De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.
É claro que importava. A queda, o sangue. Mas havia coisa demais antes, e era tão forte que a cor de vermelho que se vê lavar a todas as outras sempre que aparece não conseguiria desbotar. Mas o figo, e a queda, não se sabe quem disse, estão no teto da capela, para encobrir as estrelas, e com elas o sentimento de ser pequeno, a verdadeira vergonha, a que não havia antes, era a culpa e o pecado, a vergonha do corpo, veio um fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal, e parece ser mesmo podre e só haver mal, o cruel assassino que intumesce de ódio rochedos escuros riscos e profundos ermos de um lugar onde luz alguma faria sentir os olhos e só haveria poetas condenados a mostrar aos outros razões do pecado e dizer aos enfermos o sentido do medo. Seria o mesmo que rasgar as palmas do primeiro que condenaram a verter sangue por causa da vergonha, a primeira, nunca a última, e irrompem estigmas rubros muito abertos revelando a carne que dizem ser feita de culpa. Para mim parecia ser só um figo cheio de sumo estourando de mais vida com o doce sentimento, e o outro achou que o figo era uma flor que abre para dentro, o quê, ele gritou, o figo, repeti, o figo é uma flor. Só que é como os primeiros dois, e como ele, eles expulsos do jardim onde estavam o bem e o mal embora não pudessem conhecê-los muito ainda que quisessem, ele expulso do reino das flores, que é um fruto doce cheio de carne que rasgamos para que não amadureça demais e para que o seu açúcar verta molemente preguiçoso lambuzando a cara das crianças sangrando o melado no queixo nas mãos, no pulso como o rasgo na palma pelo estigma escorrendo o pecado dos outros, e então o tecido fibroso de seu corpo morrendo entre os dentes que apontam brancos para o céu da boca acusadores, até que a pureza das canções infantis vire maldade e destile o ódio dos outros. Até que o figo esborrachado eu encarei e me pareceu uma boca querendo me beijar. Acaba a inocência, e já se sabe do bem e do mal, mas não servem para engendrar nada, nem construir foguetes ou salvar as almas, e ninguém mais vai para o céu.
Mas é o contrário dos nomes sagrados, antes. Pois para que dançassem no Éden ainda sem culpa alguém os pariu, e o útero rebentando em sangue também era uma fruta perdendo todas suas vísceras para o mundo de fora, e a primeira fruta rasgou para que houvesse mundo fora, debaixo do sol que a encheu de carne e vida. Mas não havia ninguém lá para fazer do ato a escultura, e a memória é mesmo falha, e nada ficou na pedra nem na memória que vira pedra quando está dura e seca o bastante para ninguém mais se importar, e nem o sabor amargo dentro da boca tenha sobrado, sendo só o cheiro de flor passada porque morreu há muito tempo e ficou guardada na gaveta.
Você disse que queria uma revolução, você sabe, todos queremos mudar o mundo. Mas não tinha importância. Não mudamos o mundo e sequer mudamos a nós mesmos. Éramos só flores já sem cor nem cheiro, exceto pelo perfume doce e muito antigo da gaveta em que nos guardaram, dentro de um livro, todos passados. Só que o mundo abriu uma navalha, estava cega, e ainda assim mais firme do que a pele que refletia, e mais limpa do que ela, como justificaram depois, é, o metal da navalha estava mais limpo do que a pele que ele tocou, então tinha de morrer mesmo, é o destino de todo animal que consegue encher o peito de ar nesta terra. E o metal era como um órgão barroco de igreja, riscando das entranhas da terra de onde eu nasci uma melodia violenta estranhamente agradável, que se perdia na catedral funda demais para deixar a fuga ou a luz fazerem eco. Mas não tinha importância, que há mais respeito no silêncio do que em qualquer melodia sacra, e por isso nada no mundo é mais sagrado do que a morte. Então é só por isso que nos criamos todos em profunda religiosidade, morrer a cada hora é um suspiro do relógio roubando suspiros. Afinal então estou mesmo mudando com o tempo, viver é morrer, e o perfume é realmente delicioso, parece uma ária que eu escrevi com todas as notas que encontrei nas flores que você deixou pelo caminho, é claro que eu as colheria, as rosas, as glicínias, as violetas e os cravos, primeiro para fazer mel e derramar pelos seus cabelos, depois para encher uma bacia onde me deitar e dormir, enfim para recolher todos os aromas de novo, até o dia em que te mataram e você me deixou aqui. Não tinha direito. Mas já não importa.
Não tenho preconceito, mas. Mas. Mas. Mas. Mas. Mas. Mas. Minhas palavras vão pisar em você mais duro do que as adagas podem bater nas portas durante essa noite.
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