Para
Ella Fitzgerald, Louis Armstrong
e George
Gershwin,
pela
fertilidade eterna de seus campos
Agora olho abismado a agulha travessa da vitrola,
que estala pequenas pipocas em sua ponta, que costura o oxigênio em volta de
si, estatiza-o remoendo os sulcos do disco com a delicadeza de gigantes
bondosos. Pelo ar passam a trafegar naves espaciais, rabiscos, chiados
apelativos ao tato da boca, quase como se pudéssemos mastigá-los em paladar de
frutas fugidias. E então me deito, medito, me dito no suave colchão abaixo dos
ombros, as suaves palmas de minhas mãos abaixo de meus cabelos, mesclas macias
de dedos e fios. E destes fios me estendo aos outros, estes fios sonoros que
nascem do disco e compõem aos poucos o croqui do espaço no quarto, os cantos, é
preciso acompanhá-los com o olhar sempre na agulha arteira, artéria que rasga
os cabelos do vinil e dá a rotação da terra em seu parto de música, toda a
materialidade dos verdes continentes em cada tom disperso e desperto.
Foi
há poucos dias que acariciei essa fanfarronice por primeira vez, primeiro
contato fora da órbita, descoberta verdadeira e única do que é para mim a
América: nada além da pungência sensual do Jazz, dos pretos que ali elevaram a
terra em santificada vastidão com suas cantigas, seus spirituals convexos e côncavos à beira das águas, lavando tecidos
brancos amarelados de tanto trabalho nas colheitas, delirando delírios como
ninfas e anjos terrenos. Foi há poucos dias que deparei-me com essa promessa
estendida na velha estante de meu pai, um disco de capa arrebentada e que
pressagiava, em uma mescla de vermelho e verde em seus dizeres, um tribunal de
rosas e ipês radioativos, hibiscos pulsantes, prometia Porgy & Bess and
Orchestra, George Gershwin a todo vapor como os primeiros carros da Ford ou as
fábricas na distante Inglaterra industrial, o júri das letras na capa
estampando que, estando o disco rodando, rodariam sem dúvida também as vozes de
Louis & Ella pelos gomos do tempo.
E
eis que, no preciso momento, ouço-os trabalhar, em registro.
O
disco roda já há alguns momentos primorosos, um pouco mais rápido que o
planeta, mas no ritmo certo, assim confirma a luzinha laranja de canto na
vitrola, que mostra o ponto correto de rotação no qual funciona esta máquina
acrobática. Zunzuns surgem então como abelhas poéticas recolhendo os cálices
das flores sem alterá-los, e um hino ao verão toma todos os espaços de minhas
cavidades internas, brônquios e sístoles, alívio, como se eu próprio fosse a
balada ali cantada, como se eu fosse transformando-me no verão daquelas vozes.
É Summertime, repuxo, propagando-se,
até abstraio os eventuais gritos janela afora que anunciam o decorrer de mais
uma partida de futebol nesta quarta feira.
Uma
irreverência apodera-se de mim, e os mais perfeitos nuances sonoros já
concebidos parecem dizer a mim toda a biografia da América melhor do que
qualquer livro didático, e cada falsete que é cada oscilação do disco para
fazer brotar Ella me dá todas as translações da história desde que o planeta é
planeta e bóia no seco do vazio do universo, apenas pinicado pelo campo minado
das estrelas. Minas, essas, que parecem estourar a cada passo da agulha quando
o tempo de verão se desenrola, quando se canta sobre o algodão alto e os peixes
pulando, fish are jumpin’ and the cotton
is high, vibram clarinetes e trompas no fundo, ressoa o trompete
irreverente e lúdico de Louis, ácido, avesso e encantador como um de seus
sorrisos estalados ou seus olhos brancos estatelados ou suas cordas vocais
patinando, como se tivessem em cima de si bolhas de sabão coloridas que dão
todo esse vaivém cremoso como o daquele balanço de minha infância na casa da
vovó, ou como o desenho das nádegas de um pêssego, da mulher perfeita, nariz de
anjo, veludo fértil.
Tento
juízos, reflexos, esfinges e giros, produzo em minha tela da imaginação um
plano-sequência de possíveis abstrações para desnudar o desenrolar dessa trova,
your daddy is rich and your ma is good
lookin’, uma ponta se ligando a outra, Louis daddy e Ella ma variando
sobre todos os temas, como insetos variando sobre todos os pólens,
recolhendo-os para si, para suas barrigas, para o próximo vôo que é sempre a
continuação de um mesmo,
One of these mornings
you`re gonna rise up singing
And you`ll spread your
wings and you`ll take to the sky
e as palavras batem em mim com seus ruídos
odorosos e ficam, permanecem, construindo tensão e volúpia de amargos e de
possibilidades, abrindo asas na nave de uma grande igreja gótica com todos os
seus vitrais multicores que são as vozes desses dois perfeitos amantes, primos
que se adoram, e que certamente tiveram seus descendentes da raça comum
laborando e sentindo o pulso da colheita em plantações diversas ao redor da
América folhuda, terra de externos que se assentam e que constroem o eterno
novo e a auto-suficiência sobre terrenos sempre promissores de flamingos
voadores e policulturas diversas de grãos e fumos.
E
de novo Ella, ela, Bess, admirando seu próprio amor, sua sensualidade que
trafega num oceano épico, e de novo Louis, que a cada toque de sua trombeta
proporciona uma risada esgarçada, uma gargalhada, ou mesmo um choro pela
quantidade de beleza possível nesse mundo, concentrada em pouco menos de cinco
minutos dessa canção que figura como a chave de todo o silêncio do universo. Contenho todas as voltas, então, os
retornos, as eternas partidas, essa canção é todas as canções, é o canto com
cordas sobre um ambiente, a credulidade, a instantaneidade dos momentos de
parto na natureza, todos, todos, todos explodindo como supernovas, como dentes
de pretos escravos, criando humor com grandes viradas de tramas como Poe,
enquanto bailo eu sobre esse ríspido sorriso que se faz na boca, sobre o plano,
o aeroplano que se estabelece com bolsas de requerimentos, voando acima até de
todos os céus, abaixo de todos os mares, Ahoy capitão!, ali vai e foge a grande
baleia, o grande horizonte, sigamos adiante para rir de Deus, para dizer que
com Louis e Ella há um basta às impossibilidades, basta um baixo, uma bateria e
um piano de fundo fazendo as tarefas da cozinha, como boas donas de casa
eternas em abraços e biscoitos gostosos, zumbidos e ronronares da orquestra
apropriando-se dos minutos, extensões vocais, Ella ricocheteando docemente como
uvas cortadas, a voz que vira gangorra, desce andares de uma escada com escorregadores
vermelhos e gigantes, o controle, nos timbres, das forças centrípetas e
centrífugas que, num empuxo, tragam-me para o centro da tormenta que venta e
afoga como o açúcar da conquista, o bloco exato da realidade em palavras que,
na verdade, são sons, códigos entrelaçados. E ao fundo só as camadas mil, os
velcros metálicos, as pétalas dos violinos. E Louis balbuciando com sua voz
rasgada, como se antes de cantar houvesse fumado setenta ou mais charutos,
Gershwin deixando sua contribuição em memória escrita e lida por alguém em uma
partitura, sua composição com pernas de garça que caminha como os elefantes de
Dalí, com pernas finíssimas e imaculadas, suportando em seus arranjos todos os
quilos do peso do mundo.
A
voz de Ella retorna terna da energia toda, só ela, a força de um coral gospel
inteiro, bancadas de pretas gordas cantando céu acima, adeus nuvens!, mas
também a delicadeza e a aerodinâmica das asas de todos os pássaros que trafegam
e ocupam as vias do ar, o ar que vai roçando a agulha lá do princípio, o ar
que, num gracejo de lágrimas e risadas, inflou o largo peito de Ella onde
fungava seu coração, invadiu a sua circulação e desembocou no delta da
vocalização, a adoração expressa em um corpo. E vem a harpa que indica o final,
que na verdade é a abertura, o tempo de verão dessa canção que se equipara, em
beleza, somente ao corpo de minha amada mulher atravessando todas as eras e
todos os cantos da via láctea, da ponta da testa às pontas dos dedões dos pés,
em um único orgasmo da excelência, nosso ato de amor, o tudo sendo sentido em
um único segundo, essa harpa final, essa abertura do trompete, todos os
falsetes e balbuciares aqui contidos neste disco, tudo que desmancha sobre nada
quando assim termina a música.
Então,
naves navegadas, pompas assoadas, recados recriados, crianças felizes lá
embaixo, perto da hora de dormir, percebo que nesse dia, que aos poucos
termina, andei até o fim de tudo que era possível andar dentro do que é o
célebre e célere mim mesmo, e lá, naquela luz extrema de bordas improváveis,
naquele manto de rapsódias e de sachês de leite e de galáxias, naquela horda,
naquela horta de charme e de improbabilidades, lá foi que eu encontrei o eterno
ressôo da humanidade, o grito primeiro, todos os primeiros poetas, os primeiros
trabalhos manuais, a primeira transformação da terra. Lá foi que eu encontrei
Louis & Ella cantando Gershwin, colhendo e cantando Summertime para todo o sempre.
que momento!
ResponderExcluircomo uma rajada de pollock
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