Através da janela do café, um esqueleto de prédio me encara, sob um pano
velho e opaco de obra em curso, mas sem operários, apenas a fantasmagoria de uma
carcaça mirando um céu que parece gesso contaminado. Cinza versus cinza. Mas olho
ao fundo, o facho de luz da tarde que vai-se embora, como pepita que cai do pano-de-
chão sujo e úmido que é essa cidade, pepita de um ouro novo que se alastra em novos
colares no pescoço da noite fresca, presenteando os olhos, da sujeira do fim do sol
nascem as lâmpadas e o fogo das vidas resistindo ao escuro, movimento que não
cessa. Soam uns sinos bem longe, seis batidas para o ritual da hora que chega ou parte
ou nasce ou dorme, e respira-se o fim do infinito, com vozes e buzinas, trens e rastros
alados de carros.
Penso, esperando, que boa parte da vida consiste em esperar. Programar-se
mais do que fazer-se, do que construir-se. O barbante dos momentos pelas bifurcações
da ausência espaço-tempo, definitiva num instante. Porque espera é assim, tempo e
espaço trafegando independentes, paralelos sem encontro, sem ponto nodal. Soltos um
do outro, casal por encontrar-se até o aguardado segundo da trombada.
Andando, agora sentado, bebo. Riscos numa página. Aguardo um amigo por
chegar. Opera em mim a ópera da espera, gorda com os fenômenos da distração.
Teso, concebo, sem fio da meada. Lembro, olho. Esperar sendo construção, não
suspensão dos atos. Talvez? Bem não sei. Sigo a morte instantânea dos segundos, um
tanto longínquos dos centímetros.
Olho a mulher ao fundo do salão, que lê. Lê ou não, folheia páginas. Numa
revista de figuras famosas reside sua distração. Olho-a de longe, apoiado, com meia
xícara de café perto do queixo, com o céu pela janela enegrecendo nossos poros.
Olho-a olhando celebridades de biquíni, de sorrisos, de vestidos. Mata o tempo,
folheando papel, os dedos na ponta de cada página, jogando para trás a luz que vai
embora lá em cima de todos, a luz que já acesa fica confinada na lâmpada do teto em
cima de nós.
Uma mulher que busca celebridades de papel, ao pé da rua, dos estandes.
Agora não são meus olhos, são meus neurônios que operam o que vejo, o que mais
que vejo, o que sinto deformado, recordação refém do tempo. Vejo lá que o quiosque
adentro contém as novas do mundo pelos idos de 99, pelos idos da infância
destronada, novas impressas em papel ainda novo. Há de se dizer que eram novas
nem tão boas assim, até onde chegava meu entendimento para avaliá-las. Mas novas
mesmo assim eram, todos no quiosque olhavam-nas mesmo assim, absortos, os lagos
dos olhos consumidos por letras, e penso agora a razão, a razão desta fixação, ou a
razão de jornais nas mãos de gente querendo matar os minutos, assassiná-los sem
senti-los, como os vagabundos à espera das oportunidades, os vagabundos apoiando-
se tanto nos jornais, como Poiccard em “Acossado”, ansioso pelo futuro, ou os
imorais cariocas de Nelson Rodrigues matando o trabalho, confabulando com o jornal
nas mãos, ou até aqueles vagabundos não por profissão, vagabundos de tempos em
tempos, quando a hora requer, como aqueles compartilhando a sala na universidade
comigo, aquela com piso de taco e velhas janelas furando a tinta rosa do prédio, já
descascada, e o professor de economia tagarelando sobre as crises, pois é só sobre
isso que falam os economistas, sobre crises, e cogitar engraçado e até trágico que eu
quis por um tempo me tornar um membro dessa confraria, achando que assim
compreenderia melhor os desníveis do mundo, quando em verdade esse nicho de
numerólogos só cria mais desníveis no mundo. Mas larguei essa ideia, e era eu um
dos vagabundos temporários que abria e folheava com som de tédio, página por
página, o jornalzinho do metrô na aula de economia, tanta gente e juventude nas
carteiras ao lado assim fazendo também na langorosa manhã de raios brancos
acendendo nacos de pó, num rito íntimo e mecânico, fábrica de vagabundos
silenciosos no antro da sala antiga, até o dia em que caiu sobre mim um esporro do
professor de óculos no nariz curto e cinto mal colocado na calça, “jornal na minha
aula, não!”, aquele que colocava esticadinha e exposta uma foto do Marx num
pequeno cavalete em cima de sua mesa, para que aquele espectro barbudo nos olhasse
enquanto ouvíamos sobre a mais-valia, para que soubéssemos com quem estávamos
lidando.
Mas volto a ser pequeno enquanto sou grande, enquanto espero meu amigo,
volto a ser o menino na banca de jornal na cidade cor de creme do Sul de Minas, com
minhas tias indo comprar figurinhas, bolinhas, livrinhos ou quadrinhos de Asterix, e
tantos outros “inhos” e “inhas”, diminutivos de quando somos diminutos e falamos e
entendemos o mundo todo assim, e reina um gigante desconhecido acima de nós,
sabendo, invulnerável, tudo que se pode e não se pode, se deve e não se deve, se faz e
não se faz, dedo hasteado ditando. Reaparecem aqueles tubarões que apavoravam meu
sono no quarto miúdo do fã e torcedor da Roma que eu era (minha avó me
presenteando com a camisa da equipe da cidade eterna depois de uma viagem até lá
para poder ver ao vivo o Papa), quantos jogadores que eu ficava desenhando no
caderno grande de folhas grandes e brancas na aula de artes, copiando-os das fotos
dos suplementos de esportes que meu pai lia e deixava no chão da sala de casa, ao
lado de sua poltrona, o jornal que aos fins de semana também o tornava um tantinho
vagabundo, de pijama e sem a barba feita, com os pés enormes arriados por sobre o
sofá vizinho, assobiando de um jeito diferente, um assobio aerado, com a língua entre
a arcada superior e a arcada inferior dos dentes, deixando-se ir no deixar-se ir do
Sábado, do Domingo, derretendo na cadeira como chocolate que explode quando o
colocamos no microondas. Será que o jornal trazia para ele o que ele queria saber e
que talvez nem sabia que queria saber? As celebridades de papel trazem para a mulher
ali da mesa aqui na frente o que ela quer saber?
O jornal de manhã chega cedo
Mas não traz o que eu quero saber
As notícias que leio, conheço
Já sabia antes mesmo de ler – ê, ê
Traz? Gil acha que não, pelo que disse aí em cima, nos idos lá da tropicália. E faz
tempo já isso, quero dizer, será que desde então o jornal passou a trazer para as
pessoas o que elas procuram? Ou será só uma maquinaria do esperar, fatos para se
poder tragar o tempo mais suavemente, docemente, planura para ajudar a correr e
tornar os minutos mais lisos e menos perdidos?
Me chegam aquelas tardes modorrentas, quentes e claras também nos idos de
99, quando o sol parecia estanque no céu, e a gravura do que se via pela janela de meu
quarto era sempre a mesma, natureza morta ou paisagem pintada na imobilidade
própria de estilo romântico, só que não tão romântica assim na temática, urbana, sim,
perene, cortada por carros e ônibus e janelas mil naqueles prédios que sempre
pareciam tombar, mas que nunca tombavam. Eu fechava os olhos, era a hora pós-
escola, e com preguiça de fazer a lição, eu logo me cansava da TV e das bolinhas e
revistinhas, e saía pelos cômodos do apartamento para procurar o que fazer, como
esperar, e eu nem devia pensar no verbo “esperar” naquela época, eu só devia pensar
que era assim a vida, que era isso, então eu pegava um jornal velho do chão e
desenhava suas imagens, copiando-as no meu cadernão de artes tão bem avaliado pela
baixinha professora lá da escola, a professora que nos ensinou até a bordar e a fazer
recortes e modelar argila para que pudéssemos criar um ponto nodal entre espaço e
tempo, assim ela dizia, criando livres, sem nem saber que fazíamos isso, apenas o
fazíamos naquela grande sala com mesas enormes, deitados no chão frio e azul, como
eu me deitava no chão frio de madeira em minha casa, depois de cansar de desenhar, e
tentava ler o jornal velho sem os meus óculos, para saber se conseguia encarar o
mundo sem aquele par de vidros que usava desde os 7, idade na qual foi descoberto
meu problema ocular, minha mãe me observava vendo a TV bem de pertinho, quase
colado na tela, e dizia a si mesma “de duas, uma: ou o menino não escuta, ou não
enxerga”, e o fato é que eu não enxergava, porque escutar eu escuto muito bem,
lembro-me direitinho dos sons das tardes de minha infância, suas profundidades, erros
e acertos auditivos, a trama de carros, passarinhos, martelos de operários e crianças
gritando, ou ônibus passando, tudo significando atos e eu na ignorância completa e
deliciosa dessa complexidade, apenas pensando que minha cabeça começava a pulsar
mais forte e a traseira de meus olhos doía um pouco quando eu matava o tempo da
minha infância tentando decifrar sem os óculos o que era um jornal, esse espelho do
mundo em letras e fotos e papel que suja os dedos, o jornal que é o pior dos vícios,
assim constatei outro dia, lendo-o no trabalho, vagabundiando momentaneamente
entre uma tarefa e outra, deixando o tempo escorrer regado pela enxurrada dos ruídos
das teclas dos computadores vizinhos, constatei que o jornal, não trazendo esperança
alguma, só mesmice diária, só mais espera, se torna um novelo para desfiarmos como
gatos enquanto foge o dia entre um algo e qualquer outra coisa, abro um jornal e,
triste, quero-o todo, quero sua sujeira em minhas digitais, a sujeira nacional e
mundial, as cores eventualíssimas de um fato ou outro (me descubro vagabundo por
princípio!), vício que me manda para longe, vício da informação inócua para
esquecer-se do tempo, do retrato mal feito e diário que carrega o homem para frente,
ou não, sei lá para qual direção, mas sempre fazendo-o esperar, esperar, esperar e...
Largo então os olhos mergulhados em mim mesmo, vítreos, que haviam se
perdido na vereda da revista de celebridades que a mulher da mesa da frente folheava,
mulher que nem mais ali está, partiu enquanto eu partia dentro da minha espera.
Largo os olhos, permito que se movam novamente, memórias para longe, subitamente
a realidade renascida ao meu redor. Vejo meu amigo que vai entrar pela porta do café,
com um jornal dobrado debaixo do braço, jogando a bituca do cigarro no meio-fio da
rua. Creio que ele também, vagabundo, andou esperando por aí até o presente
momento.
bravo!
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