Dias
dentro de dias, como bonequinhas russas, manhãs atrás de manhãs, o sempre. E
acordava ele, todo igual, e a madeira do chão lhe parecia sempre a mesma, e os
pássaros pareciam cantar sempre na mesma hora ainda escura, acordando-o, e as olheiras
dos rostos pairando no vagão do metrô pareciam sempre murchas, e longas
badaladas depois, ao poente, os caminhões gritavam sempre iguais enquanto
caçavam os sacos de lixo pelos cantos das ruas, e a chuva, quando havia (e
sempre havia!), caía no mesmo horário, suspirando uma água repetidamente
suspensa.
Para
quebrar a monotonia do sempre, ele, enfrentador, tinha um costume: abria o
armário ao fim de cada um dos dias infinitos, e dele tirava uma caixa redonda
branca e de tampo vermelho que roubara da avó, uma dentre tantas dessas
relíquias que ficam no fundo da poeira, a poeira que impede o esquecimento.
Dentro da penumbra da caixa repousava um chapéu coco, um desenho de feltro, um
desenho de passado que sempre lhe parecia, esse sim, novidade eterna, justamente
por não ser muleta do dia a dia, por estar guardado e protegido daquilo que é o
sempre, a hora após outra, o rodeio interminavelmente igual.
A
princípio ele apenas olhava o chapéu, seus cantos e suas bordas, e essa faísca
lhe bastava, pois dela retirava um respiro para seguir, permanecer, uma memória
não vivida. Mas um dia, por volta da aurora, a curiosidade lhe levou além, e
ele resolveu tirar o chapéu da caixa e experimentá-lo. O feltro roçou seus
cabelos com maciez. Sentiu-se, subitamente, feliz, eufórico, renovado. Tudo lhe
apetecia de forma diferente. Temperos pairavam ardentes. O chapéu tinha um
poder mágico, eriçava os olhos e os outros sentidos. Percebeu, então, atônito,
que a madeira do chão tinha ranhuras, arabescos nunca antes vistos. Os
passarinhos pareciam descombinar a hora do canto, sorridentemente atrasados e
adiantados em relação ao sol recém-chegado. Essa tormenta inicial de rumor nos
exílios do tempo fez-lhe cogitar usar o chapéu durante o dia todo. E disso não
se arrependeu. No vagão, todos os olhares nos rostos pareciam estrangeiros. Por
volta do crepúsculo, fez questão de prestar atenção em como os roncos dos
caminhões de lixo montavam uma sinfonia exótica, sem mesmice tonal. A chuva
diária, que logo após começou, não era mais a de sempre, combatia o sempre,
dava uma trégua na igualdade, sendo ora garoa, ora dilúvio, pingos de gorduras
e alturas desordenadamente diferentes.
Ele,
então, envolto pela pura inocência e naturalidade da sede, começou a usar o
chapéu diariamente, na esperança da renovação eterna, sempre farta, o massacre
do cotidiano. Mas algumas semanas depois, farto, percebeu que a própria
renovação do feltro do chapéu transformara-se em hábito das horas infinitamente
iguais. Começou a sentir falta da lisura sempre igual da madeira do chão, dos
horários e intensidades indiferentes dos fenômenos, os pássaros pontuais, o
cansaço ocular, o caminhão ensurdecedor, a chuva sempre planalta e chapada.
Trocavam-se os trajes em sua imaginação: a novidade vestia hábito, e o hábito
vestia novidade.
Percebeu
que já estava na hora de momentaneamente aposentar o chapéu. Tirou-o da cabeça
e sentiu o couro cabeludo respirar, aliviado. Guardou-o na caixa, e a caixa no
armário.
E
agora, hoje em dia, educado pela experiência, sempre que ele, enfrentador,
busca uma metamorfose excitante, para que o mesmo e o sempre não percam o
sabor, para que não expirem o prazo de validade, aciona o chapéu por uma ou
duas horinhas, em doses homeopáticas, dando goles curtos e providenciais na
renovação de feltro que roça a testa, para que assim, dessa forma, ela possa
parecer sempre eterna às pontas dos dedos de quem a sente.
a cada metro quadrado de chão
ResponderExcluiruma galáxia de signos
VOcê se inspirou no poema do Sir Scott. não foi? HEhehe!!
ResponderExcluirSe não, me lembrou bem, estar aprisionado no tempo!
Muito interessante imaginar o pó para impedir o esquecimento. Não apenas para favorecer o esquecimento, mas ao mesmo tempo impedir. Assim como o a novidade veste o hábito e o hábito veste a novidade!
oi cé!
Excluireste texto veio antes do meu contato com o poema do sir walter scott. mas creio que, modéstia a parte, talvez tratemos de assuntos semelhantes com formatos diferentes. com esses raciocínios na contramão, como do pó e da vestimenta do hábito e da novidade, quis colocar no texto um lado lúdico da vida, mais ligado ao cotidiano também. fico feliz que gostou.