Concebi uma hipótese, de fim ainda incerto e nua de grandes arremates no
corpo da trama. É preciso, no entanto, contá-la, antes que envelheça, antes que perca o
frescor de fruto no prestes a tombar. Cá por dentro, vejo que balança num galho,
arranhando volta e meia o crânio. É preciso, pois sim, ordená-la, e a escrevo (afinal,
sinto-a...) como ordem do dia, receita de bolo em papel amarelo, rabisco em
adolescente caderno.
Sigamos, assim, deste jeito rascunhado. Importar mesmo, só que a hipótese se
deu deste modo: mapeando enciclopédias internet afora, entediado, sem grandes
inspirações nem pretensões para uma tarde nublada, sem sono, incerto do que queria,
vasculhei, vasculhei sem propósito, até que caiu-me nos olhos, após oscilações
dispersas, um texto sobre os Sumérios. Em registro, dizia o texto, trata-se da mais
antiga civilização da história da humanidade. Fucei mais, então, aos poucos atiçando-
me pelas referências geográficas, pela organização política e pelo legado deste povo
até o hoje atual. Soube que diz-se terem eles inventado a roda e a cerveja (abençoados
sejam). Tantos outros fatos fui esclarecendo, deuses, grãos, edificações e
instrumentos. Fui correndo o texto, por vezes saltando dados. Chegando na passagem
que se referia ao idioma, porém, detive-me. Ali se afirmava que a língua suméria é
uma língua isolada, ou seja, não se relaciona intrinsecamente e de forma direta com
nenhuma outra língua por nós conhecida. Impossível encaixá-la em qualquer árvore
genealógica de idiomas. Algo como o que se diz do Basco e do Húngaro atualmente,
filhos únicos de não se sabe quais pais. Talvez, longe no passado, as línguas
originárias dessas vertentes órfãs que chegaram até nós tenham sido as de grandes
negócios, de grandes poetas, de grandes vastidões de terra, com festas, comércio e
cultos. Hoje, todavia, o que restou disso não passa de curiosidade de periódicos ou
casos de resistência e nacionalismo extremos, cantinhos do mundo que não soçobram
aos ímpetos universais de uma outra língua em seu apogeu.
Mas voltando, ali na enciclopédia, descendo algumas linhas, também se
creditava aos Sumérios a invenção do sistema escrito humano mais antigo conhecido,
a escrita cuneiforme. Diversos especialistas deliciam-se mundo afora na criptografia
de cartas de negócios, leis, rezas, matemática e astronomia produzidas por esse povo,
em textos quase farelos, sem qualquer tipo de estrutura gramatical sólida. Tal sistema,
pictográfico, recai sobre desenhos, signos rústicos expressando conceitos e ideias. Por
exemplo, o desenho de um barco traçado com outros sinais diversos significaria que o
interior da embarcação estava carregado ou não. E assim se iria por diante, com
outros signos, códigos paridos pelo anseio da representação. A escrita suméria, de
acordo com historiadores, pré-dataria inclusive os hieróglifos egípcios em pelo menos
75 anos. Estaria ali o primeiro poço de conhecimento produzido e registrado desde
que o homem ocupa o espaço.
Desligando o computador, após finalizar o artigo, logo me esqueci de seu
conteúdo. Comi, tomei banho, trabalhei um bocado, dormi. Experimentei, porém, uma
estranha noite de sono. Não poderia reproduzir aqui o teor imagético e sensorial dos
sonhos que tive. Era como se eu houvesse presenciado, em cogitações inconscientes e
oníricas, os rituais e a vida diária de um povo muito antigo, vivendo ali naquele
tempo, mordendo a terra e o ar com violência cotidiana, fazendo parte de outro
instante com outros humanos, num vácuo vazio de época, numa tormenta das idades.
Aqueles seres de meus sonhos não eram, necessariamente, os Sumérios, mas
foram certamente influenciados pelo texto que eu havia lido. Até aí, nada demais. Um
eco daquela experiência, no entanto, mesmo que incerto, manteve-se ressoando em
mim, ofegante, durante semanas. Pensei sobre aquilo, sonhos e Sumérios. Uma gente
antiga, milenar, de mesma espécie que a minha, humana, de corpo e constituição
física similares, órgãos, braços, coração e respirar, havia cruzado por esse mundo,
olhando a natureza e modificando-a, tal qual, em princípio, os seres que dividem
minha época comigo, apesar da diferença de contextos. Num clique, então, “senti”
esta gente ao meu redor. Sussurravam em meus ouvidos segredos anciãos, primeiras
impressões do céu, fugas, fogos, caças, negócios. Fui, em determinados momentos,
tomado por um transe, viagem temporal sem máquina nenhuma, só com aquela que
me foi dada desde o parto: a consciência. Êxtase. Homens distantes, tão distantes que
nem homens parecem ter sido, entidades longínquas, existências agora
enciclopédicas, afogadas no tempo e na distância, quase tão imprecisas em aparência
quanto a mais remota das galáxias. Mas eu os senti. Um fio condutor estabeleceu-se,
de alguma forma. Comunicação. Criação sob a égide de um código, código como este
que uso para palavrear esta minha experiência.
Direi algo. Isoladamente, tal frase pode resultar até em hospício. Mas é preciso
arriscá-la. Digo: eu falei com os Sumérios.
Como relatado, estive incomodado por esta situação durante algumas semanas.
Passou-se. O que me incomodou depois, no entanto, foi outra ocorrência, originária
da primeira. Trata-se da tal da hipótese com a qual principiei este texto, esta que me
fez pegar o caderno e começar isso tudo. Até onde a tenho, a hipótese se propaga
desta forma: uma vez que a invenção não está submetida ao registro, onde será que se
encontram, na história do tempo, os primeiros vocábulos mentalmente organizados
pelo homem? Em outras palavras, onde se deram, e de que forma, as primeiras
palavras já verbalizadas por um ser humano? Os Sumérios constituem o primeiro
“registro” que temos. Mas antes disso os homens já falavam, não? Qual o ponto
inicial? E mais além eu ainda vou: será que no mundo de hoje não existe alguém ou
algum pequeno aglomerado de gente num recôndito esquecido pelo sistema que
mantenha essa tradição fundadora da palavra, que guardou essa informação na
clandestinidade, por séculos e séculos? Alguém ou alguéns que preservam consigo o
segredo do parto da linguagem?
Quase adoeci por conta desse delírio. Passei por uma pequena elevação de
temperatura corporal e por diversas noites mal dormidas e dias mal acordados. Em
diversos deles, a transição entre a inconsciência do sono e a consciência da vigília se
dava de forma estranha, bizarra. Acontecia muito rapidamente. O tempo e o espaço,
durante as horas normais, pareciam submetidos a uma dinâmica esquisita e peculiar.
Ficava a vaga impressão de que não restavam distâncias incólumes.
Estranhamentos a parte, depois do período febril veio a resignação. Eu nunca
poderia saber a verdade sobre o nascimento da palavra, nunca poderia saber qual foi a
primeira palavra já vocalizada. Fui me acalmando, então, aos poucos. E dessa calma
que agora me faz escrever surgiu uma flor da imaginação. “Narrar é resistir”, disse
Guimarães Rosa. Minha mente, por si só, resolveu, então, resistir a angústia da
dúvida: comecei a narrar. Nesse encanto, surgiu algo, uma possibilidade para meu
recente tormento. Uma historieta, recital, relato. Mentira, talvez. Mas mais que isso.
Ficção. Alegoria. Ei-la, ainda incompleta, demandando refinaria, aperfeiçoando
indiretamente a hipótese inicial deste texto:
Um antropólogo recém-formado, sedento por aventura longe da Academia e
sem ideias claras para um projeto de mestrado, decidiu por fazer uma grande viagem.
Mochila nas costas, saiu de Portugal, terra-mãe, e cruzou Europa e parte da Ásia até a
Rússia. Lá chegando, no delírio, encontrou a própria ruína.
Digo a razão: sob frio, num ardor inconsequente, buscando o brio que não lhe
davam os livros, enfiando-se por um caminho não recomendado pelos locais que
conhecera em uma pequena cidade, embrenhou-se em entremeios ocultos na fronteira
entre o Cazaquistão e a Rússia. Horas caminhando, arrependendo-se, sentia se afastar
progressivamente do tempo. Perdeu-se até da perda, no coração da Ásia Central.
Beirando o caos, sem função qualquer já o mapa de bolso, o antropólogo
passou incontáveis noites a acampar em meio a terrenos inóspitos, virando-se todo
para poder achar algo digno de mastigação. Uma ingênua caminhada tornou-se a
sobrevivência.
Numa tarde qualquer, um pouco diferente, arroxeada, estranha, de ar doce,
andou distâncias que não se contam. Não tinha mais esperanças de alcance, andava
por andar, mais maquinal que consciente. Mas nesse estado foi que encontrou o início
do abismo.
Lá ao fundo, enxergou um povoado. Barracas como chapéus de magos
brotavam do chão árido. Receoso, aproximou-se. Foi quase abatido por um homem de
porte estrondoso, barbudo. Tal homem só não o matou a golpes de lança pois foi
cegado por um brilho que brotava no peito do forasteiro: uma bússola já esquecida,
pendurada no pescoço, refletindo o último lastro de sol daquele dia. O gigante
barbado ajoelhou-se e, grunhindo em idioma inaudível, clamou pela companhia dos
outros viventes da tribo. Muitos foram se aproximando, ensimesmados e receosos,
velhos, crianças, mulheres e guerreiros. Acolheram-no. Deram-lhe comida e abrigo.
Num tempo sem tempo, vivenciando aqueles dias sem horas, o antropólogo foi
resgatando um fio da razão que lhe sobrava. Aquele povoado era um trabalho de
campo, parecia não ter contato algum com o resto do planeta. As pessoas emitiam
sons ensurdecedores para se comunicar, e viviam de forma primitiva, bárbara. Tê-lo-
iam matado e provavelmente comido não fosse uma bússola brilhando no crepúsculo.
Semanas depois (vagamente, tanto quanto podia, o antropólogo mantinha a
contagem dos dias), homens da tribo levaram-no até uma espécie de sacerdote,
indivíduo que não saia de sua barraca, esta, por sua vez, infestada de fumos e odores
repugnantes. Ali os dois homens distintos entreolharam-se por longos momentos e,
finalmente, arriscaram com sinais uma primeira comunicação. Assim foram fazendo
por algum tempo.
Muito depois, o antropólogo resignou-se em permanecer em meio àquela
gente. Não sabia mais o que cogitar sobre o aglomerado, nem saberia dali sair. Seu fio
de razão remanescente foi se tornando inútil. Tentou uma vez escapar, desesperado
por reencontrar a civilização. Mas não o deixaram ir, por ordens expressas do
sacerdote. O homem do peito brilhante era valioso demais.
Foi-se embrutecendo. Barba crescida, animais bisonhos sendo devorados
levemente crus. Aprendeu, muito tempo após, a comunicar-se como a tribo, com a
tribo. O sacerdote lhe ensinava com paciência e dedicação os mistérios daquele povo.
Conversavam diariamente, banalidades e coisas rudimentares do espírito. Hábito após
hábito, o antropólogo se tornou um aprendiz. Foram muitos ensinamentos de poções e
rituais, danças, passagens e fornicações. Aquele povoado de cerca de 100 pessoas
mantinha-se procriando dentro de si mesmo, indefinidamente.
Foram-se quase 20 anos. Chegou o dia em que o sacerdote chamou o aprendiz
ao topo de um morro vizinho a aldeia. Disse-lhe que estava velho e que sentia que iria
morrer em breve. Precisava, antes disso, passar-lhe o maior conhecimento que
detinha, o maior conhecimento que vagava pela terra: a chamada palavra primal.
Contou-lhe, em meio ao vento, que a tribo era herdeira do ser que vocalizou a
primeira palavra na história do planeta. Geração atrás de outra, o primeiro vocábulo se manteve, incólume, nas bocas dos muitos sacerdotes, resistindo a impérios e
intempéries.
Manter a palavra primal custou àquela gente uma interação maior com o
mundo. Os sacerdotes temiam por uma dizimação que colocasse em risco tão grande
conhecimento. Conhecimento que seria, agora, passado a um ocidental que se perdera
no tempo por teimosia e ousadia, detentor de uma simples bússola que lhe conferira
caráter quase divino aos olhos daquelas pessoas.
O sacerdote afirmou-lhe que, antes do dia de sua chegada, não tinha um eleito
no povoado para o qual passaria a tradição. Não enxergava ninguém capaz daquilo.
Sentia todos os dias que morreria com aquele fardo, sem poder passá-lo adiante.
“Mas”, disse, “o homem do peito que brilha nasceu”. Ali estava o novo responsável
pelo peso, um português, em espírito, da estirpe dos primeiros desbravadores
marítimos, com responsabilidade até maior que a daqueles.
Fato é que até hoje não se sabe qual é a palavra primal. Os velhos cazaques
que contam esse conto só sabem afirmar uma coisa ao fim e ao cabo: aquele simples
antropólogo, ao ouvir as sílabas que carregavam o primeiro ímpeto, o mais primordial
ato de comunicação de toda a história, a primeira de todas as palavras, enlouqueceu
de pronto. Alterado, matou o sacerdote com os punhos e convenceu, com a bússola
em mãos, toda aquela tribo a se entregar ao suicídio. Aniquilou tudo, queimou as
barracas e as pequenas plantações. Depois vagou terra afora, até um dia ser
encontrado por um pastor de ovelhas no meio do nada, caído e com a barba chegando
até os joelhos, escondido atrás da sujeira do tempo. Foi levado até a cidade mais
próxima. Em meio aos delírios, apontava energicamente para a bússola pendurada ao
pescoço, gritando.
Um dono de circo local resolveu usá-lo como atração. Descobriram, depois de
algum tempo, em meio a uma porção de frases, que o homem falava em português. O
circo chegara até a capital do Cazaquistão, Astana, e na tenda de bizarrices o homem
era apresentado sob a alcunha de “a loucura personificada”, tão aterrorizante era a sua
expressividade natural. Num dia de espetáculo qualquer, um professor de francês que
por ali passava, entre as atrações, entendeu vagamente palavras em uma língua que
identificou como português. A atenção captada, escutou o que o louco dizia. O velho
repetia a sua própria história, infinitamente, gritando e de olhos entupidos, sob olhares
impressionados, sem que ninguém o compreendesse, o que dava mais ênfase ao
caráter da atração.
O professor não compreendeu por completo o relato, visto o seu mísero
conhecimento de português, baseado em termos comparativos com o francês. Mas,
mesmo assim, passou a história adiante, contando-a a conhecidos. E pelos dias e
bocas que passou ela se foi alterando. Chega até nós dessa forma. O que nunca se
alterou, no entanto, é o desfecho do relato. Seu sentido se mantém, mesmo que as
palavras sejam trocadas. A frase de encerramento da história do velho louco era
sempre algo assim: “Sucumbi por completo ao mais velho vocábulo do mundo!”.
Conta-se ainda, por fim, que naquele mesmo dia no qual o professor visitou o circo, lá
pelo fim da tarde, o outrora antropólogo deixou este mundo, levando consigo o
segredo da fala.
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