28.5.13

Rotatória

            Passamos a manhã na cama naquele dia, falando e fumando, ou atando laços entre nossos dedos, os das mãos e os dos pés. Pouco antes, ao despertar, nem um movimento sequer de ambos. O fio do frio se insinuava pelas frestas do quarto, já brilhantes com a vinda da manhã. Na noite anterior, incontáveis cervejas no “La Covacha de Chicho”, com suas paredes de dinheiros e discos velhos, seus canecões pré-resfriados, sua mesa central, alta e única, forrada de plástico-gordura. Também esse resquício era um obstáculo ao nosso mover-se, não apenas o frio. Mas, corridos minutos, já de pé e corajoso, frente a janela recém-aberta de fuça pro pátio, veio-me a vibração elevada do céu nublado, carregado, e disse a ela:
            - Que manhã mais londrina, não? Vontade de ficar na cama, fumando e falando.
            - Hmm... seria ótimo. A fumaça fica muito mais gostosa no frio. – ela soltou, baixinho, ainda na cama, de orelhas cobertas, de voz caramelada.
            Tínhamos planos, importantes, mas facilmente ficaram para trás. Irresponsáveis. Optamos pela preguiça, pela onipotência. Pulamos o café da hospedagem: encerrava-se cedo, às nove. Depois, horas depois, percorrida com a fala e muitos tragos uma vereda que principiou em passagens de Apollinaire e findou, lá na frente, no gosto pelo amarelado de antigas fotografias, pulamos da cama. Das paredes parecia brotar fumaça, do cinzeiro pareciam brotar bitucas. Então vestimo-nos e saímos, para andar e ver coisas, pois era isso que fazíamos na época, andávamos e víamos coisas, e em seguida sempre sentávamos, falávamos, bebíamos e fumávamos, discutindo novas coisas a se ver. Cúmplices de instantes.
            O albergue já para trás, duas medialunas e uma limonada em cada estômago, nossos passos prosseguiram por si sós, autoguiando-se. De fundo, rua adentro, oscilava um tapume de tons urbanos, por vezes tingido por nossas vozes. Mal percebíamos, caminhos largados.
            Desembocamos numa rotatória. Há um mês e meio vagávamos por Buenos Aires, fugidos, quase já esquecidos, pensávamos. Conhecíamos bem San Telmo. Mas não aquela rotatória. Sobressalto.
            Algo radioso nascia nela. Feito um reator nuclear, provocava um povoamento efervescente em torno de si. Parecia coordenar o parto dos deslocamentos, de todos os deslocamentos. Seguimos distraídos, até seu centro. Lá, um banco circular, no qual nos sentamos. Falávamos, qualquer coisa. O banco torneava um parquinho; então, aos ouvidos, bem pertinho, eram só meninices sapecas, só que em castelhano. Gentes. Aos montes. Nessa rotunda eu e ela, e circulando em torno da rotunda (que agora era nós) viam-se bicicletas, uma branca e vermelha em especial, repetindo-se às retinas, e um ar carregado de que a chuva viria, atentando contra a brasa recém-acesa de meu cigarrinho recém-bolado, feito daquele fumo doce que eu andava carregando nos bolsos desde o Uruguai. Era provável que a água caísse em breve. O tom do vento entregava o futuro próximo, como cartomante. Mas tal previsão não chegava a proibir o nascimento dos sorrisos e a ocupação das calçadas. Mais e mais, tudo desabrochava.
         De pés cansados e vestígio de limão na língua (agora formigando por conta do fumo), olhava-a, focalizava-a, enquadrava sua boca, e mais ondas pareciam brotar nos rastros laterais que os olhos nos dão. Ela vestia florido, provável. Eu, branco, provavelmente. Mas de probabilidade só isso, pois do resto só se extraía afirmação, competente, de que dali pra frente só mais gente ocuparia a rua no tempo de um cigarro em risco. Mas nós nos olharíamos, nos ouviríamos e continuaríamos fumando e falando, parados no centro do movimento, no motor da rotatória, dando à luz, pouco ligando para o porvir quiçá sombrio, para a chuva que parecia já cair, salpicando os passeios.
           Se bem lembro agora – tanto tempo há atravessado no caminho – dias depois nos acharam e nos prenderam.

Um comentário:

  1. adoro o quanto você seduz no jeito que escreve. ficaria o tempo todo relendo esse texto, que me leva para o passado mais que minha memória.
    cúmplices de instantes, realmente nos define...
    :,)

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