1.11.13


Trânsito

Lou, pequenino, não há mais tempo.
Os jornais falarão de ti amanhã. Ninguém
os lerá. Teus pobres-diabos, que vieram do campo,
agora pendulam entre o céu e o lado selvagem.
Continues a cantar, embora não saibas para quem.

Lou, pequenino, não há mais canto.
Nós ainda adoramos ver as coisas na tevê.
O que nos espelha? A androginia? O desencanto?
Cânticos gris?  As imagens que só a treva revê.
Olho nu que alucina como Eros diante de Psiquê.

Lou, pequenino, não há mais jogo.
Os miseráveis se agasalham em seus próprios abraços.
Nas esquinas, aos passantes, as putas pedem fogo.
Filas para os coletivos. Caçadores de cabaços.
O respirar álgido da noite nos cachaços.

Lou, pequenino, não há mais como.
Os jornais não falavam de ti ontem. Ninguém
ouve tuas músicas. Quem nos ofertou este pomo?
Dançaremos até que nossas ínvias vertigens minguem.
Continues a cantar, embora não saibas para quem.

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