26.3.13

leves lebres

         leves lebres, distintas e distantes, correndo corpo a fora com massa etérea, rabiscos e cortes, dilacerações. ao todo, numerosos filhotes crescendo de uma luz de pele clara, com sorrisos vaporosos, ocupando as camadas da galáxia de cada um, de cada todos. força descoberta, arquipélago a ser povoado. e a ânsia da chegada, do firme vento arrastado por pernas quase pétalas, deslocadas de seu espaço habitual, aquele em meio às flores e aos lábios. a saga do vulto da proliferação, zumbido, risco traçado na folha do mistério, na folha das datas, nas palavras que perdem as beiradas e a sanidade, e que só se encontram ao avistar-se a terra firme do rosto a ser desbravado. navegar é preciso, dizia um povo. e disse bem. dessa fôrma de formas, desse rápido enlace com a natureza, surge o descaminho do delírio, da brevidade, da primeira visão eterna que se destila sobre as bochechas, pegando fogo, molhando sertões e secando florestas, abismos das metades de noites em calor tropical quando a voracidade de tintas mal impressas no corpo escapa do espaço a ela designado, tal qual luzes e pássaros no trânsito da rua povoada. recebo tal vertigem como a palma de uma mão que se quer falar dita e encarada, realmente desfolhada nos carinhos e no sofrimento do além-corpo que se mostra justamente em todas as extremidades, como pequenos insetos de movimento em aparente desordem. incêndio, assim, incendio-me, na expectativa mentirosa a curva perdida do porvir, o laço com o ar, as experiências encolhidas perto ao mar do mundo, perto ao mundo dos mares, águas vastas sem pernas cruzadas, sem precipícios, terrível unidade da beleza vasta, do povo esquecido e submerso no covil de sonhos e de cabelos afagados ou dedos formigando. pois partir não é nada a não ser, é só ato incontido, submisso às verdades e ao muro da construção humana, do pavor das linhas e das feridas, de minhas sementes para sempre perdidas em pequenos sapatos de pequenos pés femininos, de sorrisos ensaiados, de aguardo doloroso pela palavra talvez final. sentidos rasgados do cume escondido, de sombras grossas como fumaças indígenas, perder as imagens da perdição, do equívoco, a escravidão perante o acaso das formas desconhecidas, do riso intrépido quase agonizante de prazer, agudo próximo aos ouvidos e aos membros. e o vento, o vento fazendo cerrar as pálpebras como duas doces uvas, o lamento que ele carrega de tudo que se provou perdido, esquecido nos vãos da incandescência, no buraco onde homens carregam quimeras e poços, e passos passam ao transmudarmos os olhos já calados pela pontada do impossível, das profecias recitadas, dos vestidos enfeitiçados, longos e cálidos como cortinas de verão aderindo ao corpo num respiro de chuva, numa volta cíclica perante a realidade da poesia, do choro e dos apitos sagrados. 

Um comentário:

  1. Aceitei sua sugestão de ler essa prosa poética sem outra intenção a não ser sentir... Um voo lírico, um mergulho na diversidade de imagens possíveis- prováveis que pairam na imaginação. Me lembrou Iluminuras/Iluminações, Henry Miller e a Primavera Negra, os Abismos de Jim Morrison e um aceno para Breton (ou Lautreamont?).

    Érico

    ResponderExcluir