15.1.13

Pausa


Ao florescer,
sou uma pausa.

Recolho para minha
fala um silêncio invernal,
como bochechas na madrugada.

Recolho para as
pestanas o espanto pueril para
com vozes caramelizadas e tijolos.

Recolho para a
face a monotonia fresca
do navegador em mar alto,
sempre com o mesmo horizonte na borda
do queixo.

Recolho para o
corpo o vazio do alpinista
que escala pico ante pico, pé com pé, marreta pós marreta
e sem a consciência de
deixar incontáveis horas de
passos perdidos na beirada de
pedras e o mundo ao fundo.

Ao florescer,
sou uma pausa,
sou o tempo de um fio de barba,
sou uma saia de frutas num
vento de oceano,
sou a perspectiva igualitária
do sujeito que esvazia os olhos
e preenche a testa com os recantos
mais incandescentes do tempo já partido como estilhaços de forças gravitacionais.

Atinjo
serenidade e gravidade equivalentes a
das úmidas ruínas
de um poço
vazio
ainda vibrando no eco
do ontem.

Ao florescer,
sou uma pausa.

Uma pausa
sem som.

Um comentário:

  1. essa primeira estrofe, tem uma tal força. sinto um eco de Ungaretti.

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