Clemência
Para Allen Ginsberg e Bárbara Clemente.
Eu vi! Negros panos te cobriam as peles, lentos pianos
em voltas de tubas, trompetes, despidos soluços
de mais de um profeta, de um jazzista crioulo, visceral,
humanimístico, como seus avós africanos, despedaçando
valsas de homem branco na luz morta de bares impuros
da Nova Orleans destruída, debaixo dormindo da lama
com que o rugido santo do mar mexicano em vão foi lavar
os pecados que nós erigimos em um século de sax e sexo,
agora só poeira na rebentação e prédios desfeitos em pedras,
e sei que a voz que gira no toca-discos diz que também te deseja:
que posso fazer?, como o caçador da savana, como o profeta da aldeia
iluminado por ervas omníricas, como Coltrane, saciar as vontades
no sangue fresco do cervo caído, falar com o abismo e ouvir sua ânsia por terra,
beber o espírito da madrugada dourada num solo de Artie Shaw, ou ser
a falta de ar no peito furado do confederado abatido?
Ridículo! Pois só a seta talhada no ferro pode suspender a carreira das feras,
só Coltrane pode mirar o interior da sombra e ouvir dela, "que queres?", enquanto
a sujeita à sua vontade infinitamente humana de semideus homérico que caminha
pelos clubes sem luz do Village, só balas de chumbo, natas de brasa, podem deitar
na relva quente o corpo morno dos soldados. Poetas, só fazemos absorver a imensa
dor do mundo, a das praças, a dos prados, e a das albas, e torná-la nossa,
Cristos de barbas rasas e de tabacos, na cruz que recorta o cima de nossas preces.
Mas se escrevo, também minhas palavras são coágulos, pedaços tintos de meus humores,
que desencarnam de mim porque não me pertencem mais, porque os perco a cada dia,
porque estou morrendo sempre desde que o fruto ventre da minha mãe rebentou-me
imaturo em grito e solfejo, e cada cigarro, cada terceto que cuspo na sarjeta me mata
um pouco, e eu mesmo não me pertenço mais. E por isso te sinto tão perto de mim:
você é bonita como uma pulsão de morte. Em cada suspiro rumo à treva aconchegante
eu te sinto, e te busco, ágil e ávido eu te busco; embora te sorva lento, teus vapores
descobertos nos céus de minha boca, refletindo sobre a rocha seca no sol americano, couro
da imensa serpente feita de asfalto e vento da Ruta 3, é a cento e oitenta por tempo que
passo, urgindo mais estrada, mesmo que ela acabe, não estou mais emparedado, mas do outro lado,
já a duzentos, o automóvel se desfaz no espaço de vultos, e se consome quando meu
corpo se choca contra o ar e me destrói, seu aço inteiro agora é um milhão de fragmentos
vermelhos, brilhantes, um novelo de vértebras de alumínio enfim libertos da opressão da forma,
e peças como espelhos, que vertem fagulhas do sol do Sul tão solo que apaga o claro do resto
do Universo, onde eu agora te vejo, estrela que ilumina indiferente os incêndios da matéria viva, morta,
viva, morta, viva, morta, viva, morta.
um fósforo riscado,
ResponderExcluirum pavio à beira do colapso
viver é morrer, my friend!
ResponderExcluirviver é lutar
ResponderExcluire perder
-se
só aquela paixao,
ResponderExcluirque me jogue debaixo das rodas de um camiao.
só aquela paixao.
deb