29.10.12

O chapéu coco


            Dias dentro de dias, como bonequinhas russas, manhãs atrás de manhãs, o sempre. E acordava ele, todo igual, e a madeira do chão lhe parecia sempre a mesma, e os pássaros pareciam cantar sempre na mesma hora ainda escura, acordando-o, e as olheiras dos rostos pairando no vagão do metrô pareciam sempre murchas, e longas badaladas depois, ao poente, os caminhões gritavam sempre iguais enquanto caçavam os sacos de lixo pelos cantos das ruas, e a chuva, quando havia (e sempre havia!), caía no mesmo horário, suspirando uma água repetidamente suspensa.
            Para quebrar a monotonia do sempre, ele, enfrentador, tinha um costume: abria o armário ao fim de cada um dos dias infinitos, e dele tirava uma caixa redonda branca e de tampo vermelho que roubara da avó, uma dentre tantas dessas relíquias que ficam no fundo da poeira, a poeira que impede o esquecimento. Dentro da penumbra da caixa repousava um chapéu coco, um desenho de feltro, um desenho de passado que sempre lhe parecia, esse sim, novidade eterna, justamente por não ser muleta do dia a dia, por estar guardado e protegido daquilo que é o sempre, a hora após outra, o rodeio interminavelmente igual.
            A princípio ele apenas olhava o chapéu, seus cantos e suas bordas, e essa faísca lhe bastava, pois dela retirava um respiro para seguir, permanecer, uma memória não vivida. Mas um dia, por volta da aurora, a curiosidade lhe levou além, e ele resolveu tirar o chapéu da caixa e experimentá-lo. O feltro roçou seus cabelos com maciez. Sentiu-se, subitamente, feliz, eufórico, renovado. Tudo lhe apetecia de forma diferente. Temperos pairavam ardentes. O chapéu tinha um poder mágico, eriçava os olhos e os outros sentidos. Percebeu, então, atônito, que a madeira do chão tinha ranhuras, arabescos nunca antes vistos. Os passarinhos pareciam descombinar a hora do canto, sorridentemente atrasados e adiantados em relação ao sol recém-chegado. Essa tormenta inicial de rumor nos exílios do tempo fez-lhe cogitar usar o chapéu durante o dia todo. E disso não se arrependeu. No vagão, todos os olhares nos rostos pareciam estrangeiros. Por volta do crepúsculo, fez questão de prestar atenção em como os roncos dos caminhões de lixo montavam uma sinfonia exótica, sem mesmice tonal. A chuva diária, que logo após começou, não era mais a de sempre, combatia o sempre, dava uma trégua na igualdade, sendo ora garoa, ora dilúvio, pingos de gorduras e alturas desordenadamente diferentes.
            Ele, então, envolto pela pura inocência e naturalidade da sede, começou a usar o chapéu diariamente, na esperança da renovação eterna, sempre farta, o massacre do cotidiano. Mas algumas semanas depois, farto, percebeu que a própria renovação do feltro do chapéu transformara-se em hábito das horas infinitamente iguais. Começou a sentir falta da lisura sempre igual da madeira do chão, dos horários e intensidades indiferentes dos fenômenos, os pássaros pontuais, o cansaço ocular, o caminhão ensurdecedor, a chuva sempre planalta e chapada. Trocavam-se os trajes em sua imaginação: a novidade vestia hábito, e o hábito vestia novidade.
            Percebeu que já estava na hora de momentaneamente aposentar o chapéu. Tirou-o da cabeça e sentiu o couro cabeludo respirar, aliviado. Guardou-o na caixa, e a caixa no armário.
            E agora, hoje em dia, educado pela experiência, sempre que ele, enfrentador, busca uma metamorfose excitante, para que o mesmo e o sempre não percam o sabor, para que não expirem o prazo de validade, aciona o chapéu por uma ou duas horinhas, em doses homeopáticas, dando goles curtos e providenciais na renovação de feltro que roça a testa, para que assim, dessa forma, ela possa parecer sempre eterna às pontas dos dedos de quem a sente. 

3 comentários:

  1. a cada metro quadrado de chão
    uma galáxia de signos

    ResponderExcluir
  2. VOcê se inspirou no poema do Sir Scott. não foi? HEhehe!!
    Se não, me lembrou bem, estar aprisionado no tempo!
    Muito interessante imaginar o pó para impedir o esquecimento. Não apenas para favorecer o esquecimento, mas ao mesmo tempo impedir. Assim como o a novidade veste o hábito e o hábito veste a novidade!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. oi cé!
      este texto veio antes do meu contato com o poema do sir walter scott. mas creio que, modéstia a parte, talvez tratemos de assuntos semelhantes com formatos diferentes. com esses raciocínios na contramão, como do pó e da vestimenta do hábito e da novidade, quis colocar no texto um lado lúdico da vida, mais ligado ao cotidiano também. fico feliz que gostou.

      Excluir