Passamos a manhã na cama naquele dia,
falando e fumando, ou atando laços entre nossos dedos, os das mãos e os dos
pés. Pouco antes, ao despertar, nem um movimento sequer de ambos. O fio do frio
se insinuava pelas frestas do quarto, já brilhantes com a vinda da manhã. Na
noite anterior, incontáveis cervejas no “La Covacha de Chicho”, com suas
paredes de dinheiros e discos velhos, seus canecões pré-resfriados, sua mesa
central, alta e única, forrada de plástico-gordura. Também esse resquício era um
obstáculo ao nosso mover-se, não apenas o frio. Mas, corridos minutos, já de pé
e corajoso, frente a janela recém-aberta de fuça pro pátio, veio-me a vibração
elevada do céu nublado, carregado, e disse a ela:
-
Que manhã mais londrina, não? Vontade de ficar na cama, fumando e falando.
-
Hmm... seria ótimo. A fumaça fica muito mais gostosa no frio. – ela soltou,
baixinho, ainda na cama, de orelhas cobertas, de voz caramelada.
Tínhamos
planos, importantes, mas facilmente ficaram para trás. Irresponsáveis. Optamos
pela preguiça, pela onipotência. Pulamos o café da hospedagem: encerrava-se
cedo, às nove. Depois, horas depois, percorrida com a fala e muitos tragos uma
vereda que principiou em passagens de Apollinaire e findou, lá na frente, no
gosto pelo amarelado de antigas fotografias, pulamos da cama. Das paredes
parecia brotar fumaça, do cinzeiro pareciam brotar bitucas. Então vestimo-nos e
saímos, para andar e ver coisas, pois era isso que fazíamos na época, andávamos
e víamos coisas, e em seguida sempre sentávamos, falávamos, bebíamos e
fumávamos, discutindo novas coisas a se ver. Cúmplices de instantes.
O
albergue já para trás, duas medialunas
e uma limonada em cada estômago, nossos passos prosseguiram por si sós,
autoguiando-se. De fundo, rua adentro, oscilava um tapume de tons urbanos, por
vezes tingido por nossas vozes. Mal percebíamos, caminhos largados.
Desembocamos
numa rotatória. Há um mês e meio vagávamos por Buenos Aires, fugidos, quase já
esquecidos, pensávamos. Conhecíamos bem San Telmo. Mas não aquela rotatória.
Sobressalto.
Algo
radioso nascia nela. Feito um reator nuclear, provocava um povoamento
efervescente em torno de si. Parecia coordenar o parto dos deslocamentos, de
todos os deslocamentos. Seguimos distraídos, até seu centro. Lá, um banco
circular, no qual nos sentamos. Falávamos, qualquer coisa. O banco torneava um
parquinho; então, aos ouvidos, bem pertinho, eram só meninices sapecas, só que
em castelhano. Gentes. Aos montes. Nessa rotunda eu e ela, e circulando em
torno da rotunda (que agora era nós) viam-se bicicletas, uma branca e vermelha
em especial, repetindo-se às retinas, e um ar carregado de que a chuva viria,
atentando contra a brasa recém-acesa de meu cigarrinho recém-bolado, feito
daquele fumo doce que eu andava carregando nos bolsos desde o Uruguai. Era
provável que a água caísse em breve. O tom do vento entregava o futuro próximo,
como cartomante. Mas tal previsão não chegava a proibir o nascimento dos
sorrisos e a ocupação das calçadas. Mais e mais, tudo desabrochava.
De pés cansados e vestígio de limão na língua (agora formigando por conta do fumo), olhava-a, focalizava-a, enquadrava sua boca, e mais ondas pareciam brotar nos rastros laterais que os olhos nos dão. Ela vestia florido, provável. Eu, branco, provavelmente. Mas de probabilidade só isso, pois do resto só se extraía afirmação, competente, de que dali pra frente só mais gente ocuparia a rua no tempo de um cigarro em risco. Mas nós nos olharíamos, nos ouviríamos e continuaríamos fumando e falando, parados no centro do movimento, no motor da rotatória, dando à luz, pouco ligando para o porvir quiçá sombrio, para a chuva que parecia já cair, salpicando os passeios.
Se bem lembro agora – tanto tempo há atravessado no caminho – dias depois nos acharam e nos prenderam.
De pés cansados e vestígio de limão na língua (agora formigando por conta do fumo), olhava-a, focalizava-a, enquadrava sua boca, e mais ondas pareciam brotar nos rastros laterais que os olhos nos dão. Ela vestia florido, provável. Eu, branco, provavelmente. Mas de probabilidade só isso, pois do resto só se extraía afirmação, competente, de que dali pra frente só mais gente ocuparia a rua no tempo de um cigarro em risco. Mas nós nos olharíamos, nos ouviríamos e continuaríamos fumando e falando, parados no centro do movimento, no motor da rotatória, dando à luz, pouco ligando para o porvir quiçá sombrio, para a chuva que parecia já cair, salpicando os passeios.
Se bem lembro agora – tanto tempo há atravessado no caminho – dias depois nos acharam e nos prenderam.
adoro o quanto você seduz no jeito que escreve. ficaria o tempo todo relendo esse texto, que me leva para o passado mais que minha memória.
ResponderExcluircúmplices de instantes, realmente nos define...
:,)