22.10.12

Despertar

           Deitado, acordado dentro de um sono, de um sonho. Mas o que há de ser estar acordado no próprio sono? Não há de ser nada. Apesar de tudo que me envolve ressoar a mentira noturna, apesar dessa tensão em abrir os olhos, em abrir os dedos, em abrir o peito para o dia que chega, não há de ser nada. Talvez seja só cansaço em atraso, chegando impertinente no momento em que o dia nasce, e não no momento em que declina, como normalmente acontece. Pouca coisa. Quem nunca experimentou más noites, inquietas noites, noites de estiada do descanso? Cansaço, é isso, e só, ponto final. O certo mesmo é que de duas há de ser uma coisa, pois ambas é nunca, é nuca no corpo da falácia. Não acredito. E você, não acredite em ambas! Nem em empate! Duas em duas opções é só um postergar, uma vacilação na decisão, moeda parada em cima da mesa, escolha que não voltou da viagem na avaliação, carne crua que precisa assar para ser cortada. Não é, não pode ser, é um, sempre, tem e deve ser vigente e absoluto, um único estado soberano frente a realidade. Por isso tudo isso, chegar em tudo isso, na pergunta certa: estou dormindo ou acordado?
           Em algum dos lados tenho de estar, devo. Não se pode ficar em cima de perímetros. Custa-nos ficar em cima de perímetros, de fronteiras. Custa-nos decisões constantes, lâmpada acesa, lâmpada apagada, caneca e camisa serventes do dia, quais serão? Bom mesmo é estar logo em algum dos lados, não se deter na travessia da fronteira. Atravessando rápido, as ações pedem menos e dão mais, elas gostam de saber onde atuam. Meio de campo aqui é embolação, nem defesa nem ataque. É preciso cruzar, sempre, e com rapidez, acabar com o incômodo da travessia, da passagem. Passagem sem lugar é trânsito, e quem não se move na passagem apenas atrapalha o tráfego. Sair do meio de campo, tocar a bola, definitivamente! 
            Veja, as paredes que me chegam são as mesmas de sempre. Me envolvem há mais de duas décadas, me envolvem com seu estigma de luz parada. Viram tanto que fiz. Até pesam. Nesse caso, estou acordado, devo estar, pois sinto-as soltando em resposta a luz que entra filtrada pela janela. Se estivesse dormindo, para quê eu sonharia com o quarto que me cerca todos os dias, todos os anos de minha vida? Se eu estivesse sonhando, sonharia longe daqui, em alturas cósmicas, naqueles úteros de estrelas recém-descobertos pelos cientistas. Isso se eu pudesse controlar meus sonhos, o que muito anseio. 
            Mas, se não tenho controle, é bem possível que sonhar com a vigília não seja tanta loucura assim. Acordado dentro de um sono? Se não sou eu quem coordena o sonho (e como eu gostaria de o fazer!), algum aquém ou algum além me impõe essa força. Serão nervos? O que sei é que meus olhos doem, como se quisesse abri-los e não pudesse. E não posso. Não. Mas não estão abertos? Se vejo essas paredes, devem estar abertos! As pálpebras fechariam essa visão tão real, impossibilitar-me-iam de ver minha mesa de trabalho ali no canto do quarto, parada e quieta tanto quanto eu sobre essa cama. Vejo também a colcha, o canto do travesseiro, as arestas da janela. Mas vejo por onde, se me pesam as pálpebras como num abraço de sono? Se me doem, se cai sobre mim a ausência do movimento? As pernas lutam e não saem, rígidas. Presos por cordas todos os meus órgãos. É isso? Então durmo e sonho, e meu corpo se controla para que eu não saia voando. Tomando consciência da imobilidade, em segundos acordarei, darei fim nisso. 
            Mas fico. Teimosia que paira no ar. Vertigem de forças. E a imobilidade me diz que ainda é noite. O silêncio também o faz, ainda nenhum ônibus lá fora, nenhum trabalhador aventureiro despertou. Poeira da noite pelo quarto, quietude. Mas, se é noite, porque entra um sol de madrugada leve pelas frestas da veneziana? Porque divido-me entre a aurora que dispara-me os sentidos e a noite que exalam os objetos que me envolvem? 
            Todos eles pesam. Caem sobre o tempo que parece não andar. E eu andando também não estou, somente meus olhos andam, percorrem cantos e travessas, detalhes de uma posição insuportável, de uma incapacidade, de uma impotência perante o despertar. Deitado fico, a contemplar o pânico de não me sentir em sonho. Deitado fico, a contemplar o pânico de não me sentir em vigília. 
            São horas que recusam se mexer, são meses que se movem sem parar, são as dores que impedem o corpo de correr. Dos cantos brotam luzes, dramáticas. Dos cantos brotam memórias, viscosas. Riscos, risos inebriantes de desespero, camarins de façanhas totalmente errôneas. 
            Mas o que há de ser estar acordado no próprio sono? 
            Noite inteira nesse vai e vem das criptas, do calor que não se move, do ar parado. Noite inteira sob luz de alvorada incorruptível. O tempo todo no meio do tempo, serrando-o onde ele não existe, onde ele deixa de ser convenção. Passam-me janelas diversas dentro dessa janela imóvel ao meu lado, o corpo colado na boca da cama, o travesseiro que esquenta o couro cabeludo, retratos de uma falsidade sabida mas impossível de se combater. O corpo se acomete, se fere em inércia. Não é possível acordar, não é possível dormir. Só é possível a impossibilidade, ficar parado, movendo-se na própria ausência. 
            O quarto sobe e desce, começa a se mexer. Dilata, aumenta. Abarca uma multidão de luz em gomos gelatinosos, abarca o que não posso ser. Contrai, diminui. Esquece dos meus membros, fica do tamanho deles, uma caixa em forma de quarto, uma caixa em miniatura, meu coração em miniatura oprimido pela falta de ar. 
            Sigo. Devo tentar. Se não tentar, que caralhos vou fazer? Se não consigo me distinguir no meio desse sono, se não sequer escolher o sono como via de escape, será que posso ao menos chegar até ao interruptor do quarto, acender a luz, ou abrir a janela, deixar a umidade da manhã entrar e acabar com essa palhaçada pelo menos temporariamente? 
            Mas não, não há. Estou rijo, fixo. Estou na hora em que a hora não significa andares, contagens atrasadas ou adiantadas, medição de uma vida. Estou na hora em que o pânico é maior, em que o nervosismo por não poder sequer escolher estar calado é maior do que tudo. 
            Acima de mim, sei que estou desperto. Abaixo de mim, sei que estou acordado. Mas não me movo, e cogito no sono uma resposta para a invalidez. Mas como, se até no sono a validade se dá em respostas oníricas, em percalços menos atrelados ao sentido cotidiano? Estou no meio, na passagem. 
            Nas mesmas repetições, seguidas e seguidas vezes, o pânico. Fome não se faz por nada. A mordaça, agora, está até nos olhos, que se recusam a aguentar mais um segundo da mesma quantidade de luz filtrada pela janela. 
            O ouvido, no entanto, parece se mover. Uma chama de tons acende-se por fora. Através da janela, chega bem fino, como vento sibilino, um freio de ônibus, um pneu que rasga-se um pouco mais, que deixa movediça a matéria do asfalto. 
            Deixando-me ir nesse estalo recente, tão somente escuto. Esqueço das dores, dos calores da pausa, da inação de meu corpo. Rebroto, se é que assim se pode dizer. A pouca verdade que se extrai está ausente dos olhos, larápios de patas aracnídeas. Os objetos mentirosos, nuvens fugazes de massas, não me entregam mais nada. O que me entrega, de portas em fileiras abrindo-se em pequenos vãos, são os ouvidos, mais distintos agora do que nunca. 
            Lá fora abre-se a porta do ônibus, na rua tão perto de minha janela. Bem logo, logo lá embaixo. Ouço seu soco, a boca do ônibus que abre, que vomita apenas um alguém, um incógnito. Os passos na curta escada da embarcação destoam, o desembarque na rua se faz. O motor reacelera, a baleia se vai embora, espirrando fumaça pelo espiráculo. Retorna o silêncio. Recai o véu, recaem cortinas. Tão súbito, novamente, o silêncio. 
            Olho ao redor. Recorro novamente aos olhos. São fossas, mas são recursos últimos quando outros falham. Pensava ter os ouvidos, mas após a partida das rodas que nem vi rodarem, do motor que fugiu como coelho caçado, voltou essa inação, a gelatina severa de todos os sentidos sendo nenhum, dependentes dos móveis ao meu redor que não se movem, ambiguamente quietos, escravos da mesma luz de um também empacado sol. 
            Mas, nessa hora vaga, eis que ressurgem, dando vida a tudo que é diverso. Agora, prestando atenção, vislumbro que não há silêncio, vislumbro que o ser descido do ônibus ali ainda está, respirando. Ouço sua respiração, sua indecisão andares abaixo. Ouço seu pesar, de que lado olhar, para onde me postergar. Sinto-me ali, fôlego humano, pés sobre a calçada, cidade esmagada pelos vácuos de gentes, de movimentos, de peles e de aumentos. Eis que me escuto, e percebo que, estando preso aqui, também o ser está preso lá, que estando preso dormindo aqui, também ele está preso acordado lá, sem caminho, brotado, empregado de um tempo que teima em não chegar. 
            Um pé se move, no entanto. Surpresa. Como tudo de novo, surge de súbito. Um pé basta para todo um percurso. Enquanto ouço um passo que se arrasta no asfalto, sinto meu calcanhar que se arrasta no colchão. Movo-me envolto, pequeno, apenas um trecho. Mas movo-me. Então devo estar acordado. Mas quantas vezes não me contaram que me mexo enquanto durmo, que falo, rio, conto histórias em pleno laço da cama? É de se estranhar, talvez mesmo não exista fronteira entre dormir e acordar. Talvez tudo seja um mesmo braço de nosso simples descaso, de nosso atraso, de nosso constante abraço que quer tudo abarcar. A fronteira das pálpebras, fechada ou aberta, vê o mesmo luar. 
            Move-se a luz do sol, imanente ao que toca. Agora os dedos daquele pé tocam o chão, dentro do sapato. Agora os dedos deste meu pé sentem o ar, descalços, novamente. Sinto que a noite se transfigura, e que o sol muda, e que já não há mais ar estanque no quadrado do quarto. 
            De novo, ouço. Enquanto toco a cama com meus pés, únicos movíveis em todo esse espanto, ouço o ser que caminha e que quer se aproximar. Ouço em mim, sendo-me, ouço-o rasgando as ruas, decidido a voltar para qualquer lugar, largar o que quer que seja, amanhã é o amanhã, agora o que se quer é o lar. 
            Eis então que se aproxima, que atravessa a rua até o portão deste prédio que detém a janela ao meu lado. Eis que ouço a trava se abrindo. Eis que ouço-me me abrindo. Eis que as pernas, minhas pernas, tão incertas, começam a chegar, roçar no colchão, ansiosas por ritmo, por caminhar. 
            Conforme se aproxima, conforme o ser que brotou do ônibus supera a inação, conforme vai adentrando os meandros dessa torre em que vivo, sinto o vacilo de meu estômago, a boca de uma luz que se altera, a ânsia por trabalhar, o descompasso, a fome que clama. De certo, o ser sobe agora as escadas, porque escuto ao fundo passadas largas, lentas mas firmes, que sobem andar por andar até o meu despertar. Eis que ouço a porta da casa se abrindo, como ele entrou, não passei a chave na noite passada? Eis que se aproxima a ausência de estar parado, o vulgo do movimento, o rascunho da ação. Eis que a maçaneta deste meu quarto vacila, escuto-a, operando um novo reconhecimento. Eis que meu tronco vai seguindo o cerebelo, finalmente, vai reconstruindo-me perante a realidade, seja onírica ou vigílica. Eis que minha cabeça se move, para o lado direito, encosto o ouvido no travesseiro, a ponto de dar vazão aos olhos, tão grandes mentirosos, mas que agora confirmam, confirmam-me: ali o ser brotado do ônibus, ali o ser brotado da rua, abrindo uma grande fresta na porta cerrada do quarto, sou eu próprio, eu vindo de reencontro ao meu próprio ato.

Um comentário:

  1. 'I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
    I have heard the mermaids singing, each to each.

    I do not think that they will sing to me.

    I have seen them riding seaward on the waves
    Combing the white hair of the waves blown back
    When the wind blows the water white and black.

    We have lingered in the chambers of the sea
    By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
    Till human voices wake us, and we drown.'

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