Eis que a maçaneta deste meu quarto
vacila, escuto-a, operando um novo reconhecimento. Eis que meu tronco vai
seguindo o cerebelo, finalmente, vai reconstruindo-me perante a realidade, seja
onírica ou vigílica. Eis que minha cabeça se move, para o lado direito, encosto
o ouvido no travesseiro, a ponto de dar vazão aos olhos, tão grandes
mentirosos, mas que agora confirmam, confirmam-me: ali o ser brotado do ônibus,
ali o ser brotado da rua, abrindo uma grande fresta na porta cerrada do quarto,
sou eu próprio, eu vindo de reencontro ao meu próprio ato.
'I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
ResponderExcluirI have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.'