Quero
passar a próxima página e meia a tentar descrever-te, mulher dos olhos de
máquina recorrente, mulher do nome que poderia ser pedra preciosa. Meu dever,
hoje, é descrever-te, descrever-te para que um acesso de loucura não tome
minhas pálpebras, esse meu desejo que me chamusca, e o apreço que tenho por
ele, afinal ele muitas vezes tem que me bastar, deve me bastar, do contrário
enlouqueço sem a matéria do mesmo. Afinal, somos indigentes em busca de um
recorte temporário do tempo, somos unos, sinto a cada dia minha própria raça,
tão humana e fugaz, que se desprende aos poucos dos meus contornos. E encontro
nessas pequenas recorrências dos dias aquele algo em que devo me deter, pois a
vastidão do vazio é tão grande que faz eclodir qualquer tentativa que o coração
tenha de abarcá-la.
No fundo, sinto medo. Sinto medo de descrevê-la, mulher, mulher de sonho, mulher que sei que, talvez, no desejo, seja melhor que na realidade. Sei que meus olhos podem me enganar, mas sei que se o recorte chegar, com um contorno serrilhado, pronto para o ataque, eu vou ceder, vou chamar essa história de “desejo que basta” de mera babaquice, vou querer me entregar aos teus lábios vermelhos e carnais como a dor que sinto a cada dia, meu peito que estremece a cada toque de passado e meu desejo de ejetar tudo que me põe à prova. E é difícil, às vezes não sei o que ejetar, sinto só que devo ejetar, mas não sei o que. E esse é o maior medo, encarar isso sozinho, porque devo encarar sozinho, disso já me conformei, e sentir que entes queridos correm entre os dedos com implacável facilidade, que ao desviar de um olho, preso por um segundo nas asas do bem-te-vi, toda uma trama relacional de ódio e amor pode se deteriorar. Mas em teus lábios vermelhos e teus olhos vítreos cheios de volúpia, mulher que é pedra preciosa, eu sonho com um mundo novo, um mundo intocável em que tudo seja começo, só começo, sem as desventuras do passar. Mas sei da impossibilidade disso, e essa impossibilidade só torna esse mundo mais apetitoso ao meu desejo, sempre ele, o camarada de equilíbrio tênue que deve se bastar a todo momento. Sei que se chegar eventualmente uma hora em que eu puder arrebatar esses lábios teus e sentir as pintinhas de teu corpo palpitarem junto de tua pele branca (e da minha não tão bela), minhas horas nesse mundo passarão mais rápido ainda, como se não houvesse razão para discutir o tempo, como se a salvação fosse tudo isso, um começo, apenas um começo. E que os olhos não nos enganassem tanto, lacaios da preguiça, que eles nos mostrassem desde o princípio o que nos está reservado, para que pudéssemos nos ater apenas ao começo, tão somente ao começo.
No fundo, sinto medo. Sinto medo de descrevê-la, mulher, mulher de sonho, mulher que sei que, talvez, no desejo, seja melhor que na realidade. Sei que meus olhos podem me enganar, mas sei que se o recorte chegar, com um contorno serrilhado, pronto para o ataque, eu vou ceder, vou chamar essa história de “desejo que basta” de mera babaquice, vou querer me entregar aos teus lábios vermelhos e carnais como a dor que sinto a cada dia, meu peito que estremece a cada toque de passado e meu desejo de ejetar tudo que me põe à prova. E é difícil, às vezes não sei o que ejetar, sinto só que devo ejetar, mas não sei o que. E esse é o maior medo, encarar isso sozinho, porque devo encarar sozinho, disso já me conformei, e sentir que entes queridos correm entre os dedos com implacável facilidade, que ao desviar de um olho, preso por um segundo nas asas do bem-te-vi, toda uma trama relacional de ódio e amor pode se deteriorar. Mas em teus lábios vermelhos e teus olhos vítreos cheios de volúpia, mulher que é pedra preciosa, eu sonho com um mundo novo, um mundo intocável em que tudo seja começo, só começo, sem as desventuras do passar. Mas sei da impossibilidade disso, e essa impossibilidade só torna esse mundo mais apetitoso ao meu desejo, sempre ele, o camarada de equilíbrio tênue que deve se bastar a todo momento. Sei que se chegar eventualmente uma hora em que eu puder arrebatar esses lábios teus e sentir as pintinhas de teu corpo palpitarem junto de tua pele branca (e da minha não tão bela), minhas horas nesse mundo passarão mais rápido ainda, como se não houvesse razão para discutir o tempo, como se a salvação fosse tudo isso, um começo, apenas um começo. E que os olhos não nos enganassem tanto, lacaios da preguiça, que eles nos mostrassem desde o princípio o que nos está reservado, para que pudéssemos nos ater apenas ao começo, tão somente ao começo.
Mas
eu divago, divago demais, e relembro-me que devo descrever-te, mulher que é
pedra e fogo, mulher que é ametista ou opala em ebulição. A cerveja corre tênue
pelo estômago e a fumaça acomoda os pulmões, bate um vento de veraneio e eu
vejo-te com teu vestido a florir a luz branca desse bar, teu vestido de amarelo
espalhado em azul, teu vestido que revela a fúria de teu traçado. Tua mão que
me toca é demais, é demais para alguém, boto-a pra fora nessas linhas (ou
tento, simplesmente tento) e fico até sem jeito de presenciá-la fazendo curvas
e descrevendo acontecimentos completamente banais que tua boca completa com a
voz de peripécia e quase ternura cantante. Os olhos ali e os brincos adornando
o rosto, na extremidade do nariz ou na ponta superior da orelha. Vejo-te em
meio a sardinhas (da pele tão tracejada), e isso me faz bem, mergulho em cada
uma delas e em teu peito, teu peito vasto cor de leite caramelado, leite
adoçado com mel, e o acúmulo de néctar que sobra no fundo do copo, o néctar
pelo qual se desbrava, o néctar pelo qual se entorna o copo inteiro, com força,
deglutindo nata para se chegar ao sonho tão almejado. E o desejo é vilão, pois
nos faz anelar junto da lua com coisas que nem aconteceram, traçados
percorridos vorazmente da boca aos joelhos, do cume das nádegas ao apreço da
nuca, sempre envolto por obstáculos de pele e gemido, a dor que se sente a cada
prazer que fica para trás. Vem à tona até uma lágrima com tudo isso, com teu
abraço fervoroso de última noite antes do fim, teus braços que me envolvem como
a boca da névoa na manhã de inverno, nebulosa envolvendo a via láctea, o leite
e a nata das estrelas percorridos até que o deleite do mel final seja absorvido,
sorvido, supernova, corpo após corpo, língua com língua e dente remoendo
trechinhos tão sensíveis de nossas peles tão frágeis.
Estou
chegando próximo ao meu objetivo deste domingo à tarde, que é descrever-te,
essa obrigação que me dou para fazer o tempo correr mais depressa, nem sei por
quê, pois no fim até se barganha com o universo por mais tempo, assim o vi em
todos os prestes a morrer e mortos que conheci. Relatos de sonhos e decepções
saltam similares de tua boca, de tuas bocas, mulher que faz do tempo um
brinquedo divertido. Esse tempo que me coloca na ameaça do pranto, sempre
recorrente, o suor que escorre dos olhos cansados e com preguiça. Esse tempo,
esse tempo que teima em ser diferente do esperado, o tempo que ora é e ora não
é brinquedo. Mas quero fazer do tempo um brinquedo bem simples, nada de
requintado, apenas um chocalho, desses para distrair, perfurar o ar com
trepidações, para encontrar cada vez mais nesse invólucro do nada as ocupações
que tanto me trazem prazer momentâneo e depois lamentado, uma caneca com mate
escuro, a seda dos cigarros, o barulho das chaves, as cartas e principalmente
teu corpo, mulher, mulher preciosa que de pedra não tem nada, somente a
similaridade do nome.
Vejo
que já passo da página e meia e o tempo está acabando. E acho que não faz mal
se não incorri em tautologias para falar de teu corpo, mulher, isso muitos já
fizeram com os dedos e de outra forma, mais prazerosa, aposto. O que bastou a
essas linhas de um domingo à tarde foi dizer que contigo o tempo fica leve e
possível, sempre possível, uma imensidão de possibilidades, talvez nunca
realizáveis, mas sempre repletas e recheadas de desejo e de começo, começo,
começo, começo...
"... contigo o tempo fica leve e possível, sempre possível, uma imensidão de possibilidades, talvez nunca realizáveis, mas sempre repletas e recheadas de desejo e de começo, começo, começo, começo..."
ResponderExcluirque esse começo dure ao máximo! :)
e que ele persista no apreço!
ResponderExcluire que floresça entre todos nós!
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