27.8.12

Coro


 Para Joshua Redman,
um anjo abraçado a um saxofone

            Um algo que sai dos dedos. Um pulmão que rebenta, distende, que faz brotar uma agressão, com ternuras, uma navalha com fio de pétalas maduras. Uma sinfonia num espasmo, ali postado, partindo de forças suspensas, um dique de comportas abertas, uma rebentação, maré de juntas cavalares e miúdas (re)quebrando no mergulho, som primal, vocal, na origem deste, uma origem de pontas acesas nas bordas, no limiar do improvável.
            Travando uma disputa com a calçada, num nervo descompasso, intercâmbio de asfalto com as solas dos sapatos, radiante surgindo vem da esquina um sopro, um fulminar distante e nem tanto assim, que sobe e cresce como volúpia, que se aloja no interior e faz fugir as veias, que as faz estourar, saírem do que é o mesmo, sempre, libertarem-se da tirania da anatomia, que faz o tudo tornar-se um pó maciço. Na quina da esquina, de pé, em músculos compactos, em contornos rebocáveis pela música, pelo jazz, pelo sopro interminável, um sax e beiços e uma careca que lustra e ilustra a luz que pare todo som. Ao fundo de si um recorte de prédios, um reboque de esmeros citadinos, rastros e magos das vias que se alastram com dinâmica imensa. Dentro de si a orquestra, o campo nevado, o caminho dourado que começa nos alvéolos, essas estrelas do dentro de todos, o motor da consciência, elevando-se acima de todas as construções de concreto, elevando-se acima de todas as nuvens no teto, azul, tão só sozinho na altura distante e triste.
            O sax e o homem, irmãos dessa esquina, meus irmãos, arrepios distintos, que sobressaem e fixam-se na ausência de nomes, a fogueira que toma a pancadas todos os cantos e recantos da matéria, a voz que é uma única e só, dó, o grito de uma fadiga que depende de ar e de digitais encostando em paletas, num metal que fica viscoso ao toque, que torna-se som para esse jazzista ilimitado rebentando dores apenas sabores de um amargo inigualável. E de morte convertendo-se, de perda aprumando-se, de laranja em sangue, de circulação cítrica, de azeitonas rosas que pulam de um bocal para dentro dos peitos alheios. Além de nomes, de tragédias e de tarefas, um só rabisco, uma só estrada livre e escancarada entre pulmões e lábios.  
             E o lábio inferior, enorme, recostado, que brota da mãe África, que lá tem origem, e os olhos verdes na feição tão sorridente, e que vieram de outras terras, uma fornicação explosiva que coloca este ser a minha frente, conjecturando o impossível num só fôlego. Nervoso, descrente, torcendo para fazer do tempo um varal, roupas num varal planando, voando com o vento da cidade que nasce dos pneus velozes em circulação infinda, em jogo feroz de vias em anatômica fúria. Roupas num cálido encaixe do corpo que se alterna, sacoleja, como um trem de carga apitando os últimos dias de viajantes solitários, como luzes numa noite de boemia interminável, a mais longa de todas com um frisson tão possível e coletável, esse olhar sobrepondo-se sobre todas as mesas, as línguas em plena fumaça ardente de chaminés. É assim, é esse homem, que fazendo arcos com as pernas e o tronco, enquanto destila a própria vida e o próprio suingue, se dissolve, sobe em mim em meio aos seus uivos entre os sopros, nesse lábio inferior gigante de recompensa, que deixa sair esse gás todo de dentro, essa pressão de máquina em pleno funcionamento, esse dínamo iridescente da pura plenitude.
            Esse encaixe, sim, como não, esse encaixe que não larga os olhos. Essa esquina tão abatida agora tão enraivecida com esse ar que bufa diferente, que faz dos sinos das igrejas mera brincadeira de anjos mal-criados. Essa trombeta de guerra, esse mecanismo de corpo tão complexo e tão compreensível num só espasmo que é toda a sinfonia, que é todo o coração, que se ausenta num instante preciso, em numerais advogando o intenso, comendo-me, devorando-me como heroína, como droga carcomida de momento, tudo que preciso para ter uma recorrência de dentes na face e nos rosáceos desse corpo que me pertence (e agora nem mais isso), tomado em possessão com esse sax que desenfreia o mundo ao redor de mim, tornando-se todos antes dele, tornando-se todos depois dele, tornando-se até tornado, destruição, torrentes, querubins de asas sem rótulos, sem salvação e sem perdição, esse coro que toma a qualquer um com vigor de chá fumegante em noite clara de lua perdida entre janelas apagadas. Esse coro, sim, um coro num só corpo, um só que se abstém dos próprios contornos, e que decai em palmas gerais.

6 comentários:

  1. sim, esse solo
    uma sirene distinta
    alentando os alertas
    ou dirigir-se às Sirenes
    amarrado a uma aresta?

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    Respostas
    1. nunca amarrado,
      a não ser que seja
      em um confim dourado

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  2. Dentro de si a orquestra,
    o caminho dourado que começa nos alvéolos,
    o motor da consciência, elevando-se acima de todas as construções de concreto,

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